Ministro detalha em números a profunda crise da indústria alimentícia cubana e anuncia medidas

Um total de 17 empresas de alimentos encerrou o semestre com perdas, num valor total de 364 milhões de pesos.

Alberto López Díaz, ministro da Indústria Alimentar (i) e Venda de viandas em Cuba (d)Foto © Collage YouTube/Captura de Tela - Canal Caribe - CiberCuba

O ministro da Indústria Alimentar de Cuba, Alberto López Díaz, compareceu nesta terça-feira perante a Comissão Agroalimentar do Parlamento cubano para apresentar o balanço econômico do primeiro semestre de 2025 e detalhar as medidas urgentes do programa de governo para “corrigir distorções” e reimpulsionar a debilitada indústria nacional de alimentos.

Em um discurso marcado pela dureza dos dados e pela urgência de tomar decisões, o ministro admitiu que “tem sido um semestre complicado para o setor”, e apontou que “nem todas as empresas aproveitam todas as oportunidades”.

Produção nacional à beira do colapso... exceto na cerveja

As cifras dramáticas de produção no setor alimentício revelam o estado precário da indústria alimentar em Cuba. Apenas o plano para a produção de cerveja foi superado:

-Indústria láctea: 54,1% do plano cumprido, embora com um leve crescimento na coleta.

-Indústria de carne: 71% de cumprimento, mas com uma diminuição de mais de 600 toneladas.

-Conservas: Apenas 48,5% do plano, apesar de uma melhora na produção de tomate.

-Café: Produção crítica, com apenas 2.887 toneladas (23,7% do plano).

-Molinera: 54,4% de cumprimento, limitado pela falta de chegada de navios de trigo.

-Cerveja: A única nota positiva, com 107% de cumprimento graças a empresas como Bucanero e Parranda.

Cifras negativas e empresas em crise

Um dos dados mais alarmantes foi a quantidade de empresas com resultados negativos: 17 entidades encerraram o semestre com perdas, totalizando 364 milhões de pesos.

Isso representa um aumento de cinco empresas e 217 milhões a mais em perdas em relação a 2024.

A OSDE Alimentaria foi a entidade com maior peso nesse deterioro.

El relatório apresentado por López Díaz revelou, além disso, uma diminuição de 2,9% nas vendas líquidas em comparação com o mesmo período do ano anterior.

As vendas totalizaram 31.635 milhões de pesos, o que representa apenas 83% do plano previsto.

Em relação aos lucros líquidos, o setor conseguiu apenas 91% do que estava planejado, com uma queda de 17,5%.

Falta de combustível, dívidas milionárias e perda de exportações

O setor pesqueiro começou o ano com sérias limitações.

Segundo o ministro, não foi possível armazenar lagosta como em anos anteriores devido à falta de combustível.

“No ano passado, deixamos de capturar aproximadamente 2.000 toneladas de lagosta”, destacou López Díaz, o que afetou diretamente as receitas de exportação.

No entanto, antecipou uma possível recuperação para o segundo semestre com o levantamento da proibição a partir de 1º de julho.

O panorama financeiro também é crítico: o setor enfrenta uma dívida de 35,5 milhões de dólares, dos quais mais de 25 milhões estão vencidos.

Como medida de alívio, foi aprovada a retenção de 73,47% da receita da pesca (equivalente a 62,2 milhões de pesos) para o desenvolvimento dessa indústria.

O déficit na importação de matérias-primas é uma das principais causas do colapso produtivo.
“Recebemos apenas 30% do leite em pó planejado e 55% do trigo, e não foram importados soja nem óleo até agora no ano”, detalhou o ministro.

Governo cubano confia no setor privado para salvar uma indústria alimentícia estatal em crise

Um dado destacado do relatório foi o avanço das cadeias produtivas com o setor não estatal, que atualmente participa com 25% da produção alimentar nacional.

A indústria de carnes depende em 38% desses atores, os laticínios em 13% e as conservas em 15%.

Foi assinado mais de 2.300 contratos com novos atores econômicos, com a meta de duplicar a produção de 2024 (56.000 toneladas) e ultrapassar as 100.000 toneladas este ano.

Exemplos concretos de sucesso incluem a Empresa Cárnica de Sancti Spíritus, que diversificou sua produção para suínos e aves; e a empresa de conservas de Ciego de Ávila, que financiou 500 hectares de tomate e processou mais de 7.000 toneladas.

As vendas online ultrapassaram 25,9 milhões de dólares (crescimento de 100,5%), embora as vendas para o turismo tenham caído 11%, totalizando 38,6 milhões de dólares, devido à redução na chegada de visitantes ao país.

Medidas de emergência e reorganização estrutural

Em resposta ao deterioro generalizado, o ministério começou a implementar um conjunto de medidas, entre as quais se destacam:

-Reestruturação do organismo.

Esquemas de financiamento em moedas estrangeiras para o Grupo Empresarial da Indústria Pesqueira e a Empresa para o Cultivo do Camarão.

-Abertura de contas em USD para a plataforma online e a corporação Cuba Ron.

- Autorização para cobrar em dólares 50% do valor da pesca destinada ao turismo.

- Criação de uma empresa mista de chocolate e cacau em Baracoa.

- Introdução, a partir de setembro, de nova genética de camarão, algo que não ocorria há 25 anos.

Também foi aprovada a reorganização do ministério com novas direções de ciência, informática e comunicações, e a conversão do Instituto de Investigações de Alimentos em uma unidade de ciência autofinanciada.

Entre o colapso e a improvisação: o Estado admite que não consegue enfrentar sozinho a crise alimentar

Longe de assumir responsabilidades concretas pelo fracasso acumulado, o ministro encerrou sua intervenção apelando à necessidade de "acelerar processos" e confiar no potencial dos novos atores econômicos como tábua de salvação.

No entanto, essa abordagem continua a deixar nas mãos de terceiros - produtores privados e não estatais - a tarefa de sustentar uma indústria estatal em crise, enquanto o aparato burocrático mal reage.

Em um país onde a falta de suprimentos se tornou norma, os apelos para “melhorar os resultados produtivos” soam vazios se não forem acompanhados de reformas reais que desmontem os entraves internos do sistema.

A presença do ministro Alberto López Díaz revelou um panorama desolador na indústria alimentícia cubana, marcada pela ineficiência, deterioração estrutural e o impacto acumulado de anos de más decisões econômicas.

Apesar dos discursos oficiais, que insistem na "reorganização" e nos "encadeamentos produtivos", a realidade é que os números refletem retrocessos alarmantes em setores-chave, como a pesca, a produção de laticínios, café e conservas.

As medidas anunciadas chegam tarde, e embora possam ter algum efeito paliativo no segundo semestre, não resolvem o problema de fundo: um modelo econômico centralizado que sufoca a produtividade e limita o desenvolvimento do setor.

O reconhecimento explícito de perdas milionárias, dívidas impagáveis e o incumprimento sistemático de planos não apenas evidenciam o fracasso do atual esquema de gestão estatal, mas também colocam em dúvida a sustentabilidade do sistema alimentar no país.

Enquanto o governo insiste em “novas estruturas” e “alianças”, milhões de cubanos enfrentam diariamente a escassez, o aumento dos preços dos produtos básicos e uma crescente insegurança alimentar.

A crise alimentar em Cuba já não é coyuntural nem resultado de "distorções": é estrutural e prolongada. Afeta diretamente a saúde, a qualidade de vida e o futuro do país.

A queda sustentada da produção nacional, a falta de insumos essenciais como trigo, leite em pó, óleo ou soja, e a dependência de atores não estatais para manter o sistema funcionando, mostram que o modelo está esgotado.

A incapacidade do governo para garantir o abastecimento básico confirma que o colapso alimentar não é uma ameaça futura, mas uma realidade que faz parte do dia a dia nas casas cubanas.

Perguntas frequentes sobre a crise alimentar em Cuba

Qual é o estado atual da indústria alimentícia em Cuba?

A indústria alimentar em Cuba está à beira do colapso. O ministro da Indústria Alimentar, Alberto López Díaz, apresentou dados que revelam um cumprimento muito baixo dos planos de produção em setores-chave como laticínios, carnes e conservas, enquanto a produção de café e farinha de trigo é crítica. Apenas a produção de cerveja superou suas metas, alcançando 107% do plano.

Quais medidas o governo cubano anunciou para enfrentar a crise alimentar?

O governo cubano anunciou um conjunto de medidas de emergência, entre as quais se destacam a reestruturação do organismo ministerial, a criação de esquemas de financiamento em divisas para a indústria pesqueira, e a autorização para cobrar em dólares parte do valor da pesca destinada ao turismo. Contudo, essas medidas não abordam as causas estruturais da crise, como a ineficiência estatal e a falta de insumos.

Qual é o papel do setor privado na indústria alimentária cubana?

O setor privado está desempenhando um papel crescente na produção de alimentos em Cuba, participando com 25% da produção nacional. O governo assinou mais de 2.300 contratos com novos atores econômicos, com a meta de duplicar a produção de 2024 e ultrapassar as 100.000 toneladas este ano. No entanto, essa dependência do setor privado reflete a incapacidade do sistema estatal de sustentar a produção por conta própria.

Como a crise alimentar afeta a população cubana?

A crise alimentar em Cuba tem um impacto direto e negativo na população, que enfrenta escassez de produtos básicos, aumento nos preços dos alimentos e uma crescente insegurança alimentar. A incapacidade do governo de garantir o abastecimento necessário tem levado milhões de cubanos a enfrentarem dificuldades diárias para satisfazer suas necessidades alimentares básicas.

Arquivado em:

Equipe Editorial da CiberCuba

Uma equipe de jornalistas comprometidos em informar sobre a atualidade cubana e temas de interesse global. No CiberCuba, trabalhamos para oferecer notícias verídicas e análises críticas.