Pobreza, solidão e abandono: A velhice em Cuba é sinônimo de vulnerabilidade, reconhece a imprensa oficial

Embora o discurso oficial fale em "proteção", milhares de idosos cubanos sobrevivem com pensões simbólicas, dietas sem alimentos e medicamentos inacessíveis, enquanto o orçamento social não é executado. A velhice, mais do que uma conquista, tornou-se um fardo invisível em Cuba.


A chamada “avó” em Cuba, um conceito tradicionalmente associado à sabedoria, experiência e respeito, está cada vez mais ligada à precariedade e ao abandono, como demonstram centenas de milhares de pessoas idosas sem renda suficiente, atendimento adequado ou respostas claras por parte das autoridades.

Nossos idosos "estão desprotegidos e todos são vulneráveis", reconheceu o artigo "A velhice é toda vulnerável", publicado no jornal oficial 5 de Setembro, de Cienfuegos.

Segundo as cifras oficiais mais recentes, mais de dois milhões de cubanos têm 60 anos ou mais (25,7% do total da população). O acelerado envelhecimento demográfico é resultado de uma combinação de múltiplos fatores, como a diminuição da natalidade, o aumento da expectativa de vida e o incontornável êxodo migratório dos últimos quatro anos.

O país está envelhecendo rapidamente, sem um colchão econômico ou social que atenuem essa transição demográfica. As cifras alarmam, mas mais ainda as decisões... ou a falta delas. Durante a mais recente reunião do Conselho de Ministros, foi reconhecida a não execução do orçamento destinado à assistência social, especialmente no que diz respeito a recursos para pessoas em situações de precariedade.

O texto alude à intervenção da Ministra do Trabalho e Segurança Social, Marta Elena Feitó Cabrera, que na reunião destacou que, ao término do primeiro trimestre de 2025, “o Orçamento de Assistência Social encontra-se com 93 por cento de execução, mas dentro deste há uma verba muito importante que é a entrega de recursos a famílias em situações de vulnerabilidade”.

Feitó destacou que, apesar da existência de lacunas de equidade claramente identificadas, é incoerente que alguns territórios apresentem níveis tão baixos de execução do orçamento destinado à assistência social. Ele afirmou que há áreas onde a execução dessa verba é mínima. Na sua opinião, um uso mais eficiente desses recursos permitiria melhorar o atendimento a idosos, crianças e outras ações sociais com impacto positivo.

O primeiro-ministro Manuel Marrero qualificou de “inconcebível” essa desatenção, embora um conjunto de medidas adotadas pelo próprio governo, como a falida Tarefa de Ordenamento e a abertura de mais lojas em divisas para vendas de alimentos e artigos de primeira necessidade, tenha acentuado a inflação e a crise econômica que afetam com especial dureza os mais velhos.

O artigo do 5 de Setembro denuncia, além disso, a inexistência de mecanismos locais eficazes para uma atendimento diferenciado aos 1.822 idosos com mais de 80 anos que vivem na província de Cienfuegos.

Argumenta que não se trata de uma quantia tão alta a ponto de impedir que esses idosos recebam de forma regular um módulo de alimentos que cubra pelo menos o café da manhã, além de transporte gratuito em meios públicos e acesso prioritário a farmácias para adquirir os medicamentos do “tarjetón”, evitando assim as longas e prolongadas filas.

O texto evidencia “o que realmente é um segredo de polichinelo” em Cuba: A vulnerabilidade das pessoas idosas ao receber pensões ínfimas que não correspondem ao poder aquisitivo para cobrir necessidades minimamente básicas, como o acesso a um café da manhã”.

Embora reconheça o papel protetor que a família desempenha, o jornal questiona se aqueles que hoje recebem essas pensões não terão contribuído o suficiente para a sociedade para ter acesso a uma aposentadoria digna.

A velhice deve significar uma vida plena, digna e protegida, mas em Cuba, isso não ocorre, pois inúmeros idosos carecem de apoio real e, além de lares ou casas de idosos, a vida cotidiana de milhões se resume a resistir.

Cuba enfrenta uma crise demográfica sem precedentes, com uma população efetiva de 9.740.000 habitantes, o que representa mais de 10% a menos em comparação com o ano de 2020.

Sin embargo, um estudo do reconhecido economista e demógrafo cubano Juan Carlos Albizu-Campos estimou que no final de 2024 viviam na ilha 8.025.624 pessoas, muito abaixo das estatísticas oficiais cubanas.

O de os idosos é o único grupo populacional que cresce em Cuba. Os especialistas consideram que essa dinâmica demográfica é caracterizada por uma alta incidência de pobreza, aguda desigualdade social, baixa cobertura da seguridade social e provável tendência ao deterioramento das redes de apoio familiar.

Segundo os dados oficiais, 39% dos aposentados cubanos recebem a pensão mínima equivalente a 1.528 pesos por mês, que têm todas as chances de entrar na lista de pessoas em risco de pobreza extrema.

Especialmente complicada é a situação de aqueles que não têm familiares no exterior que enviem dólares para poder ter acesso a uma dieta balanceada na reta final de suas vidas. Dependem, exclusivamente, do que chega às bodegas, marcadas pelo racionamento, pela escassez e atrasos na distribuição de alimentos básicos.

A descontrolada inflação derivada da malograda Tarefa de Ordenamento encareceu os produtos de primeira necessidade, enquanto os salários permanecem estagnados e se deteriora o poder de compra dos cubanos, exauridos pelas filas, os apagões, a fome e a desesperança.

As pessoas da terceira idade enfrentam também a crise de desabastecimento de medicamentos, junto com as dificuldades devido à indisponibilidade técnica do equipamento médico, falta de insumos e materiais descartáveis necessários para o adequado funcionamento dos hospitais e centros de saúde.

Pacientes com doenças crônicas como hipertensão, diabetes e asma, na sua maioria da terceira idade, enfrentam sérias dificuldades para acessar seus tratamentos, o que coloca em risco sua saúde.

Perguntas frequentes sobre a vulnerabilidade dos idosos em Cuba

Qual é a situação atual dos idosos em Cuba?

Os idosos em Cuba enfrentam pobreza, solidão e abandono, com pensões ínfimas que não cobrem suas necessidades básicas. A falta de atenção e recursos adequados por parte do governo agrava sua vulnerabilidade.

Por que a população idosa está aumentando em Cuba?

O aumento da população idosa em Cuba se deve a um envelhecimento demográfico acelerado, provocado por uma combinação de baixa natalidade, alta expectativa de vida e um êxodo migratório em massa de jovens.

Como a crise econômica afeta os idosos em Cuba?

A crise econômica em Cuba levou a uma inflação descontrolada e ao aumento dos preços de produtos básicos, afetando gravemente os idosos que dependem de pensões mínimas para sobreviver. A falta de recursos e de atendimento agrava sua situação.

O que o governo cubano está fazendo para apoiar os idosos?

Embora o governo reconheça a vulnerabilidade dos idosos, a falta de execução do orçamento para assistência social e a ineficiência administrativa têm impedido que um apoio efetivo seja oferecido. As medidas adotadas não conseguiram mitigar a precariedade em que vivem muitos idosos.

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