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Em meio à sua renovada campanha de deportações, a administração do presidente Donald Trump começou a treinar advogados militares para atuarem como juízes de imigração, uma medida sem precedentes que busca agilizar milhares de processos pendentes nas cortes de imigração em todo o país.
A estratégia, no entanto, gerou alarme entre advogados e defensores dos direitos migratórios, que alertam sobre a falta de preparo judicial, os possíveis conflitos éticos e o impacto negativo que isso poderia ter em casos sensíveis, como os de asilo político.
Segundo informou Univisión, a Casa Branca está promovendo esta ação como parte de um plano mais abrangente para instalar novas salas de audiência dentro de centros de detenção, com o objetivo de acelerar a execução de ordens de deportação.
A medida se baseia no orçamento recentemente aprovado pelo Congresso, que prevê recursos para aumentar as deportações em meio a um ano marcado por um forte discurso antimigrante por parte do Executivo.
"This training is already underway", confirmou Jorge Cancino, editor principal de imigração na Univisión.
"Segundo a Casa Branca, trata-se de uma estratégia para aprofundar a eficiência do sistema, mas há muitas dúvidas sobre sua implementação legal e os riscos que representa."
O advogado de imigração Ezequiel Hernández, entrevistado pelo meio, alertou que o objetivo é claro: preencher rapidamente todas as novas salas de julgamento que possam ser habilitadas, tanto em cidades quanto dentro de instalações de detenção, para atender à meta oficial de deportar mais de um milhão de pessoas este ano.
Para alcançar isso, a administração aposta na incorporação de pessoal que não necessariamente tenha experiência judicial em imigração, mas que possua formação militar e experiência legal em outras áreas.
“Os advogados militares conhecem as regras de evidência e o processo jurídico, mas o sistema de imigração é outra coisa”, disse Hernández.
“É um ambiente administrativo com regras e realidades muito específicas. Muitos desses novos juízes não reconhecerão situações comuns, como a entrada no país sem visto autorizada por agentes migratórios, algo que acontece com frequência, mas que nem todos saberão avaliar corretamente.”
O temor central entre os advogados de defesa é que os juízes militares, sem um profundo conhecimento do marco migratório, possam descartar casos antes de lhes conceder uma audiência completa, afetando gravemente os solicitantes de asilo, um processo que já é complexo e muitas vezes limitado pela falta de provas documentais em pessoas que fogem de perseguições ou violência.
“Há preocupação de que, sem a experiência necessária, esses novos juízes estejam encerrando casos antes de serem ouvidos”, sublinhou Hernández.
“O risco é que se aplique uma lógica de eficiência acima do devido processo”, acrescentou.
Outro fator de tensão é a possibilidade de que ocorra uma sobrecarga de decisões sem a devida revisão, uma vez que o plano prevê a inclusão de um alto volume desses juízes em um curto espaço de tempo.
Para muitos defensores, isso poderia abrir a porta para erros graves e violações de direitos humanos.
A nível legal, as críticas também se dirigem à imparcialidade. Diversas organizações questionaram se advogados com formação e cultura institucional militar — centrada na disciplina e na obediência hierárquica — podem desempenhar papéis judiciais onde se requer independência crítica, sensibilidade legal e avaliação humanitária caso a caso.
“Não se trata apenas de saber aplicar regras. Trata-se de interpretar circunstâncias humanas. E no sistema migratório, essas circunstâncias são complexas, dolorosas e, muitas vezes, invisíveis no papel”, explicou um especialista jurídico que pediu para não ser identificado por temer represálias profissionais.
O contexto político reforça a polêmica. A medida ocorre em plena campanha presidencial, na qual Trump retomou sua narrativa de “tolerância zero” em relação à imigração irregular e prometeu “limpar o país” de indocumentados.
Essa retórica, combinada com a pressão institucional para acelerar processos, gera preocupação entre juristas e defensores do direito ao refúgio.
“Estamos diante de uma possível transformação do sistema de justiça migratória, onde o ênfase não está na justiça, mas na velocidade”, advertiu Hernández.
“E isso coloca em risco o núcleo dos direitos que protegem os migrantes nos Estados Unidos”, enfatizou.
Embora a administração tenha defendido a medida como necessária diante da acumulação de mais de dois milhões de casos pendentes em tribunais de imigração, a Associação Nacional de Juízes de Imigração e outras entidades solicitaram garantias para evitar que essa inclusão de pessoal sem experiência judicial resulte em decisões erráticas ou arbitrárias.
De momento, o Departamento de Justiça continua implementando o plano, enquanto organizações de direitos civis preparam possíveis recursos legais para evitar que juízes sem formação em imigração tomem decisões definitivas em processos que podem definir o destino de milhares de pessoas e famílias.
Perguntas frequentes sobre advogados militares como juízes de imigração
Por que a administração Trump está treinando advogados militares para serem juízes de imigração?
A administração Trump busca agilizar os processos migratórios treinando advogados militares como juízes de imigração, em uma tentativa de acelerar as deportações de mais de um milhão de imigrantes em um ano. Esta medida faz parte de um plano mais amplo para instalar novas salas de audiência em centros de detenção e se baseia no orçamento aprovado pelo Congresso para aumentar as deportações.
Quais são as preocupações sobre a designação de advogados militares como juízes de imigração?
As preocupações incluem a falta de preparação judicial e os possíveis conflitos éticos, uma vez que muitos desses advogados militares carecem de experiência em direito migratório. Além disso, teme-se que possam aplicar uma lógica de eficiência em detrimento do devido processo, o que pode afetar gravemente os solicitantes de asilo que necessitam de uma avaliação humanitária e detalhada de seus casos.
Como estão sendo implementados os novos juízes de imigração no sistema judiciário dos EUA?
O Pentágono autorizou 600 advogados militares a atuar como juízes de imigração temporários, com períodos renováveis de até 179 dias. Os primeiros grupos de advogados, compostos por pessoal militar e civil, já estão em processo de incorporação. No entanto, essa medida não inclui a contratação de mais pessoal administrativo nem tradutores, o que é crucial para os julgamentos de imigração.
Qual impacto essa medida poderia ter nos direitos dos imigrantes?
A designação de advogados militares como juízes poderia abrir a porta a erros graves e violações de direitos humanos. Os críticos argumentam que a falta de experiência em direito migratório e o foco na eficiência poderiam levar a decisões erráticas ou arbitrárias, afetando especialmente os casos de asilo que requerem uma análise detalhada e humanitária.
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