Administração Trump celebra a maior queda da população estrangeira nos EUA em mais de meio século

Analistas atribuem a queda histórica a deportações em massa, autodeportações e um endurecimento sem precedentes dos sistemas de visto. O governo afirma que a redução beneficia os trabalhadores americanos. Setores-chave da economia alertam para perdas milionárias e uma falta crítica de mão de obra.

Enquanto a Casa Branca celebra a “restauração da ordem”, o país enfrenta um deterioro de sua força de trabalhoFoto © Wikimedia Commons

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A administração do presidente Donald Trump proclamou ter alcançado a maior redução da população estrangeira nos Estados Unidos em mais de 50 anos, resultado de uma ofensiva migratória que combina deportações em massa, autodeportações e um fortalecimento extremo do controle de fronteira.

O Departamento de Segurança Nacional (DHS) afirmou nesta sexta-feira, através de seu perfil em X, que o país vive um “giro histórico” após registrar a primeira queda da população nascida no exterior em mais de meio século.

Segundo a entidade, a estratégia migratória do mandatário republicano, apoiada pela secretária de Segurança Nacional, Kristi Noem, desmantelou o que denomina "décadas de políticas falhas".

Em outro tuíte, a entidade destacou que “o tempo da migração ilegal em massa, das fronteiras abertas e do abuso de vistos acabou”.

Em seu comunicado oficial, o DHS atribuiu essa mudança a um aumento recorde no financiamento para agências de controle migratório, a agilização das deportações e a um esquema de segurança nas fronteiras que, segundo afirma, levou a centenas de milhares de expulsões e à “autodeportação” de mais de dois milhões de pessoas que optaram por deixar o país diante da iminência de operações.

A agência destacou ainda que o Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS) intensificou a vigilância sobre vistos e benefícios migratórios por meio de novas políticas de escrutínio, operações antifraude conjuntas com o Escritório Federal de Investigação (FBI) e o Serviço de Controle de Imigração e Alfândegas (ICE), além da eliminação de extensões automáticas de permissões de trabalho, com o objetivo de “restaurar a integridade” do sistema.

O governo enquadra esses resultados dentro de uma visão econômica pela qual a saída de imigrantes - especialmente não cidadãos e pessoas sem status legal - teria reorganizado o mercado de trabalho em favor dos trabalhadores americanos, argumento defendido por setores conservadores.

De acordo com dados oficiais, nos primeiros 200 dias do segundo mandato de Trump 1,6 milhões de imigrantes indocumentados abandonaram os Estados Unidos.

No entanto, o panorama econômico revela impactos severos. De acordo com dados preliminares do Censo analisados pelo Pew Research Center e citados pela agência Associated Press (AP), mais de um milhão de imigrantes desapareceram do mercado de trabalho em 2025.

Os efeitos são sentidos com força na agricultura, onde produtores da Califórnia e do Texas relatam colheitas não realizadas e perdas milionárias.

Organizações como a National Farmworker Ministry alertam que a ausência de mão de obra deixou campos inteiros sem ser colhidos durante temporadas cruciais.

A construção também enfrenta um retrocesso notável, com áreas metropolitanas como Los Angeles e Riverside perdendo milhares de postos devido à falta de trabalhadores imigrantes.

Analistas trabalhistas lembram que a imigração historicamente contribuía com cerca da metade do crescimento do emprego no país, por isso o declínio ameaça frear a expansão econômica.

Embora a administração Trump insista que suas medidas se concentram em “criminosos perigosos”, relatórios citados pela AP ressaltam que a maioria dos detidos não tem antecedentes criminais, o que amplifica o debate sobre o impacto humano e laboral da ofensiva migratória.

O governo, no entanto, afirma que este é apenas o início de uma nova etapa: a chegada de uma onda de agentes do ICE recém-treinados ampliará a capacidade de aplicar medidas em grande escala nos próximos meses, consolidando o que apresenta como “o fim da era das fronteiras abertas”.

A queda histórica da população estrangeira, exibida pela administração Trump como um triunfo político, expõe uma contradição central: enquanto a Casa Branca celebra a “restauração da ordem”, o país enfrenta um deterioramento imediato de sua força de trabalho, perdas milionárias em setores essenciais e um risco real de desaceleração econômica.

O retrocesso demográfico impulsiona uma narrativa de controle, mas também revela uma dependência estrutural de trabalhadores imigrantes que a estratégia atual ignora.

A redução do fluxo migratório pode trazer ganhos políticos a curto prazo, mas deixa um vazio que nem o mercado nem o governo demonstraram ter capacidade de preencher.

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