Secretaria do PCC em Gibara após os protestos por apagões: "Confiemos na tremenda Revolução que temos"

“Confiemos na tremenda Revolução que temos, que jamais abandona seus filhos e luta na busca por suas soluções”, sublinhou Nayla Marieta Leyva Rodríguez.

A secretária do PCC em Gibara, Nayla Marieta Leyva Rodríguez, e protestos na localidadeFoto © Facebook / Nayla Marieta Leyva Rodríguez - Captura de vídeo X / @FelixLlerenaCUB

A secretária do Partido Comunista em Gibara, Nayla Marieta Leyva Rodríguez, respondeu às protestas noturnas que ocorreram nessa localidade de Holguín e pediu aos moradores que mantivessem a confiança no que ela qualificou como “a tremenda Revolução que temos”, em uma mensagem publicada neste domingo no Facebook.

As declarações chegam após dezenas de gibareños saírem de madrugada às ruas com panelas, lanternas e gritos de “Queremos corrente!” e “Liberdade!”, após mais de 24 horas sem eletricidade.

Captura de tela Facebook / Nayla Marieta Leyva Rodríguez

Os vídeos divulgados nas redes sociais mostraram mulheres, homens e jovens percorrendo ruas escuras, exigindo o restabelecimento do serviço elétrico em meio a uma crise energética que dias antes provocou um apagão nacional.

O discurso oficial: Respeito e diálogo

Em sua publicação, Leyva assegurou que teve uma “troca franca e honesta” com um grupo de moradores do bairro El Güirito afetados pelos cortes de energia elétrica. Segundo a dirigente, o encontro ocorreu “com muito respeito e em um ambiente de diálogo e tranquilidade”, e permitiu explicar as causas da crise energética.

“Convocamos a ter confiança em sua recuperação e, acima de tudo, a não perder a esperança”, escreveu a funcionária. Ela acrescentou que o que o país está passando “vai além da vontade de uma nação, de nossos principais líderes”, e insistiu que o Partido e o Governo “jamais deixarão de estar ao lado do povo”.

Em sua mensagem, também recorreu a um discurso patriótico e ideológico, apelando à unidade diante das críticas:

“Confiemos na tremenda Revolução que temos, que nunca abandona seus filhos e luta na busca de suas soluções”, sublinhou.

Gibaravisión: Tudo voltou à calma

A emissora local Gibaravisión apoiou a versão oficial e assegurou que, após a conversa com as autoridades, a população retornou para suas casas e a cidade “permanece em calma e com sua habitual tranquilidade”.

O meio estatal qualificou os vizinhos como "nobres, valerosos e revolucionários", e acusou usuários de redes sociais — "na sua maioria do exterior" — de tentarem manipular o que aconteceu.

Em um vídeo compartilhado no Facebook, o meio oficial mostrou ruas desertas para demonstrar a "paz cidadã" predominante, mas o que se tornou evidente foi a escuridão reinante na vila devido ao colapso do sistema elétrico.

No entanto, as imagens compartilhadas por internautas no Facebook e no WhatsApp mostram uma mobilização mais ampla do que aquela que os canais oficiais tentam transmitir. Nessas gravações, ouvem-se slogans como “¡El pueblo unido jamás será vencido!”, acompanhados de panelas batendo que ecoaram em várias ruas da cidade costeira.

Protestos em um contexto de crise

A manifestação em Gibara se junta a outras expressões de descontentamento que ocorreram em várias províncias ao longo deste ano, marcadas por apagões prolongados, escassez de alimentos e deterioração dos serviços básicos.

El 10 de setembro, a ilha sofreu um apagão geral após a saída imprevista da central termoelétrica Antonio Guiteras, em Matanzas. Foi o quinto colapso do Sistema Elétrico Nacional em menos de um ano, uma sequência de falhas que evidencia a fragilidade de uma infraestrutura obsoleta e sem investimentos.

Embora o governante Miguel Díaz-Canel tenha celebrado há alguns dias a “recuperação em tempo recorde” do SEN, milhões de cubanos continuam enfrentando apagões diários, sem estabilidade no fornecimento.

Por sua vez, o primeiro-ministro Manuel Marrero Cruz, que também é deputado da Assembleia Nacional por Gibara, também se pronunciou dias antes do surgimento das protestas na localidade.

Em declarações divulgadas pela televisão nacional Pediu ao povo “confiança” e assegurou que o governo estava a fazer “tudo o possível e o impossível” para restabelecer o serviço elétrico.

Suas palavras, no entanto, contrastam com a realidade enfrentada pelos gibareños em 14 de setembro, quando, após mais de 24 horas sem eletricidade, saíram às ruas para exigir soluções imediatas.

O mal-estar cidadão cresce

A desespero pela falta de eletricidade se reflete também em pesquisas e estudos. Um levantamento realizado nas redes sociais por CiberCuba mostrou que 83% dos entrevistados acredita que o governo deveria entregar o poder diante da sua incapacidade de resolver a crise elétrica.

O Observatório Cubano de Direitos Humanos, por sua vez, revelou que 92% dos entrevistados desaprovam a gestão governamental e que a pobreza extrema atinge 89% da população.

Em Gibara, as reivindicações por "eletricidade e água" dão rosto a essa estatística. A protesto foi pacífico e, até o momento, não foram relatadas detenções nem repressão policial, mas marca um novo episódio de exaustão em uma população que vive a cada dia entre sombras e promessas não cumpridas.

Entre a propaganda e a realidade

Enquanto as autoridades locais pedem para confiar na chamada “revolução” e não se deixar “confundir pelos cantos de sereia do império”, os moradores de Gibara continuam medindo sua vida cotidiana em horas de eletricidade.

O contraste entre a narrativa oficial de calma e diálogo e as imagens cidadãs de caceroladas massivas revela a crescente distância entre o discurso do regime e a realidade enfrentada pela população.

Por enquanto, Gibara voltou à tranquilidade, mas sob a incerteza de quando a luz retornará e até onde irá a paciência de um povo cansado de promessas que não acendem lâmpadas nem refrigeradores.

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Equipe Editorial da CiberCuba

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