
Vídeos relacionados:
Cuba vive presa de um apagão estrutural que não se resolve com discursos nem promessas. A eletricidade e a água não são luxos: são direitos básicos, condições mínimas de vida. E, no entanto, nosso sistema elétrico nacional está cada vez mais deteriorado, incapaz de garantir o essencial.
Frente a essa realidade, alguns especialistas, como o economista Juan Triana, colocaram em pauta a necessidade de abrir espaço para o investimento privado. A proposta faz sentido: nenhum Estado em falência pode, por si só, revitalizar um sistema elétrico que exige bilhões de dólares em modernização.
Pero, investir em um sistema elétrico não é como vender pirulito, com a devida vênia aos vendedores de pirulito e outras guloseimas. Não se trata de um negócio de esquina que pode funcionar com boa vontade. É uma infraestrutura pesada, de longo prazo, que exige regras claras, estabilidade e confiança no arcabouço legal.
A responsabilidade do Estado não é apenas reconhecer que precisa do setor privado, mas também criar um ambiente em que esse investimento seja viável.
Lo sabía "o grande culpado" Fidel Castro, quando inventou a Revolução Energética. Precisava de algo que desse resultados imediatos e acalmasse o povo, e concentrou-se em medidas de impacto imediato: mudar eletrodomésticos ineficientes, distribuir lâmpadas economizadoras e encher o país de geradores a diesel para garantir a eletricidade. No entanto, os problemas de fundo permaneceram intactos. As velhas termelétricas soviéticas dos anos 70 e 80 estavam se deteriorando sem um plano real de renovação, e em vez de investir em infraestrutura duradoura, o governo agarrou-se a remendos temporários que, embora estabilizassem por algum tempo o serviço, criaram uma dependência cara e pouco eficiente dos geradores.
E 20 anos depois, tudo está pior. O Estado cubano acumula uma dívida tecnológica monumental e, mesmo assim, está imerso no que se poderia chamar de uma Revolução Energética 2.0, para tentar enfrentar a tempestade por mais alguns anos. Decidiram passar de geradores a diesel para parques solares, numa tentativa de resolver o problema de forma rápida e sem pensar, mais uma vez, no futuro. Acreditam que os painéis solares vão resolver a crise com investimentos relativamente acessíveis e simples, sem a necessidade de investir em usinas termelétricas.
Mas um sistema elétrico nacional não se constrói com parques solares isolados. A interconexão entre eles e com o sistema elétrico requer linhas de transmissão e distribuição, estações de transformadores de alta tensão, sistemas automáticos de comutação e controle… enfim, uma infraestrutura cara que Cuba não possui. Muitos outros países com sistemas energéticos modernos enfrentaram a dificuldade de gerir sistemas distribuídos de energias renováveis e sofreram sérios problemas, como o apagão total ocorrido na Espanha em abril passado.
A realidade é que o sistema elétrico cubano precisa de investimentos multimilionários, em projetos que não se concretizam em um ou dois anos, mas sim em quinquênios. Mas:
Que empresa privada sensata arriscaria capital em um país onde as regras mudam a gosto? Quem vai apostar milhões em turbinas, usinas elétricas, linhas de transmissão, parques solares ou eólicos se amanhã podem confiscar seus ativos, congelar dividendos ou descumprir contratos, como já aconteceu em outros setores?
A responsabilidade do Estado não é apenas reconhecer que necessita do setor privado, mas também criar um ambiente em que esse investimento seja viável. Isso significa:
- Segurança jurídica real, com tribunais independentes.
- Regulação transparente e estável, com tarifas que possibilitem a recuperação de custos sem sufocar a população.
- Facilidades fiscais.
- Respeito pela propriedade e pelos contratos, garantido até mesmo por mecanismos de arbitragem internacional.
- Facilidade para repatriar os lucros em moeda estrangeira.
Sem isso, falar de investimento privado é puro maquilhagem. Ninguém vai colocar seu dinheiro em um terreno minado. E muito menos quando falamos de energia, uma indústria onde cada decisão envolve milhões, não centavos.
Cuba precisa de investimento privado em seu sistema elétrico, sim. Mas mais do que isso, precisa de um governo que cumpra sua parte: desenhar as regras, respeitá-las e oferecer garantias. Porque, se algo a história recente nos mostrou, é que sem confiança não haverá capital, e sem capital continuaremos no escuro.
Arquivado em:
Artigo de opinião: Las declaraciones y opiniones expresadas en este artículo son de exclusiva responsabilidad de su autor y no representan necesariamente el punto de vista de CiberCuba.