“Visto negado”: Aumenta o drama das famílias cubanas separadas pelo veto migratório de Trump

A política migratória de Trump bloqueou milhares de vistos e separou famílias cubanas. Na Flórida, a comunidade exige mudanças urgentes para se reunir com seus entes queridos.

Aeroporto Internacional José Martí de Havana, ponto de partida de milhares de famílias cubanas que buscam se reunir com seus entes queridos nos Estados Unidos.Foto © Facebook/Aeropuerto Internacional José Martí

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Leymi Reyes Figueredo sonhou durante três anos em voltar a abraçar sua filha. Em sua casa em Miami, decorou um quarto com ursinhos de pelúcia e uma pequena Estátua da Liberdade, símbolo do futuro que imaginava para a adolescente que deixou para trás em Cuba. Mas esse sonho parou numa manhã de agosto, quando um funcionário da embaixada americana em Havana entregou à sua filha um papel com uma palavra que pesa como uma condenação: visto negado.

A razão, segundo documenta The Washington Post, foi a proibição de viagens do presidente Donald Trump, uma ordem executiva que restringe a entrada de cubanos nos Estados Unidos sob o argumento de proteger o país de ameaças terroristas. Na prática, a medida destroçou os planos de milhares de famílias e reavivou uma velha ferida na comunidade cubana: a separação como um destino imposto.

Uma política que congela abraços

Han passado vários meses desde a assinatura da Proclamação Presidencial, que em junho passado paralisou os processos de reunificação familiar iniciados por residentes legais cubanos e suspendeu múltiplas categorias de visto. Na comunidade cubano-americana, especialmente no sul da Flórida, o impacto tem sido devastador.

Madres como Lianet Llanes, entrevistada por Telemundo 51, têm visto como sua esperança se transforma em frustração. “É como jogar um balde de água fria, bem suja”, disse ao saber que o caso de sua filha ficava suspenso.

Sua história se repete em milhares de lares, com solicitações aprovadas, entrevistas consulares pendentes e um muro burocrático que se eleva justo quando o reencontro parecia próximo.

A proclama suspende os vistos de turismo, negócios, estudos e intercâmbio (B1, B2, F, M e J), assim como várias categorias familiares que não se qualificam como “imediatas” de cidadãos americanos. As únicas exceções se limitam a pais, cônjuges e filhos menores de cidadãos norte-americanos.

O resultado são famílias inteiras presas em um limbo migratório, onde a lei parece brincar com os sentimentos mais básicos.

"Como pode uma criança ser terrorista?"

“Entendo por que é preciso proteger o país,” disse Leymi Reyes Figueredo ao Washington Post. “Mas como pode uma criança ser terrorista?”. Sua filha, de apenas 15 anos, esperava se reunir com ela neste verão. Em vez disso, continua em Cuba, sob os apagões, a escassez e a solidão.

A história de Reyes Figueredo encarna a paradoxa de uma política que diz defender a segurança nacional, mas atinge com maior força as famílias que seguiram todos os canais legais para emigrar. O próprio Departamento de Estado justificou a medida alegando a falta de cooperação do governo cubano em matéria de segurança e repatriações.

“Isso não se trata de política, mas de famílias separadas que apenas pedem para estar juntas”, disse recentemente uma das participantes de uma manifestação convocada no dia 31 de agosto no restaurante Versailles em Miami, onde dezenas de cubanos exigiram o fim do Travel Ban.

Um exílio dividido

O veto também provocou um cisma dentro da comunidade cubano-americana. Segundo The Washington Post, muitos dos novos exilados se sentem traídos por uma administração que prometeu priorizar a imigração legal a partir de Cuba.

Arely Díaz Leal, residente em Tampa, votou em Trump convencida de que ele favoreceria a reunificação familiar. Hoje, espera, há quase uma década, trazer seu filho adulto da ilha. “Amo o Trump”, confessou ao jornal americano. “Mas não acho que seja justo”.

Essa contradição reflete o dilema de uma comunidade historicamente aliada do Partido Republicano, mas agora dilacerada por políticas que penalizam precisamente os seus. As recentes protestas em Miami, organizadas pelo coletivo Residentes e Ciudadanos Unidos, têm buscado pressionar a Casa Branca para que exclua as categorias familiares do alcance do veto.

“Queremos visibilizar um pedido concreto: retirar as famílias do Travel Ban”, disse a porta-voz Edisleidys Martínez Álvarez ao Diario de las Américas.

Crianças que crescem sem abraços

Nos lares cubanos, a política migratória tem rosto e voz. Lauren Hernández Reyes, a filha de Leymi, escreve para a mãe a partir de um quarto escuro, entre apagões e escassez. “Sinto-me sozinha. Sinto falta de sua companhia”, confessou em uma entrevista.

Outra mãe, Liudmila Gutiérrez Fundora, teme que sua filha de 10 anos também não consiga obter um visto. “Ela não teve sua entrevista, mas com toda certeza a negarão”, disse entre lágrimas.

Ella e seu marido, professores residentes no condado de Broward, esperavam que o sacrifício de anos servisse para reunificar a família. Agora, resta apenas a incerteza.

Em palavras do advogado de imigração Willy Allen, consultado por CiberCuba, o veto representa “uma punição política que nada tem a ver com a segurança nacional”.

Um sonho que se desvanece

O “sonho americano” que um dia foi uma promessa de prosperidade para os cubanos se transforma, mais uma vez, em um muro. Em Miami, as manifestações são pacíficas, os cartazes pedem respeito e os manifestantes vestem branco como símbolo de esperança. Mas por trás de cada slogan há uma história suspensa no tempo: crianças que aprendem inglês sem saber se poderão usá-lo, pais que envelhecem esperando abraçar seus filhos, avós que temem morrer sem conhecer seus netos.

No coração da Pequena Havana, sob o calor de agosto, William Suárez González ergueu um cartaz com a foto de sua esposa e enteada, a quem também foi negado o visto.

“A esposa do senhor Trump é imigrante. Não entendo qual é o problema com os imigrantes que tentam entrar legalmente no país”, disse ao Washington Post.

Meses depois do veto, o drama continua crescendo. As famílias cubanas permanecem presas entre promessas políticas, trâmites suspensos e a distância. Enquanto isso, os quartos decorados para filhos ausentes permanecem vazios, como símbolo de um país dividido por fronteiras, mas unido pelo mesmo anseio, que é voltar a estar juntos.

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Equipe Editorial da CiberCuba

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