Hialeah se tornou a primeira cidade da Flórida a submeter seu orçamento à análise do Departamento de Eficiência Governamental do estado (DOGE), uma entidade criada com o objetivo de revisar e otimizar o uso dos fundos públicos.
A decisão de participar voluntariamente nesta auditoria estatal foi apresentada de maneira oficial em uma coletiva de imprensa nesta terça-feira, presidida pelo prefeito Esteban Bovo e pela presidente do Conselho Municipal, Jacqueline García-Roves, que assumirá interinamente a prefeitura quando Bovo se deslocar para Washington para ocupar um novo cargo.
Uma aposta pela transparência
“A cidade de Hialeah dá as boas-vindas ao programa DOGE do estado. Hialeah tem seu próprio programa de eficiência em funcionamento há muito tempo”, afirmou o prefeito, sublinhando que a cidade sempre foi rigorosa no uso dos recursos públicos.
“Criamos protocolos de transparência onde cada centavo que entra nesta cidade é claramente direcionado”, acrescentou.
Bovo insistiu que a cidade não aumentou os impostos de seus residentes há 13 anos, apesar de operar com um orçamento apertado.
“A cidade financia seus serviços com as receitas e o que os residentes podem pagar. Somos a cidade com os impostos mais baixos da Flórida”, assegurou.
Nesse sentido, ressaltou que cada dólar é investido em áreas-chave como segurança, recreação e infraestrutura.
“Mais polícia, mais bombeiros, melhorias em parques e ruas. Nenhum vereador nem o prefeito anda com escolta”, apontou.
O orçamento de Hialeah para o ano fiscal de 2024-2025 soma 574 milhões de dólares, o que representa um aumento de 34,7 % em relação ao exercício anterior.
Pese a este aumento, Bovo destacou que “é uma cidade que sempre se tem administrado apertando o lápis. Não há desperdício.”
Colaboração sem medo
A decisão de Hialeah está alinhada com o chamado do governador DeSantis, que pediu aos municípios que se juntem voluntariamente ao processo de auditoria sob o DOGE.
“Estamos trabalhando com a Legislatura da Flórida para obter mais autoridade prescritiva para realizar auditorias a esses governos locais”, expressou o governador em uma publicação no X.
Embora alguns críticos tenham expressado preocupação sobre uma possível perda de autonomia dos governos locais em relação ao estado, Bovo demonstrou confiança.
“Se o estado intervier e disser que é necessário cortar um programa, terá que mostrar ao Conselho e a mim qual será a solução e a alternativa. Estamos abertos à análise”, afirmou.
Assim, negou que esta revisão represente um risco para os serviços municipais ou para os funcionários.
“Não creio que exista algum serviço que ofereçamos hoje do qual possamos abrir mão”, disse.
E acrescentou: “Pelo seu tamanho, Hialeah deveria ter cerca de 2.400 funcionários como Orlando, mas temos apenas 1.400. Historicamente, aqui se faz mais com menos.”
Apoio do Conselho e objetivos comuns
A presidenta do Conselho, Jacqueline García-Roves, apresentou uma resolução copatrocinada pelo prefeito para formalizar a cooperação com o DOGE.
“Convidamos o Estado a auditar nossas finanças. Esta noite estarei apresentando uma resolução junto ao prefeito propondo que aceitemos voluntariamente a auditoria”, expressou.
Desde o governo estadual, o propósito do DOGE é claro: “continuar agilizando nosso governo e eliminando a burocracia desnecessária”, nas palavras de DeSantis. O modelo segue o exemplo do bilionário Elon Musk, que impulsiona um esforço federal para reduzir os gastos públicos.
Uma cidade sob a lente
No entanto, a decisão não esteve isenta de críticas.
O analista político Alex Penelas opinou que “é possivelmente a cidade mais republicana no estado da Flórida” e alertou sobre o risco dessa transferência de competências para o estado: “É parte de um padrão que estamos observando há vários anos, onde o estado, pouco a pouco, tem retirado poder dos governos locais”.
Na mesma linha crítica, expressou-se Bryan Calvo, único candidato atual à prefeitura, que classificou a aproximação ao DOGE como uma manobra política.
“O prefeito e a câmara municipal acabaram de aprovar automaticamente uma pensão, uma aposentadoria, uma compensação diferida de forma retroativa até o ano de 2021,” denunciou.
“Se você quer uma ideia, eu vou te dar uma: que retire a pensão e a aposentadoria dos vereadores”, exclamou.
Frente a essas acusações, Bovo não negou os desafios que sua administração enfrenta, mas reafirmou que seu compromisso é com a eficiência e a transparência.
“Se nos demonstrarem uma maneira melhor de fazer isso, estamos abertos para implementá-la”, assegurou.
Desafios concretos: A água e o custo de vida
Durante a conferência, Bovo abordou temas sensíveis, como o elevado custo dos seguros e a situação da planta de osmose reversa que Hialeah compartilha com o condado de Miami-Dade.
Atualmente, a planta produz 8,5 milhões de galões diários, enquanto a cidade precisa de 23 milhões. Além disso, o custo de produção é o dobro do preço que implicaria comprar a água do condado.
“Temos uma planta que o Estado considerou necessária. O Condado e Hialeah cooperaram para construí-la. Agora o Condado diz que não é mais necessária. Investimos milhões e temos uma dívida. Acredito que o Estado pode nos ajudar a analisar a situação e talvez assumir essa dívida”, propôs.
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