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A ativista cubana Rosa María Payá assumiu oficialmente seu cargo como comissária da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) para o período de 2026-2029 com uma mensagem contundente sobre seu compromisso com a democracia e os direitos humanos no continente, e um alerta claro sobre o impacto do regime cubano na região.
Em uma carta pública divulgada neste fim de semana, Payá expressou sentir-se "profundamente honrada pela confiança que os Estados das Américas depositaram em mim para defender os direitos humanos de todas as pessoas em nossa região".
A oposicionista cubana foi eleita pelos Estados membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) em sua mais recente assembleia geral, sediada em Antígua e Barbuda, tornando-se a primeira cubana a fazer parte deste órgão autônomo.
Pero foi a sua referência direta ao regime cubano que marcou o tom político de sua mensagem. “Nasci sob a dictadura mais longa e sanguinária que este continente já conheceu. Essa tirania provocou o colapso da democracia na Nicarágua e na Venezuela, e desencadeou a maior crise migratória da nossa história. As Américas pagaram um preço muito alto por tolerar o regime cubano durante tanto tempo”, escreveu.
En um dos trechos mais duros de sua carta, Payá comparou o sistema autoritário cubano a um “polvo” cujos tentáculos se estenderam pela América Latina. “Cabe a nós —as mulheres e homens das Américas— pôr fim de uma vez ao polvo autoritário, à sua cabeça e a todos os seus tentáculos, que tanto sofrimento causaram às nossas nações”, destacou, reafirmando sua vontade de trabalhar por uma região livre de ditaduras.
A fundadora da plataforma Cuba Decide e diretora da Fundação para a Democracia Panamericana tem se dedicado há anos a defender um processo de transição democrática na ilha. Seu trabalho tem se concentrado em tornar visível a repressão política, denunciar as violações dos direitos humanos e promover a realização de eleições livres em Cuba.
Rosa María é filha do líder opositor Oswaldo Payá, fundador do Projeto Varela, que faleceu em 2012 em um acidente de carro em circunstâncias questionadas por organizações internacionais. Em sua carta, ela lembrou o legado de seu pai como inspiração para seu trabalho: “Meu pai, que deu sua vida pela liberdade, acreditava que os direitos humanos existem além das fronteiras de raça, cultura ou política. Não são concedidos; são protegidos”.
Desde seu novo papel como comissária da CIDH, Payá se propõe a defender as vítimas de perseguição política, proteger os mais vulneráveis e fortalecer uma comissão "eficaz e transparente" que aproxime o sistema interamericano àqueles que mais necessitam.
“Nossa região vive um momento crítico”, advertiu em sua mensagem. “A democracia se enfraquece, a repressão cresce e milhões sofrem as consequências do colapso do Estado de direito. A violência, o crime organizado, o deslocamento forçado e a perseguição atingem especialmente crianças, mulheres e dissidentes políticos”, afirmou, apontando a necessidade urgente de uma resposta regional coordenada.
A escolha de Payá foi apoiada pelos Estados Unidos, que promoveu sua candidatura e destacou seu histórico na defesa dos direitos humanos. Sua nomeação foi interpretada como um passo significativo em direção a uma maior representação da dissidência cubana em organismos internacionais e uma oportunidade para dar visibilidade às denúncias de abusos cometidos dentro da ilha.
Com sua chegada à CIDH, Rosa María Payá reforça seu compromisso com a democracia na América Latina e, especialmente, com a causa da liberdade em Cuba, levando sua luta a um novo cenário institucional.
Um cenário regional marcado pela repressão e pelo autoritarismo
A designação de Rosa María Payá como comissária da CIDH ocorre em um momento particularmente crítico para a região.
Desde há anos, a CIDH tem documentado e denunciado um retrocesso sistemático das liberdades fundamentais em Cuba, Venezuela e Nicarágua, três países onde o autoritarismo se consolidou por meio da repressão interna, da judicialização da dissidência e do controle absoluto dos poderes do Estado.
No caso de Cuba, a Comissão tem apontado reiteradamente graves violações à liberdade de expressão, associação e manifestação pacífica, bem como o encarceramento arbitrário de ativistas e jornalistas. O país tem sido incluído de forma contínua no Capítulo IV.B dos relatórios anuais do organismo, reservado aos Estados com as situações mais graves em matéria de direitos humanos.
A CIDH também expressou sua profunda preocupação com a influência do regime cubano nos processos repressivos na Venezuela e na Nicarágua. Embora não tenha emitido comunicados específicos sobre a presença de repressões cubanas nesses países, tem coletado evidências do impacto regional do modelo autoritário cubano.
Em 2023, a Comissão responsabilizou diretamente o Estado cubano pela morte do líder opositor Oswaldo Payá Sardiñas, pai da atual comissionada, e denunciou a impunidade dos fatos.
Em Nicarágua, o colapso institucional após a repressão dos protestos de 2018 levou a CIDH a incluir o país em sua "lista negra" de violadores de direitos humanos, assim como a Venezuela, onde o deterioro da democracia e as denúncias de crimes de lesa humanidade também têm sido constantes.
É neste cenário de enfraquecimento democrático, repressão transnacional e crises migratórias que Rosa María Payá desenvolverá seu trabalho, com o apoio de setores que promovem uma agenda regional de defesa dos direitos civis e políticos e o fortalecimento dos mecanismos de responsabilização.
