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Não basta dizer que o sistema de saúde cubano está em crise: há responsáveis. E um dos mais visíveis — e que baseia sua legitimidade precisamente no discurso médico — é José Ángel Portal Miranda, ministro da Saúde Pública desde 21 de julho de 2018.
Sob sua gestão, o deterioro não foi um acidente: foi governado, permitido, legitimado. Esta nota busca fazer um balanço rigoroso dos fatos, atribuir responsabilidades e expor como sua gestão contribuiu direta e indiretamente para o colapso sanitário, para a vulnerabilidade da população e para a exploração médica internacional.
Do reconhecimento ao colapso estrutural
Em julho de 2025, diante da Comissão de Saúde e Esporte da Assembleia Nacional, Portal Miranda admitiu que Cuba enfrenta uma “crise estrutural sem precedentes”, que a cobertura do quadro básico de medicamentos gira em torno de 30 %, e que a recuperação depende do financiamento externo.
Na mesma apresentação, destacou que a mortalidade infantil alcançou 8,2 por cada mil nascidos vivos e a mortalidade materna chegou a 56,3 por cada 100.000 nascimentos — retrocessos notáveis em indicadores que durante décadas foram bandeira revolucionária.
O ministro anunciou 13 ações estratégicas com 33 metas e indicadores, mas foi claro: “nem todos mostrarão resultados imediatos”. Ou seja: reconheceu a gravidade do problema, mas admitiu não ter uma solução imediata. Isso em si já revela ineficácia, passividade ou cumplicidade.
Farmácias vazias, promessas de exportações
Portal Miranda reconheceu várias vezes que a escassez de medicamentos não será resolvida em breve. Em 2024, afirmou aos deputados que continuaria a falta de medicamentos na rede estatal de farmácias.
A repentina crueza de Portal Miranda contrastou com as reiteradas promessas suas e de sua equipe sobre investimentos e compromissos para produzir mais medicamentos.
Em paralelo, em fóruns internacionais e com discursos chamativos, oferece vacinas, produtos biotecnológicos e cooperação técnica, como se Cuba tivesse recursos sobrando para doar, quando grande parte de seu território sofre com a falta de suprimentos.
Esta dicotomia entre doação para fora e crise interna é uma contradição injustificável, e uma evidência a mais da desconexão das elites do regime com a população que - além de indicar a normalização da desigualdade em Cuba -, sublinha a imoralidade e indiferença de dirigentes mais preocupados em gerar receitas com as exportações do que em atender às necessidades dos cidadãos.
Mosquitos, vírus emergentes e insalubridade urbana
A pressão sanitária não se limita a doenças crônicas ou ao acesso a medicamentos: Cuba tem observado um aumento de arboviroses e vírus emergentes. O MINSAP relatou mais de 400 casos confirmados do vírus Oropouche desde sua detecção em maio até agosto.
Esse número oficial afirma que o vírus chegou a todas as províncias e demonstra quão precário é o controle epidemiológico.
O dengue também está ativo em várias áreas, epidemias respiratórias se multiplicam e surtos digestivos surgem devido à insalubridade urbana, à deterioração do esgoto, água contaminada e ao acúmulo de lixo que não é coletado.
A isso se soma a reaparição de casos de chikungunya, outra arbovirose transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, que coloca em alerta províncias vulneráveis.
Muitos cubanos vivem rodeados de condições que, em qualquer outro país, seriam tratadas com protocolos e mobilização imediata. Quando o sistema de saúde nacional funciona como um sistema de vulnerabilidade (mais reativo do que preventivo), não apenas se expõe a epidemias: a morte evitável se torna algo natural.
Exportação médica: Exploração encoberta com nome oficial
Uma das pedras angulares da legitimidade internacional do regime cubano é a exportação de serviços médicos.
Mas sob o comando de Portal Miranda, essa atividade tem exibido traços de escravidão moderna, como denunciado por relatores da ONU que identificam “indícios de trabalho forçado” nesses programas.
Em 2025, o próprio ministro admitiu que os passaportes dos médicos em missões internacionais foram retidos pelas chefias das brigadas “para que não se perdessem”.
Essa confissão oficial corrobora o que médicos exilados e ativistas têm denunciado: os colaboradores recebem uma fração do que os países contratantes pagam, com mobilidade controlada, dependência forçada e condições de trabalho restritivas.
Diversas investigações de meios independentes e organizações não governamentais afirmam que o regime retém até 70% do salário de médicos em missões, o que alguns consideram um modelo de trabalho exploratório.
Esta exportação em massa não apenas viola os direitos trabalhistas dos profissionais, mas também deixa as instituições do MINSAP dentro do país sem atendimento, uma vez que muitos hospitais e policlínicas enfrentam déficits crônicos de pessoal médico devido ao envio obrigatório ou voluntário de médicos para o exterior.
