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A publicação do diário Granma no Facebook, que afirmava que “Havana avança para um modelo de cidade inteligente e sustentável”, gerou uma avalanche de comentários críticos e zombarias nas redes sociais, onde centenas de cubanos reagiram com indignação e sarcasmo diante do que consideram mais um exemplo do triunfalismo do regime frente à crise diária do país.
O post acumula centenas de respostas que resumem o sentimento geral: incredulidade, desconforto e sarcasmo. “Cidade inteligente? Se nem energia temos”, escreveu um usuário, enquanto outro ironizou que “será inteligente porque sabe esconder o lixo”. Também abundaram comentários como “inteligente deve ser o mosquito da dengue que desvia dos buracos das ruas” ou “o único sustentável aqui é o desastre”. Muitos zombaram do triunfalismo do regime ao afirmar que “eles vivem em um país paralelo, onde tudo funciona no PowerPoint”, ou que “colocam uma tela na rua e chamam de cidade inteligente; enquanto isso, os hospitais estão caindo aos pedaços”.
Outros usuários, mais indignados do que sarcásticos, questionaram diretamente a desconexão entre o discurso oficial e a realidade. “Falam de tecnologia quando nem conseguem garantir água ou transporte”, escreveu um. “No dia em que coletarem o lixo, consertarem as ruas e houver medicamentos, então poderemos falar de cidade inteligente”, comentou outro. Um internauta acrescentou que “o único digital aqui são os apagões programados”, enquanto outro resumiu o sentimento de muitos com um contundente: “Deixem de insultar o povo com essas mentiras, que ninguém acredita mais”.
Também houve comentários que relacionaram o título com a crise geral do país: “Dizem que Havana é inteligente, mas o cubano continua fazendo filas para comprar pão e carregando baldes de água.” “Inteligente seria um governo que não deixasse sua gente morrer em hospitais sem insumos,” apontou alguém mais. “A cidade inteligente deve ser aquela que sabe sobreviver sem luz, sem transporte e sem esperança,” escreveu outro, em uma reflexão compartilhada dezenas de vezes.
Muitos reagiram, além disso, com ironia à ideia de sustentabilidade. “O único que se sustenta aqui é a miséria”, apontou um usuário. “Será sustentável porque nunca muda, estamos há anos na mesma”, brincou outro. E um comentário que recebeu numerosos apoios resumiu o sentimento coletivo: “Deveriam fazer um congresso de cidades ilusórias, aí sim ganharíamos de goleada.”
O humorista Ulises Toirac reagiu com ironia à mensagem do Granma. “Havana a caminho de se tornar uma cidade inteligente é a melhor notícia que ouvi ¡há muito! ¡Estamos salvos!”, escreveu em suas redes sociais, provocando uma avalanche de reações entre seus seguidores. Com seu habitual sarcasmo, ridicularizou a ideia de modernização tecnológica promovida pelo governo e apontou os problemas estruturais enfrentados pela capital. “A cidade enviará um alerta: ‘A localização da torre da ETECSA é um desastre porque metade de sua cobertura é recebida pelos peixes que não estão nadando por nossas costas’. (…) ¡Sobre o transporte, nem se fala! Vai detectar todas as maracutaias dos motoristas e fará uma análise de atrasos e fluxo de habitantes”, ironizou.
Toirac também se referiu ao contraste entre a narrativa triunfalista do regime e a realidade cotidiana dos cubanos: “Quem me dera que algum dia a inteligência não estivesse na cidade, mas sim em quem a dirige”. Seu comentário foi amplamente compartilhado e celebrado como uma demonstração do humor com que muitos cubanos enfrentam o absurdo do discurso oficial.
También a escritora Wendy Guerra reagiu com dureza à mensagem do jornal do Partido Comunista, qualificando a nota de “mentira” e “cortina de fumaça”. “Em meio à grande crise que atravessa toda Cuba, hoje surge este título em Granma, órgão e rosto oficial do PCC. A jornalista que decide assinar este artigo sabe perfeitamente, como nós todos sabemos, a mentira, o teatro, a cortina de fumaça que está ajudando a montar enquanto o povo tenta sobreviver”, expressou no Facebook. A autora fez ainda um apelo aos jornalistas do país: “Faço um chamado de atenção aos jornalistas cubanos. Peço àqueles que não têm a coragem de denunciar que, pelo menos, tenham a decência de não mentir sobre a terrível crise que vive Havana e o resto dos povos e cidades da ilha. (…) É verdade que ‘Havana avança em direção a um modelo de cidade inteligente e sustentável’? Por favor, não insulte a nossa.”
As reações de Toirac e Guerra refletem o mesmo tom de frustração e sarcasmo que domina os comentários nas redes, onde muitos usuários apontam que a capital vive entre apagões, lixos transbordantes, transporte colapsado e deslizamentos, enquanto o regime fala de “inovação tecnológica” e “participação cidadã”. Essa tensão entre o discurso oficial e a experiência cotidiana já havia ficado evidente quando dezenas de cubanos reagiram ao reportagens sobre a chamada “cidade inteligente” de Havana, publicado dias antes por meios oficialistas e amplamente questionado nas redes sociais.
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