Camila Ramos, uma ativista dos direitos civis, foi arrastada pelo chão, golpeada contra um cartaz e empurrada por vários agentes da lei durante uma tensa sessão desta quinta-feira da Comissão de Miami-Dade, em meio a um debate sobre o polêmico acordo entre as prisões do condado e o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE).
A cena, capturada em vídeo por assistentes, desencadeou protestos imediatos, gritos de “¡Deixem-na falar!” e terminou com vários confrontos entre cidadãos e a polícia.
O momento da explosão
O caos se instalou quando o presidente da Comissão, Anthony Rodríguez, avisou aos presentes que, se alguém decidisse falar durante a sessão, não haveria mais oportunidades de comentários públicos caso o tema fosse votado novamente mais adiante.
Camila Ramos, de 36 anos, já se encontrava perto do palco e pediu um esclarecimento sobre essa decisão.
Nesse momento, um agente à paisana ordenou que ela se calasse. Ela recusou-se veementemente: “Não preciso fazer isso; só preciso que me ouçam. Tenho o direito de entender este processo”, reclamou enquanto se dirigia ao tribunal.
A resposta foi brutal.
Vários agentes do Escritório do Xerife intervieram e começaram a arrastá-la à força pelo recinto em uma luta que a fez colidir com um cartaz e acabar empurrada para o chão do saguão, enquanto repetia gritos de "Soltem-me! Parem! Só quero fazer uma pergunta!".
As câmaras e os celulares dos assistentes capturaram toda a sequência.
Alguns tentaram seguir os agentes, o que fez com que também fossem expulsos à força, e em alguns casos, algemados.
Um ambiente já carregado
A jornada já havia começado com um ambiente tenso.
A reunião no Centro Stephen P. Clark foi marcada pelo tratamento da resolução 11A, que propõe permitir que as prisões do condado retenham imigrantes por até 48 horas a pedido do ICE, com uma taxa de 50 dólares por pessoa a ser paga pelo governo federal.
Embora o assunto se apresentasse como uma modificação técnica do acordo, na realidade aprofundava uma colaboração já polêmica desde suas origens, quando foi implementada durante o mandato anterior de Donald Trump.
A prefeita de Miami-Dade, Daniella Levine Cava, havia assinado o acordo anteriormente, o que gerou críticas de organizações e ativistas.
“Isto não é uma escolha política, é uma imposição legal”, afirmou Cava diante dos comissários. Mas sua explicação não convenceu aqueles que viam neste novo passo uma ameaça à transparência e ao devido processo.
As organizações de direitos civis temem que se facilite a "desaparecimento administrativo" de migrantes detidos, ao dificultar que familiares ou advogados os localizem dentro do sistema carcerário.
Prisões, cargos e protestos
Após sua prisão, Camila Ramos foi acusada de agressão com agravantes e resistência à prisão com violência, de acordo com documentos judiciais.
As autoridades asseguram que ele atingiu um agente no rosto durante a troca de empurrões.
Z. Spicer, de 25 anos, também foi preso após tentar interferir, gritando para os agentes que a soltassem. Ele foi acusado de resistência à prisão sem violência.
O incidente provocou uma reação imediata tanto dentro quanto fora do recinto.
Horas depois, organizou-se uma vigília com velas em frente ao Centro de Detenção Federal, onde ativistas e membros da comunidade denunciaram a repressão e o tratamento humilhante a Ramos.
“Isso é para todas as pessoas que essencialmente estão sem voz porque foram detidas pelo ICE”, expressou uma manifestante.
Reações e condenações
O impacto do incidente foi tão grande que os comissários voltaram atrás e reabriram a possibilidade de comentários públicos, embora a modificação do acordo tenha sido adiada sem data definida.
A ativista Dian Alarcón, presente na sala, declarou: “Eu vim muitas vezes e nunca vi esse tipo de coisas. Acredito que é uma forma de nos silenciar.”
Também se ouviram vozes do próprio governo local.
O comissário René García afirmou que "o povo tem direito à sua Primeira Emenda", embora tenha alertado que "neste clima político sempre haverá agitadores de ambos os partidos".
Outros, como o comissário Roberto González, indicaram que o acordo já havia sido assinado em março, sob obrigação legal, e que apenas restava formalizar o mecanismo de reembolso.
Além do condado: O quadro legal em expansão
O episódio evidencia os efeitos de uma rede de políticas migratórias cada vez mais expansiva na Flórida, onde o programa federal 287(g) permite que as forças locais colaborem diretamente com o ICE sem a necessidade de ordens judiciais.
Desde organizações como o Centro de Recursos Legais para Imigrantes alertam que isso fomenta uma rede de detenção e deportação sistemática que coloca em risco os direitos fundamentais de milhões de pessoas.
Nesse contexto, o que aconteceu com Camila Ramos não é um fato isolado. É a expressão de um choque profundo entre a institucionalidade migratória endurecida e o exercício básico dos direitos civis.
Como resumiu seu advogado: “Foi um ato de censura grosseiro, arbitrário e claramente intimidatório contra uma cidadã que tentava exercer seus direitos em um espaço público.”
Perguntas frequentes sobre a prisão de Camila Ramos e acordos do ICE em Miami-Dade
Por que Camila Ramos foi presa na audiência de Miami-Dade?
Camila Ramos foi presa por tentar fazer uma pergunta sobre o acordo entre as prisões de Miami-Dade e o ICE durante uma sessão da Comissão do condado. Sua intervenção provocou uma reação violenta dos agentes, que a arrastaram e agrediram, o que desencadeou protestos no local.
Qual é o acordo entre as prisões de Miami-Dade e o ICE?
O acordo permite que as prisões de Miami-Dade retenham imigrantes por até 48 horas a pedido do ICE, com um custo de 50 dólares por pessoa, coberto pelo governo federal. Este acordo tem sido criticado por facilitar detenções prolongadas e sem transparência de imigrantes.
Quais foram as consequências da prisão de Camila Ramos?
O Arresto de Camila Ramos gerou protestos imediatos e reações de indignação tanto dentro quanto fora do recinto. O incidente obrigou os comissários a reabrir comentários públicos sobre o acordo com o ICE, embora a modificação do mesmo tenha sido adiada sem data definida.
Como o programa 287(g) afeta a comunidade imigrante em Miami?
O programa 287(g) permite que agentes locais atuem como oficiais de imigração após receberem treinamento federal. Isso gerou preocupação entre a comunidade imigrante, uma vez que pode aumentar a desconfiança em relação às autoridades e desencorajar as pessoas a denunciarem crimes por medo de serem deportadas.
Quais reações houve em relação às políticas do ICE na Flórida?
As políticas do ICE na Flórida têm sido alvo de críticas e protestos por parte de ativistas e organizações de direitos civis. Aponta-se que essas políticas promovem detenções arbitrárias e violações do devido processo, afetando gravemente os direitos dos imigrantes e gerando um clima de medo nas comunidades afetadas.
Arquivado em:
