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O Serviço Meteorológico Nacional dos Estados Unidos (NWS, pela sigla em inglês) deixou de traduzir seus conteúdos climáticos para outros idiomas, incluindo a tradução em espanhol dos alertas, uma medida que, segundo os especialistas, pode custar vidas em situações de emergência.
A agência federal, que depende da Oficina Nacional de Administração Oceânica e Atmosférica (NOAA), confirmou que o contrato com a empresa de inteligência artificial Lilt, responsável pelas traduções desde o final de 2023, expirou recentemente e não foi renovado.
A interrupção ocorre exatamente quando o governo do presidente Donald Trump iniciou uma série de cortes orçamentários que têm afetado profundamente várias agências federais, incluindo a NOAA.
"É como desligar a sirene antes da tempestade, mas apenas para aqueles que não falam inglês", comentou Norma Mendoza-Denton, professora de antropologia na Universidade da Califórnia, Los Angeles, especialista em sociolinguística.
Um silêncio que coloca vidas em perigo
Quase 68 milhões de pessoas nos Estados Unidos falam um idioma diferente do inglês em casa, incluindo mais de 42 milhões de hispanofalantes, de acordo com dados de 2019. Para eles, as traduções meteorológicas não são um luxo, mas uma necessidade vital.
Joseph Trujillo Falcón, pesquisador da Universidade de Illinois e colaborador da NOAA em questões de comunicação multilíngue, alertou que a decisão poderia ter consequências trágicas. Ele recordou um episódio de 2021 em Kentucky, quando uma família hispânica só reagiu a um alerta de tornado ao recebê-lo em espanhol.
"Essa tradução salvou vidas", afirmou.
O investigador explicou que, durante anos, as traduções eram feitas manualmente por meteorologistas bilíngues, uma prática insustentável durante eventos climáticos extremos como furacões ou tornados.
Com Lilt, o NWS havia conseguido avanços significativos na oferta de conteúdo em espanhol, chinês, vietnamita, francês e samoano, permitindo que milhões entendessem previsões, avisos e medidas de precaução. Mas agora, esse esforço foi interrompido indefinidamente.
Recortes, despidos e uma NOAA debilitada
A decisão de suspender as traduções não é um fato isolado, mas ocorre em meio a cortes promovidos pela administração Trump.
Em março, mais de 1.000 empregados da NOAA -cerca de 10% de sua força de trabalho- foram demitidos, o que se soma a demissões e aposentadorias incentivadas iniciadas em fevereiro.
Entre as consequências visíveis, a NOAA já parou de lançar balões meteorológicos em locais-chave como Albany, Nova York, e Gray, Maine, devido à falta de pessoal. Também há preocupações de que os cortes afetem as pesquisas para melhorar a precisão das previsões e a resposta a emergências climáticas.
Rick Spinrad, ex-administrador da NOAA, foi categórico em sua avaliação: "Isso não é eficiência governamental, são os primeiros passos rumo à erradicação de uma agência essencial para a segurança pública".
Craig McLean, ex-chefe científico da NOAA, advertiu que o país está à beira de perder sua liderança global em tecnologia meteorológica. "O público começará a notar a diferença: previsões menos precisas, respostas mais lentas e decisões mal informadas."
Mais do que o clima: uma questão de equidade
Para acadêmicos como Andrew Kruczkiewicz, pesquisador da Universidade de Columbia, este não é apenas um problema técnico, mas uma falha na equidade social.
"Não estamos falando apenas de furacões ou tornados. As decisões diárias de transporte, agricultura, turismo ou energia dependem da previsão do tempo. E se parte da população não entende esses dados, fica em desvantagem", disse.
Nas redes sociais, a indignação cresce entre comunidades imigrantes, líderes comunitários e organizações de direitos civis que acusam o governo de ignorar as populações mais vulneráveis.
"Essa medida condena milhões de pessoas ao silêncio informativo em meio ao caos climático", expressou um porta-voz do grupo LatinoJustice PRLDEF.
O que vem a seguir?
De momento, ainda não foi anunciado um substituto para o sistema de tradução nem uma data para retomar o serviço. Também não há clareza sobre se o contrato com a Lilt será renovado ou se será buscada outra solução tecnológica ou humana.
O porta-voz do Serviço Meteorológico, Michael Musher, apenas afirmou que a agência "colocou em pausa" as traduções. A Lilt, por sua vez, não respondeu aos pedidos de comentários.
Mas enquanto Washington debate orçamentos e contratos, milhões de residentes nos Estados Unidos podem enfrentar a próxima emergência climática sem entender o que fazer ou para onde ir.
E, nas palavras dos especialistas, essa desconexão informativa pode ter um preço incalculável.
Impacto da suspensão das traduções de alertas climáticos nos Estados Unidos
Por que o Serviço Meteorológico dos EUA deixou de traduzir os alertas climáticos para o espanhol?
O contrato com a empresa de inteligência artificial Lilt, responsável pelas traduções, expirou e não foi renovado. Esta decisão coincide com os cortes orçamentários promovidos pela administração de Donald Trump, afetando várias agências federais, incluindo a NOAA, da qual depende o Serviço Nacional de Meteorologia (NWS).
Quais podem ser as consequências da falta de traduções de alertas climáticos para os hispanofalantes nos EUA?
A falta de traduções pode colocar a vida de milhões de pessoas que não falam inglês em risco. Especialmente em situações de emergência climática, como tornados e furacões, a compreensão dos alertas e medidas de precaução é crucial para a segurança dessas comunidades vulneráveis.
Quantas pessoas poderiam ser afetadas pela suspensão das traduções dos alertas climáticos?
Cerca de 68 milhões de pessoas nos Estados Unidos falam um idioma diferente do inglês em casa, incluindo mais de 42 milhões de hispano-falantes. Essas pessoas podem enfrentar desafios significativos na compreensão de alertas meteorológicos críticos.
Qual tem sido a reação de especialistas e comunidades à suspensão das traduções de alertas climáticos?
A decisão gerou uma onda de críticas por parte de cientistas, acadêmicos e comunidades vulneráveis. Especialistas alertam sobre as possíveis consequências trágicas, e líderes comunitários de direitos civis acusam o governo de ignorar as populações mais vulneráveis, condenando-as ao silêncio informativo em meio ao caos climático.
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