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Cuba atravessa uma das crises epidemiológicas mais complexas dos últimos anos: a cocirculação simultânea de três vírus transmitidos por mosquitos —dengue, chikungunya e Oropouche—, um fenômeno que os especialistas internacionais denominam “arboviroses combinadas”.
No entanto, o ministério da Saúde Pública (MINSAP) não o reconhece oficialmente nem modificou seus protocolos de vigilância e atendimento para refletir essa nova realidade.
Desde julho, a província de Matanzas se tornou o epicentro de uma onda contínua de contágios que já atinge várias províncias do oeste e do centro do país.
Embora as autoridades reconheçam a “transmissão ativa de dengue” em sete províncias, evitam mencionar a coexistência de outros vírus, apesar dos relatos médicos e comunitários que descrevem sintomas atípicos e quadros febris prolongados.
O próprio doutor Francisco Durán, diretor nacional de Epidemiologia, admitiu publicamente a detecção de casos de chikungunya e suspeitas do vírus Oropouche em algumas áreas de Matanzas.
No entanto, o discurso oficial continua tratando cada surto de forma isolada, o que dificulta a compreensão da magnitude do problema e limita a resposta sanitária no terreno.
Três vírus, um mesmo vetor
O dengue, a chikungunya e o Oropouche são arbovírus —vírus transmitidos por artrópodes como os mosquitos Aedes aegypti e Culicoides paraensis— que compartilham manifestações clínicas: febre, dor muscular, cefaleia intensa, erupções cutâneas e fraqueza geral.
Essa similitude faz com que os médicos não consigam diferenciá-los sem exames específicos, o que em Cuba é praticamente impossível devido à falta de reagentes e equipamentos básicos nos laboratórios provinciais.
Em hospitais de Cárdenas e Colón, médicos denunciaram que não estão sendo realizados leucogramas nem contagens de plaquetas, essenciais para detectar sinais precoces de dengue grave, um ponto que as autoridades tentaram desmentir.
“Estamos atendendo pacientes com febre alta sem conseguir confirmar se é dengue, chikungunya ou algo mais”, declarou a CiberCuba um profissional sob condição de anonimato. “Sem diagnóstico, tratamos às cegas.”
Essa carência se agrava com a escassez de medicamentos essenciais, desde analgésicos e hidratantes intravenosos até os antihistamínicos básicos.
A isso se soma a paralisia intermitente das brigadas de fumigação, que dependem do fornecimento de combustível, inseticidas e pessoal voluntário, todos recursos que o regime admitiu ter em “níveis críticos”.
Uma epidemia dentro de outra: As arboviroses combinadas
Embora o termo "arboviroses combinadas" não apareça na linguagem oficial cubana, sua existência está amplamente documentada na literatura científica internacional. Ele é utilizado para descrever contextos em que vários vírus transmitidos por mosquitos circulam ao mesmo tempo em uma população ou infectam simultaneamente uma mesma pessoa.
Uma revisão global publicada em ScienceDirect —“Prevalência global de coinfecção por dengue e chikungunya” confirma numerosos casos clínicos de coinfecção dengue-chikungunya e alerta que sua incidência real está subestimada devido à falta de diagnóstico diferencial nos países com menos recursos.
Outro estudo de PLOS Biology (“Coinfecção e co-transmissão de arbovírus: um desafio de saúde pública negligenciado”) alerta que as cocirculações de vírus transmitidos por Aedes aegypti constituem um desafio sanitário ignorado, capaz de alterar a dinâmica dos surtos e os desfechos clínicos.
Investigações realizadas na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela demonstraram a presença simultânea de dengue, chikungunya e Zika em pacientes com febre aguda (BMC Infectious Diseases), e estudos no Brasil confirmaram a coexistência de múltiplos arbovírus em um mesmo bairro (Parasites & Vectors).
Em laboratório, foi comprovado que esses vírus interagem entre si: podem potencializar-se ou inibir-se mutuamente, dependendo da ordem em que ocorrem as infecções.
Um estudo de Frontiers in Cellular and Infection Microbiology mostrou que a infecção prévia por chikungunya pode suprimir parcialmente a replicação do dengue em células humanas, mas o efeito inverso —dengue antes de chikungunya— pode intensificar os sintomas.
Efeitos clínicos e desafios médicos
Desde o ponto de vista clínico, as arboviroses combinadas aumentam a gravidade dos quadros febris e complicam a resposta médica. Estudos na Colômbia revelaram que até 22% das crianças hospitalizadas com diagnóstico de dengue apresentavam também infecção por chikungunya (PLOS Neglected Tropical Diseases).
Os pacientes co-infectados podem desenvolver febre persistente, hemorragias, erupções cutâneas, dores articulares incapacitantes e alterações no fígado ou no sistema nervoso central.
Os médicos apontam que, sem ferramentas de laboratório, é impossível diferenciar um dengue grave de uma coinfecção viral complexa, o que pode levar a tratamentos inadequados ou tardios.
Em Cuba, essas limitações são evidentes. A rede hospitalar não dispõe de testes moleculares (PCR) para arbovírus, e os centros de pesquisa que poderiam realizá-los — como o Instituto de Medicina Tropical “Pedro Kourí” — trabalham com recursos mínimos e sem capacidade para atender todo o país.
Um país sem condições para responder
As medidas recomendadas internacionalmente para conter a cocirculação viral não são aplicáveis no contexto cubano atual.
A fumigação maciça é intermitente ou inexistente em muitas localidades, devido à falta de inseticidas e combustível. Os programas de controle do vetor operam com brigadas reduzidas e sem supervisão técnica constante.
Nos hospitais, a escassez de medicamentos básicos como paracetamol, sais de reidratação oral ou soluções intravenosas limita o manejo adequado de pacientes febris.
Tampouco existem campanhas públicas de educação em saúde sustentadas, nem sistemas de vigilância que integrem os três vírus.
Enquanto isso, o discurso oficial reduz todo o problema ao dengue, ignorando que o Aedes aegypti—presente em todo o país—pode estar transmitindo mais de um vírus ao mesmo tempo. Essa falta de reconhecimento impede a criação de protocolos unificados para diagnóstico, isolamento e tratamento, e deixa médicos e pacientes expostos a uma epidemia silenciosa e mais perigosa.
O custo do silêncio
Os cientistas concordam que a cocirculação de arbovírus é um fenômeno biológico e epidemiológico real, e que a negação institucional de sua existência apenas agrava seus efeitos.
Como conclui a revisão de PLOS Biology, “a falta de vigilância multipatogênica pode impedir a detecção precoce de coinfecções e atrasar a resposta de saúde pública”.
Em Cuba, onde a informação é centralizada e os relatórios de saúde são publicados com atraso, esse alerta ganha um significado maior. Cada semana sem diagnóstico ou fumigação efetiva é tempo ganho pelo mosquito e perdido pela saúde pública.
Reconhecer a existência de uma crise combinada de arboviroses não é apenas uma questão semântica: é o primeiro passo para enfrentar uma realidade que já afeta milhares de cubanos.
E enquanto o país continuar a tratar o dengue como um problema isolado, o vírus —e seus acompanhantes— continuarão se espalhando, invisíveis e combinados, por todo o arquipélago.
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