Florida reforça sua ofensiva migratória: O plano de DeSantis busca agir sem Washington

Um novo plano detalha como a Flórida se prepara para se tornar não apenas um colaborador do governo de Washington, mas também um ator independente em questões migratórias.


A administração do governador da Flórida, Ron DeSantis, deu mais um passo em sua cruzada contra a imigração ilegal, apresentando um plano estadual que marcaria um divisor de águas na política migratória local.

Segundo relatório da Telemundo 51, trata-se de uma estratégia inédita nos Estados Unidos que propõe que o estado do Sol atue com ou sem a intervenção do governo federal, assumindo funções tradicionalmente reservadas ao Departamento de Segurança Nacional (DHS).

O documento de 37 páginas -entregue ao DHS pela administração DeSantis e citado pela imprensa local- detalha como a Flórida se prepara para se tornar não apenas um colaborador do governo de Washington, mas um ator independente em matéria migratória.

A proposta inclui a mobilização de agências estatais - como a Guarda Nacional, o Departamento de Saúde, a Comissão de Conservação de Pesca e Vida Selvagem (FWC) e a Divisão de Administração de Emergências - para executar tarefas de identificação, detenção, deslocamento e deportação de imigrantes indocumentados.

“El propósito deste documento é propor um roteiro para o importante papel que o Estado da Flórida pode desempenhar ao ajudar o governo federal a combater a imigração ilegal durante as emergências atuais e no futuro”, lê-se textualmente no relatório, citado também pelo Miami Herald.

Um plano alinhado com Trump

O enfoque de DeSantis está claramente alinhado com a agenda anti-imigração do ex-presidente Donald Trump, com quem o governador mantém uma estreita relação política.

Segundo o Miami Herald, a Flórida pretende "aliviar a pressão sobre parceiros federais como o ICE e a CBP" e se posicionar como "um parceiro chave nos esforços de deportação em massa de Trump".

De fato, a proposta começou a ser implementada em parte com operações como a denominada “Operação Maré”, na qual agências federais e estaduais realizaram prisões em massa de imigrantes indocumentados.

Até onde Florida pode chegar legalmente?

Para vários especialistas jurídicos, o plano representa um desafio constitucional.

“Hà 10 ou 15 anos, a linha era muito clara: a imigração era uma questão federal. Ponto. Mas isso tem mudado”, explicou o comentarista político, Alex Penelas, em declarações à Telemundo 51.

No entanto, o advogado de imigração, Eduardo Soto, alerta que o "Estado da Flórida não tem autoridade legal para deportar ninguém" e que "essa é uma função federal e exclusiva do Departamento de Segurança Nacional”.

Soto esclarece que a Florida pode participar em tarefas de detenção e traslado, mas não em decisões sobre a expulsão ou permanência de migrantes, já que isso violaria o devido processo garantido pela lei americana.

“Qualquer pessoa que tenha vivido nos Estados Unidos por mais de dois anos tem o direito absoluto a uma audiência diante de um juiz antes de ser deportada fisicamente”, lembrou.

O alcance do plano estatal

A proposta inclui aspectos operacionais sem precedentes, conforme detalhou o Miami Herald, que incluem:

Criação de centros de detenção: Prevê-se habilitar instalações temporárias com capacidade para abrigar até 10.000 imigrantes, que poderiam ser montadas em 72 a 96 horas, com o apoio de 12 fornecedores de logística contratados pelo estado.

Agentes treinados sob a lei 287(g): Florida já conta com mais de 270 acordos ativos sob este programa federal que permite que a polícia local exerça funções migratórias. DeSantis tem se vangloriado de que seu estado possui mais agentes designados sob esta lei do que qualquer outro no país.

Formação de juízes de imigração: O plano prevê treinar defensores gerais da Guarda Nacional para que atuem como juízes de imigração e participem em audiências remotas, o que tem sido duramente criticado por especialistas e ex-funcionários federais.

Programa de autodeportação: É reintroduzido um plano para facilitar a saída voluntária do país para pessoas sem antecedentes criminais, com logística e custos inicialmente cobertos pelo estado, que posteriormente buscará o reembolso do ICE.

Apoio logístico e de transporte: Foram coordenados sistemas de transporte a nível estadual, com furgões e motoristas disponíveis para deslocar detidos entre centros de detenção.

Os números e o impacto

A Flórida é um dos estados com a maior população indocumentada.

Segundo o Pew Research Center, em 2024 residiam na Flórida aproximadamente 1,2 milhões de pessoas sem status migratório legal.

Por outro lado, o DHS estima que em 2022 havia cerca de 590.000.

Estas cifras, embora divergentes, posicionam o estado como o terceiro com mais imigrantes indocumentados nos EUA.【Miami Herald】.

O estado conta com cerca de 47.000 agentes da ordem pública, muitos dos quais foram treinados por meio de acordos de cooperação com o ICE. Essa força seria fundamental para implementar o plano de DeSantis.

Críticas e preocupações

Numerosos especialistas e defensores dos direitos civis expressaram sua preocupação diante do que consideram uma excessiva incursão do poder estatal.

Alex Howard, ex-porta-voz do DHS durante a administração Biden, foi enfático.

“Este plano desconsidera o devido processo. Confere ao estado a autoridade para prender, deter e deportar sem uma supervisão federal significativa, enquanto exige que Washington arque com os custos de ações que o DHS nunca autorizou.” Howard alertou que o plano “se assemelhava menos a uma estratégia policial e mais a algo característico de Havana, Manágua ou Caracas”, destacou em declarações ao Miami Herald.

Além disso, organizações que defendem os imigrantes temem que iniciativas como a lei 287(g) deterioram a confiança entre as comunidades e as agências policiais, desestimulando vítimas de crimes a denunciarem delitos por medo de deportação.

Além da viabilidade operacional e legal do plano, vários analistas concordam que a estratégia migratória de DeSantis tem um fundo eleitoral.

Em um estado cada vez mais alinhado com a ala dura do Partido Republicano, o governador parece decidido a consolidar sua imagem como defensor da “lei e da ordem” por meio de ações de alto perfil em temas como a imigração.

A grande incógnita é se este ambicioso plano conseguirá ser implementado plenamente sem enfrentar uma onda de processos judiciais e obstáculos constitucionais.

Até o momento, o governo federal não emitiu uma resposta oficial, mas o conflito entre jurisdições promete escalar até os tribunais.

Perguntas frequentes sobre o plano migratório de Ron DeSantis na Flórida

Em que consiste o plano migratório de Ron DeSantis na Flórida?

O plano migratório de Ron DeSantis busca que a Flórida atue de maneira autônoma em matéria de imigração, sem depender do governo federal, para identificar, deter e deportar imigrantes indocumentados. A proposta inclui a mobilização de agências estaduais como a Guarda Nacional e o uso da lei 287(g) para que policiais locais exerçam funções migratórias.

Como o plano de DeSantis se alinha com as políticas de Donald Trump?

O plano de DeSantis está alinhado com a agenda anti-imigração do ex-presidente Donald Trump, com quem mantém uma relação política próxima. A Flórida pretende aliviar a pressão sobre agências federais como o ICE e o CBP, posicionando-se como um parceiro chave nos esforços de deportação em massa promovidos por Trump.

Que críticas o plano migratório de DeSantis recebeu?

O plano foi criticado por seu potencial de extrapolação dos poderes estatais e violações do devido processo, já que confere à Flórida funções que tradicionalmente são federais. Especialistas em direitos civis expressaram preocupação pela falta de supervisão federal e pelo impacto negativo na confiança entre as comunidades imigrantes e as autoridades locais.

O que é a Operação Marea e quais resultados ela obteve?

A Operação Maré é uma ação coordenada de prisões em massa de imigrantes indocumentados na Flórida, realizada por agências federais e estaduais. Em uma de suas fases, mais de 1.100 imigrantes foram presos em apenas seis dias, tornando-se a maior operação deste tipo em um único estado na história dos EUA.

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