Qual é o papel de uma comissária da CIDH?
Rosa María Payá ocupará o cargo de comissária da CIDH para o período de 2026 a 2029, após ter sido eleita pelos Estados membros da OEA.
Seu papel faz parte do máximo corpo diretivo da CIDH, composto por sete pessoas especialistas em direitos humanos, independentes e eleitas a título pessoal, não como representantes de seus países.
As comissionadas e os comissionados têm como função principal supervisionar a situação dos direitos humanos nos 35 Estados membros da OEA, emitir relatórios temáticos ou por país, atender casos individuais de violações de direitos humanos, adotar medidas cautelares e promover a observância dos direitos reconhecidos nos instrumentos do sistema interamericano, como a Convenção Americana sobre Direitos Humanos.
Além disso, cada comissário pode ser responsável por relatorias temáticas (por exemplo, liberdade de expressão, direitos das mulheres, povos indígenas, migração) ou por país. Eles também podem realizar visitas in loco e coordenar audiências públicas durante os períodos de sessões, para monitorar diretamente situações de emergência ou risco.
Seu trabalho não tem capacidade sancionadora direta, mas suas declarações, medidas cautelares e admissão de casos perante a Corte Interamericana têm um peso político e jurídico significativo, que pode influenciar processos internos ou gerar pressão internacional sobre os Estados infratores.
A eleição de Payá, além de seu simbolismo político como dissidente cubana, representa um reforço da ênfase em direitos civis e políticos dentro da CIDH, em um momento em que múltiplos governos da região enfrentam processos de retrocesso autoritário.
Um novo liderança para a Cuba democrática? A projeção estratégica de Rosa María Payá
A chegada de Rosa María Payá à CIDH não apenas representa um marco institucional —por ser a primeira cubana a ocupar uma das sete cadeiras deste órgão regional— mas também uma potencial plataforma de legitimidade política e diplomática a partir da qual poderia se projetar como uma figura central do ativismo opositor cubano diante da comunidade internacional.
Este cargo abre para Payá uma via direta de interlocução com governos democráticos do continente, organismos multilaterais, escritórios de direitos humanos das Nações Unidas e redes internacionais da sociedade civil.
Diferentemente do ativismo tradicional, muitas vezes restrito ao âmbito simbólico ou local, a CIDH concede a seus comissários uma visibilidade sustentada em fóruns de alto nível, além de atribuições formais para investigar, denunciar e emitir medidas cautelares frente a graves violações dos direitos humanos, como as que ocorrem em Cuba.
Essa visibilidade, juntamente com sua biografia política —marcada pela luta de seu pai, assassinado em 2012—, lhe confere uma legitimidade histórica que poucos atores da oposição cubana possuem.
Payá não é uma outsider improvisada: ela desenvolveu ao longo de mais de uma década uma estratégia sustentada de incidência internacional a partir de sua plataforma Cuba Decide, teceu vínculos com atores-chave do hemisfério e posicionou a narrativa de uma transição democrática com apoio popular e legitimidade jurídica.
Este novo alcance institucional explica, em parte, o nervosismo que gerou sua nomeação dentro do aparato de propaganda do regime cubano, que reagiu com declarações oficiais, desqualificações e ataques pessoais.
A hostilidade não se deve apenas ao seu histórico como opositora, mas ao fato de que, a partir de uma posição reconhecida pelos Estados da OEA, Rosa María Payá poderá exercer pressão direta sobre o regime, denunciá-lo em termos juridicamente sólidos, e apresentar-se diante da comunidade internacional como uma voz legítima e viável de alternativa democrática.
Desde este novo espaço, você poderá elevar sua voz com autoridade institucional para denunciar o regime cubano perante os governos da região, sem depender da intermediação de terceiros.
Também poderá responder de dentro do sistema interamericano aos esforços de desinformação promovidos por Havana e seus aliados, além de se aproximar de diálogos estratégicos com ministérios das Relações Exteriores e parlamentos estrangeiros onde se debate o futuro político de Cuba.
Embora o cargo de comissária não seja de natureza partidária nem eletiva, sua visibilidade pública e o contexto regional atual —marcado pela consolidação de figuras opositoras que combinam ativismo, discurso institucional e apoio popular, como María Corina Machado na Venezuela— sugerem que Payá poderia se encaminhar para uma posição de liderança mais ambiciosa.
Sua retórica firme contra o regime, sua conexão com a diáspora cubana e sua habilidade para se inserir em agendas diplomáticas tornam este cenário viável.
Em um país como Cuba, onde a oposição interna está fragmentada e sob cerco, a figura de Payá pode se tornar um referencial que articule demandas democratizadoras tanto dentro quanto fora da ilha.
Sua presença na CIDH lhe permitirá não apenas denunciar os abusos, mas também legitimar propostas de transição, promover o apoio internacional e estabelecer laços com setores moderados do exílio, os governos aliados da democracia e, eventualmente, com atores internos que possam se juntar a um processo de mudança.
Nesse sentido, sua escolha pode ser mais do que uma conquista individual: pode marcar um ponto de inflexão na capacidade da oposição cubana de agir com uma voz coerente, estratégica e reconhecida nos espaços onde se definem os futuros possíveis do país.
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