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As declarações de Silvio Rodríguez afirmando que nunca se desiludiu com a Revolução geraram uma onda de críticas entre cubanos dentro e fora da ilha, que o acusam de ter vivido com privilégios sob a proteção do regime, enquanto o povo sofre com apagões, fome e repressão.
Em uma entrevista com a edição em espanhol de Rolling Stone, o trovador cubano, de 79 anos, reafirmou sua fidelidade ao processo revolucionário: “Desiludido com a revolução nunca me senti, jamais. Desiludido com algumas pessoas, sim, com certeza”. Ele também fez elogios a Fidel Castro, a quem definiu como “um tipo genial”, e defendeu o conceito de Revolução como algo “necessário”, embora não perfeito.
Mas para muitos cubanos, essas palavras foram insultantes em meio a uma Cuba que enfrenta uma crise profunda, com apagões diários, falta de medicamentos, inflação descontrolada e um êxodo histórico. A reação foi quase imediata. No post do Facebook que CiberCuba publicou sobre a entrevista, dezenas de pessoas concordaram em um mesmo diagnóstico: Silvio não vive na realidade do povo cubano.
A ativista Amelia Calzadilla foi uma das primeiras a reagir, escrevendo: “A resposta é super simples. Este velho não vive com o sistema como todos nós, vive do sistema como os aproveitadores que conhecemos. Fim de citação.”
Outros usuários questionaram diretamente a desconexão do artista com a vida real. “Ele não sofre o que sofre o cubano comum”, apontou um comentário. “Claro, se você vive nas melhores 'peceras' das clárias”, ironizou outro. Um foi mais específico: “O dia que Silvio for atendido no Clínico de 26, sentirá que há coisas ‘perdidas’ mais importantes que o Unicornio”, em alusão a uma de suas canções mais célebres.
A crítica mais repetida foi a de que Silvio, há décadas, tem sido parte da elite cultural oficialista e desfrutou de privilégios inacessíveis para a maioria. “Com um violão, cantando e vivendo bem, qualquer um”, resumiu um usuário. “Ele vive em uma faixa de conforto”, disse outro. A frase “vive dentro de Cuba, mas não em Cuba” apareceu várias vezes.
Alguns lembraram que, embora o trovador tenha se mostrado crítico no passado em relação a certas decisões do governo, ele sempre foi funcional ao sistema. “Sempre ao lado dos ditadores”, escreveu alguém. “Este é como a folha de caimito, conforme sopra o vento”, afirmou outro, aludindo à sua aparente capacidade de mudar de tom de acordo com o momento político.
Também houve questionamentos sobre sua postura moral. “Não há nada mais patético do que um escravo defendendo suas correntes”, sentenciou um internauta. “Ele pisa sobre o povo, sempre foi um oportunista; nem revolucionário nem do povo”, dizia outra mensagem. Um dos comentários mais contundentes afirmava: “Você não se desiludiu porque sempre foi um ajoelhado e submisso da Revolução. Não se importa com o que os outros sofrem”.
Incluso se aludiu ao seu histórico político: “Reeducaram-no bem na UMAP. O que lhe terão feito que ainda lhe dura?”, dizia uma usuária, referindo-se às Unidades Militares de Ajuda à Produção, onde foram internados milhares de jovens nos anos 60 devido à sua orientação sexual ou crenças religiosas. Embora alguns o recordem como vítima, outros o acusam de ter se virado a favor do regime mais tarde: “Esse personagem esteve na UMAP junto com meu pai e depois se virou a favor da robó-lução”.
A contradição entre seu discurso político e sua vida confortável foi um dos principais focos de irritação. "Claro, se à custa da Revolução ele ficou milionário", comentou uma pessoa. "Que tipo de descarado. Ele viveu bem no meio da miséria", escreveu outra. Um foi mais longe: "Esse senhor de duas caras tem até empregados e sempre esteve ao lado dos exploradores, não dos explorados".
Também se questionou seu papel dentro do aparato cultural do regime. “Ele fez o negócio perfeito. Entrou na rede de corrupção do PCC. Há pessoas que sabem captar de onde vem o dinheiro. Homem de negócios”, opinou alguém. Outro lembrava: “O que ele deve ter recebido? Recentemente fez declarações interessantes, chamava à reflexão e a fazer mudanças… agora diz isso. Inentendível”.
Entre as muitas referências às suas canções, a mais repetida foi uma linha de seu tema “Te doy una canción”: “A cidade desmorona e eu cantando”. Para muitos, a frase se tornou literal. “Sua revolução está em ruínas, Silvio, e você continua cantando como se nada estivesse acontecendo”, sentenciou um usuário.
Embora tenha havido algumas vozes isoladas em sua defesa, a reação em massa foi de repúdio. Muitos confessaram sentir-se decepcionados por alguém a quem admiravam. “Tanta admiração que eu tinha por ele… é uma pura decepção”, disse um usuário. Outros foram mais incisivos: “Eu não o julgo, foi um ícone, mas o governo o cercou de privilégios… agora ele não vai nadar contra a correnteza”. E outro concluiu: “Silvio nunca se desiludiu porque nunca teve que viver como nós”.
Em um país onde muitos sentem que já não têm voz nem esperanças, as palavras do trovador soaram como uma provocação. E seu silêncio diante dos comentários também.
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