Tramitam denúncia de violência de gênero após críticas pela inação policial em Havana

"Denunciar é o primeiro passo para a proteção legal e segurança das vítimas. E não é apenas responsabilidade da vítima, mas também nossa, da sociedade. A indiferença é aliada do agressor e potencial feminicida. Denunciar é um dever."

Foto © Facebook / Claudia Rafaela Ortiz Alba

Vídeos relacionados:

As autoridades cubanas iniciaram o trâmite de uma denúncia por violência de gênero em Havana, após a divulgação da recusa inicial da Polícia em aceitar a denúncia de um incidente ocorrido em plena via pública. A pressão da sociedade e a visibilidade do caso por parte da jornalista Claudia Rafaela Ortiz Alba provocaram a mudança de postura institucional.

“O agressor já está detido. Sua parceira reconhece que houve violência, mas não fará uma denúncia contra ele”, escreveu Ortiz Alba em uma publicação recente no Facebook. “Coerente com as características deste tipo de violência, consequência de uma ligação afetiva de dependência em relação ao agressor”, acrescentou, em referência ao padrão cíclico que costuma ocorrer nos casos de violência de gênero.

O acontecimento ocorreu em seu bairro, onde a jornalista presenciou um homem agredindo fisicamente sua parceira. Um amigo dela, Alejandro, interveio em defesa da jovem e, posteriormente, foi ameaçado pelo agressor com uma arma branca. Claudia e Alejandro tentaram então registrar uma denúncia na Estação de Polícia de Zanja, mas, conforme relatou em um primeiro post na segunda-feira, os oficiais responderam que apenas a vítima poderia denunciar.

Após o escândalo público gerado por essa negativa, as autoridades começaram a processar a denúncia. “Meu amigo, Alejandro, que interveio em defesa da garota, pôde fazer a denúncia por ameaça, com as agravações de utilização de arma branca e desordem pública, que constituem outros crimes por si só”, explicou a jornalista.

Ela também conseguiu apresentar seu testemunho. “Fui chamada para prestar declaração sobre o conhecimento dos fatos das lesões contra a jovem, cometidas por seu parceiro, com a agravante de violência de gênero. Sim, era possível fazê-lo”, assegurou, sublinhando que é legal e apropriado que terceiros denunciem fatos dessa natureza.

Ortiz Alba destacou que "quem presenciar ou conhecer a realização de um delito não só pode, mas deve informar à Polícia", e lembrou que "o Código Penal e Processual é específico ao afirmar que para registrar a denúncia não é necessária a presença da vítima ou dos prejudicados".

Facebook / Claudia Rafaela Ortiz Alba

Em sua publicação, a jornalista também reconheceu o apoio recebido por parte da comunidade: "Obrigado a cada uma das pessoas que apoiaram, escreveram, deram visibilidade, aconselharam. Àquelas que nos atenderam e ouviram. Uma denúncia pública permite muitas coisas, mas entre as mais importantes, a prevenção e a assistência.”

O caso reavivou o debate sobre a falta de respostas institucionais diante da violência de gênero em Cuba, onde não existe uma lei integral que proteja as vítimas. Apenas em 2025, pelo menos 31 feminicídios foram confirmados por plataformas independentes, embora o número real possa ser maior devido ao subregistro e à opacidade oficial.

Em sua publicação inicial, Ortiz Alba foi contundente ao denunciar o contexto de impunidade: “Não há abrigo, não há um sistema de apoio estruturado, não há vontade política urgente de ajudar as milhares de mulheres em risco de morrer nas mãos de seus parceiros. ¡Lei integral contra a violência de gênero já!”

Perguntas frequentes sobre a violência de gênero e a inação policial em Cuba

Por que a polícia cubana se recusou inicialmente a registrar a denúncia de violência de gênero?

A polícia inicialmente se negou a registrar a denúncia alegando que apenas a vítima poderia fazê-lo. Isso contraria o Código Penal cubano, que permite que terceiros possam denunciar esses fatos, especialmente em casos de violência de gênero.

Qual é a situação atual da legislação sobre violência de gênero em Cuba?

Em Cuba não existe uma lei integral contra a violência de gênero, o que deixa muitas mulheres desprotegidas. Apesar das reivindicações de organizações feministas, o governo não demonstrou vontade política para implementar uma legislação que aborde essa problemática de maneira eficaz.

Qual é o papel das plataformas independentes na documentação de feminicídios em Cuba?

As plataformas independentes como YoSíTeCreo em Cuba e o Observatório de Gênero Alas Tensas são essenciais para documentar os feminicídios na ilha, diante da falta de estatísticas oficiais. Essas organizações confirmaram pelo menos 31 feminicídios em 2025, embora o número real possa ser maior devido ao sub-registro.

Como a negligência policial afeta a percepção de segurança em Cuba?

A negligência policial contribui para uma crescente percepção de insegurança em Cuba. A inação das autoridades diante de crimes como roubos e violência de gênero gerou desconfiança na população, aumentando o medo e a sensação de desproteção cidadã.

Arquivado em:

Equipe Editorial da CiberCuba

Uma equipe de jornalistas comprometidos em informar sobre a atualidade cubana e temas de interesse global. No CiberCuba, trabalhamos para oferecer notícias verídicas e análises críticas.