Era final de semana e uma mulher, acompanhante de um paciente, esperava por horas nas imediações da sala de operações de um hospital provincial em Matanzas, e quando a necessidade de comer se tornou urgente, ela descobriu que isso não seria tão fácil: nenhum local próximo aceitava pagamentos por transferência ou online, apenas em dinheiro.
O caso, narrado pelo jornal oficialista Girón, expõe uma das muitas fissuras da bancarização em Cuba: uma política promovida pelo Governo para incentivar os pagamentos digitais e reduzir o uso de dinheiro em espécie, mas que na prática enfrenta obstáculos técnicos, econômicos e culturais.
Longe dos números oficiais, que mostram um aumento na entrega de cartões magnéticos e operações por canais eletrônicos, muitos usuários sentem que a bancarização não avança. Ou pior ainda: retrocede.
Tal como admitiu o jornal oficialista, e nas palavras das pessoas nas redes sociais, está “de pernas para o ar”.
Comércios que alegam problemas de conexão, códigos QR inoperantes, encargos injustificados ou simples negativas em aceitar pagamentos eletrônicos fazem parte do dia a dia.
Alguns negócios, segundo a diretora provincial do Bandec, Yanetsy Chávez Camaraza, chegam até a fornecer o número do cartão pessoal de um trabalhador em vez de utilizar a via institucional, o que impede o cliente de se beneficiar de descontos e bonificações.
Em um contexto comercial, o qual o regime não tem sido capaz de controlar, os clientes recebem respostas como "hoje não aceitamos transferências", "já excedemos o número do dia" ou "depois do meio-dia não usamos QR".
Em muitos casos, alegam falhas de conectividade para justificar que só aceitam dinheiro, apesar de que aplicativos como Transfermóvil não dependem de dados móveis para funcionar.
Para alguns trabalhadores autônomos, como um vendedor de produtos agropecuários em Matanzas, o pagamento digital é visto como um obstáculo: lento, pouco confiável e incômodo para os clientes.
Essa desconfiança tecnológica se soma ao fato de que muitos agentes econômicos, estatais ou privados, não conseguem acessar seu dinheiro com agilidade, o que os leva a preferir o dinheiro em espécie e operar fora do controle fiscal, e neste caso a culpa recai diretamente no governo e seu sistema bancário.
Segundo dados do Bandec, entre janeiro e março de 2025 foram emitidos mais de 31.000 cartões magnéticos e mais de 6.700 Multibanca na província, com mais de três milhões de operações eletrônicas que movimentaram mais de 8.100 milhões de pesos.
No entanto, o próprio banco reconhece que mais de 19.000 clientes ainda não estão bancarizados. Os setores mais atrasados são o agropecuário e os trabalhadores autônomos.
Embora existam grupos de trabalho provinciais e municipais para impulsionar a bancarização —com a participação da Bandec, BPA, da ONAT e de outras entidades—, os mecanismos de controle não estão sendo eficazes. As inspeções são limitadas e, quando acabam, os mesmos negócios voltam a operar fora da norma.
Desde a ONAT, a diretora provincial alerta que a partir do dia 15 de abril poderão ser fechados negócios que não tenham contas fiscais ativas.
Assegura que já foram cruzados dados entre os ingressos bancários e as declarações fiscais, e que há ações programadas para detectar evasões.
Al margen dos "esforços" do regime, a realidade é que as queixas persistem. Usuários denunciam comércios com QR apenas para exibição, outros que aceitam transferências conforme a conveniência ou que impõem encargos ilegais.
Alguns cidadãos, como Marilyn, criticam que o cumprimento dessa política recaia exclusivamente na denúncia popular: “Não é o povo quem deve controlar se a lei está sendo cumprida”, disse ao veículo mencionado, evidenciando o fracasso do regime ao impor a bancarização.
Outros fatores estruturais também conspiram contra o sucesso da bancarização: existem áreas sem cobertura onde não é possível utilizar plataformas digitais, e nesses casos, o pagamento em dinheiro continua sendo a única opção real.
Desde o Partido e o Governo provincial reconhecem que os resultados não são os esperados e convocam a reforçar a fiscalização, como um recurso coercitivo que em outras ocasiões foi imposto.
Incluso foi levantada a necessidade de que os CDR se juntem à fiscalização de estabelecimentos em bairros onde proliferam cafeterias que não aceitam pagamentos eletrônicos ou praticam preços abusivos.
O consenso entre autoridades, bancos e cidadãos parece claro: sem um compromisso real de todas as partes —desde as instituições até os clientes—, a bancarização em Cuba continuará presa entre boas intenções e uma realidade que as desmente diariamente.
Perguntas frequentes sobre a crise de bancarização em Cuba
Por que a bancarização falhou em Matanzas, Cuba?
O fracasso da bancarização em Matanzas se deve a obstáculos técnicos, econômicos e culturais. Os comércios enfrentam problemas de conectividade, os códigos QR são inoperantes, e existe uma resistência generalizada aos pagamentos eletrônicos. A falta de infraestrutura e a desconfiança no sistema financeiro estatal agravam a situação.
Quais problemas os usuários enfrentam com a bancarização em Cuba?
Os usuários enfrentam recusas em aceitar pagamentos eletrônicos, problemas de conectividade e taxas injustificadas. Muitos comércios preferem dinheiro para evitar o controle fiscal, e aplicativos como Transfermóvil nem sempre são viáveis devido a falhas na infraestrutura tecnológica.
Quais medidas o governo cubano tomou para melhorar a bancarização?
O governo criou grupos de trabalho provinciais e municipais para promover a bancarização, mas os mecanismos de controle não têm sido eficazes. Tentou-se cruzar dados entre receitas bancárias e declarações fiscais, mas as inspeções são limitadas e os problemas persistem.
Como a falta de bancarização afeta a economia cubana?
A falta de bancarização afeta a liquidez e o controle fiscal, uma vez que muitos negócios operam fora da norma. A resistência aos pagamentos eletrônicos e a preferência pelo dinheiro em espécie dificultam as transações e limitam o crescimento econômico em setores como o agropecuário e o trabalho autônomo.
Quais alternativas existem diante do fracasso da bancarização em Cuba?
Ante o fracasso da bancarização, os cidadãos devem recorrer ao uso de dinheiro, apesar das dificuldades de acesso ao mesmo. A implementação de serviços como "Caja Extra" foi sugerida, mas a falta de preparo de muitas entidades limita sua efetividade.
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