A população, portanto, paga o custo da estratégia exportadora com mais precariedade no serviço público de saúde, mais filas, mais negligências e menos acesso a tratamentos especializados e medicamentos.
Mortes evitáveis, sofrimento cotidiano e colapso institucional
No dia a dia de milhares de cubanos, a doença se tornou uma sentença sem apelação. Em uma sala de espera sem ventilação, uma mãe segura seu filho com febre alta, esperando por um antibiótico ou antipirético que não chegará.
Na capital, uma gestante perde a vida por suposta negligência médica (quase nunca são investigadas e quase sempre ficam em "suspeitas"). Em um bairro qualquer, um idoso com hipertensão para de tomar seu tratamento porque os comprimidos desapareceram das farmácias há meses.
São mortes evitáveis. Dor que não deveria existir.
Enfermos mentais deambulam pelas ruas de Cuba sem tratamento, ou são cuidados em casa em condições sub-humanas. Os centros psiquiátricos são verdadeiros infernos, dos quais saem dezenas de denúncias sobre as condições deploráveis que oferecem, bem como de mau-tratos e abusos sobre pacientes.
Os hospitais, uma vez apresentados como vitrines do modelo cubano, hoje são edifícios em ruínas. Há salas infestadas de baratas, banheiros inservíveis, equipamentos fora de serviço, falta de água, falta de insumos, falta de médicos. O serviço de ambulâncias está reduzido ao mínimo e em muitas localidades as transferências urgentes dependem de favores ou pagamentos extras.
Médicos e enfermeiros, sobrecarregados pelo estresse e sem condições mínimas, fazem o que podem. Mas o êxodo profissional é massivo: a cada mês, dezenas de especialistas abandonam o sistema, emigrando ou sendo enviados para o exterior em “missões” que esvaziem os quadros nacionais. O resultado é uma atenção fragmentada, caótica, muitas vezes negligente.
Em centros onde se deveria salvar vidas, o paciente já não é prioridade, mas sim um fardo a mais em um sistema colapsado. As denúncias se acumulam. Alguns profissionais falam com crueza: “isto já não é um hospital, é uma pocilga”.
Os que podem, pagam. Pagam por uma consulta privada, por uma injeção, por um tratamento, um cateter, um kit de operação de catarata, uma seringa, fio de sutura ou curativos estéreis. Pagam a um mensageiro, a um enfermeiro ou a um médico que já não recebe do Estado porque o salário estatal não é suficiente. Os que não podem, esperam. E às vezes morrem.
O drama dos pacientes renais é emblemático. Em 2024, o jornal El País documentou o caso de uma menina que precisava de hemodiálise: sua mãe, desesperada, recebeu apenas uma recomendação brutal: “Se você quer que sua filha viva, tem que tirá-la do país”. A sociedade civil cubana conhece esse mantra e tem sido testemunha de vários casos dramáticos que o confirmam.
Essa frase resume o estado atual da saúde em Cuba: um sistema que já não pode cuidar, que já não pode curar, que já não pode proteger. E aqueles que sofrem as consequências não aparecem nos discursos do ministro, nem nos relatórios oficiais, nem nas estatísticas manipuladas.
São os rostos do colapso: uma população vulnerável, presa entre a escassez, a péssima gestão, a corrupção e a resignação.
A responsabilidade de Díaz-Canel
O comando de Portal Miranda à frente do Ministério da Saúde Pública (MINSAP) não é uma casualidade, mas sim uma decisão política.
O responsável último por esta catástrofe sanitária é o governante Miguel Díaz-Canel, que o nomeou e o mantém no cargo, apesar dos resultados devastadores.
A permanência do ministro representa não apenas uma demonstração de impunidade, mas uma mensagem de continuidade: a saúde pública cubana continuará a ser gerida como um recurso político, e não como um direito cidadã.
Uma mudança urgente que começa com prestação de contas
Para os cubanos, a pergunta já não é se o sistema de saúde está em crise: é quem assume responsabilidades e como mudá-lo. José Ángel Portal Miranda tem sido, durante os anos de governo de Díaz-Canel, o protagonista e um cúmplice necessário do deterioro.
Mais do que discursos, Cuba precisa de uma reforma radical do sistema de saúde: políticas de transparência, auditoria independente, reinvestimento de receitas médicas exportadas, recuperação da indústria farmacêutica, direitos trabalhistas para os profissionais de saúde, atenção preventiva priorizada e prestação de contas sobre aqueles que hoje vivem da dor alheia.
Solo assim poderá começar a reverter-se o desastre. O país não pode continuar por mais tempo com um ministro à frente que, consciente da catástrofe, a administra e a legitima. Nem tampouco com um governante, uma “continuidade”, um sistema falido e um regime que prioriza seu interesse de perpetuar-se no poder ao bem-estar dos cidadãos.
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