Administração Trump planeja mudanças para aumentar negações de "green card" e asilo

A administração Trump busca endurecer a política migratória ao considerar fatores negativos de certos países ao avaliar solicitações de residência e asilo, o que poderia aumentar as negativas.

Green card, imagem de referênciaFoto © CiberCuba / Sora

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O governo dos Estados Unidos prepara uma mudança na política migratória que pode dificultar a obtenção de vistos de residência (green cards), asilo, parole e outros status para imigrantes provenientes de países incluídos na proibição de viagem do presidente Donald Trump, uma lista que inclui Cuba.

Segundo rascunhos internos do Departamento de Segurança Nacional citados por The New York Times, os Serviços de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS) começariam a considerar os chamados “fatores específicos de cada país” —os mesmos que sustentam o veto migratório— como “fatores negativos significativos” ao avaliar os pedidos.

O cambio afetaria a pedidos de cartão de residência, asilo, liberdade condicional e outros status que requerem uma “análise discricionária”, ou seja, uma revisão na qual um funcionário pondera elementos positivos e negativos antes de aprovar um benefício migratório.

A nova norma não se aplicaria aos pedidos de cidadania e ainda está em fase de elaboração.

A medida suporia uma ampliação importante da campanha do governo para endurecer a imigração proveniente de países que, segundo Washington, não possuem sistemas fiáveis de verificação de documentos ou de cooperação em matéria de segurança.

Nos rascunhos, a agência observa que alguns estados não compartilham informações de antecedentes suficientes e que, em outros casos, as autoridades locais não têm capacidade adequada para emitir passaportes ou outros documentos, o que afetaria a confiança do USCIS na validade desses registros.

O debate se insere na proibição de viagem assinada em junho por Trump, que afeta 12 países, principalmente da África e do Oriente Médio.

A ordem impede a viagem para os Estados Unidos de cidadãos de Cuba, Afeganistão, Chade, República do Congo, Guiné Equatorial, Eritreia, Haiti, Irã, Líbia, Mianmar, Somália, Sudão e Iémen.

Além disso, impôs restrições parciais a cidadãos de outros sete países: Burundi, Laos, Serra Leoa, Togo, Turcomenistão e Venezuela, cujos cidadãos não podem entrar de forma permanente nem obter determinados vistos.

Trump defendeu a proibição de viagem alegando que um atentado terrorista recente havia destacado “os perigos extremos” de permitir a entrada de estrangeiros que —na opinião da Casa Branca— não foram devidamente investigados, e sustentou que pessoas de certos países apresentam um maior risco de permanecer além do tempo permitido por seus vistos.

A administração introduziu, no entanto, algumas exceções: ficam isentos os titulares de vistos válidos, os residentes permanentes legais, os atletas que viajem para os Estados Unidos para a Copa do Mundo de 2026 ou os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, assim como os afegãos que atendam aos requisitos do programa de Vistos Especiais para Imigrantes por terem colaborado com o governo dos Estados Unidos na guerra do Afeganistão.

Um ataque à imigração legal?

Especialistas em política migratória citados pelo Times consideram que a proposta representa uma mudança significativa.

Doug Rand, ex alto cargo do USCIS durante a administração Biden, classificou como "absurdo" que algo se aplique a uma pessoa "em função de seu país" e descreveu como "uma mudança radical".

A seu ver, isso representa uma escalada no ataque do governo Trump contra a imigração legal, uma vez que afetaria pessoas que já passaram por verificações de segurança nacional e vivem legalmente nos Estados Unidos.

O ex-funcionário Michael Valverde, que trabalhou por mais de duas décadas no USCIS, lembrou que a agência sempre lidou com documentos difíceis de validar por procederem de países com práticas de segurança fracas, mas destacou que é inédito que essas dificuldades se tornem um fator negativo formal nas solicitações.

Afirmou que será fundamental observar se os solicitantes realmente conseguem superar esse “fator negativo” ou se, na prática, isso se transforma em uma proibição de fato para aqueles que vêm dos países mencionados.

A analista Sarah Pierce, que também trabalhou na USCIS e hoje é diretora de política social no centro de estudos Third Way, afirmou que “não há como essa política não aumentar as negações” e que coloca em risco a ideia de uma revisão justa e imparcial desses casos.

Segundo Pierce, é legítimo que o governo avalie se há informações suficientes para concluir que um solicitante não representa um risco à segurança, mas ele questionou que esse juízo seja pré-determinado “porque alguém é de um determinado país”, o que poderia levar a impugnações legais por discriminação de nacionalidade.

Mais controles e menos vias de proteção

O plano é apresentado como parte de um movimento mais amplo da administração para restringir as vias de imigração legal.

No mês anterior, o governo reduziu o número de refugiados que aceitariam neste ano fiscal e rejeitou a entrada de milhares de pessoas que fogem da guerra e da perseguição, enquanto reservava vagas para afrikaners sul-africanos, em sua maioria brancos.

Em paralelo, a USCIS ampliou as investigações em redes sociais e os controles de “atividades anti-americanas” para certos solicitantes de benefícios migratórios, incluindo aqueles que buscam cartões de residência.

A agência informou que, no ano fiscal de 2025, completou 12.502 verificações individuais em redes sociais.

Segundo os rascunhos citados pelo Times, os mesmos “fatores negativos” ligados ao país de origem se aplicariam também a pedidos de asilo e liberdade condicional humanitária (parole), o que poderia fechar ou dificultar seriamente vias de proteção para pessoas que já se encontram dentro dos Estados Unidos e que até agora confiavam em uma avaliação individual de seus casos.

Rand destacou que a mudança busca "chegar ao interior dos Estados Unidos e mudar as expectativas estabelecidas" de quem já está no país com status legal.

O próprio rascunho reconhece que a USCIS não sabe como a nova política afetaria as taxas de negação, embora vários especialistas prevejam um aumento notável de recusas e uma enxurrada de processos.

Pierce afirmou que a norma seria especialmente vulnerável porque, ao contrário do veto de entrada na fronteira, se aplicaria a pessoas que já estão dentro dos Estados Unidos, o que abre uma zona cinza legal distinta da das proibições de viagem tradicionais.

Por enquanto, o plano permanece em fase de rascunho, mas, se confirmado, representaria um novo endurecimento da política migratória estadunidense, com impacto direto sobre solicitantes de green cards, asilo e outros benefícios cujo destino poderia depender, cada vez mais, do país em que nasceram.

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