Silêncio em Havana: A imprensa oficialista evita mencionar o voto de Cuba alinhado com Trump na ONU

A imprensa oficialista cubana ignorou a coincidência do voto de abstenção de Cuba e dos EUA na ONU, em contraste com sua habitual crítica a Washington. Esse silêncio ressalta a tensão que se vive no Palácio e na Chancelaria de Havana.

Miguel Díaz-Canel (imagem de referência) e Assembleia Geral da ONUFoto © CiberCuba / Grok - Wikipedia

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A imprensa oficialista cubana optou pelo silêncio absoluto diante de um fato diplomático que, se tivesse ocorrido em outro contexto, certamente teria ocupado os seus manchetes: a abstenção de Cuba na recente votação da Assembleia Geral da ONU que condena a invasão russa à Ucrânia.

Pero o mais chamativo não é apenas o mutismo dos meios de comunicação estatais, mas o fato de que, nesta ocasião, a posição de Havana na ONU coincidiu com a proposta da administração de Donald Trump.

Na votação de 23 de fevereiro, os Estados Unidos, sob a liderança de Trump, foram uma das 18 nações que votaram contra a resolução, alinhando-se com regimes como o de Vladimir Putin (Rússia), o de Kim Jong-un (Coreia do Norte) ou o de Alexander Lukashenko (Bielorrússia).

Enquanto isso, 93 países apoiaram a condenação a Moscovo e 65 se abstiveram, entre eles Cuba, China, Venezuela ou Irão. No entanto, a coincidência do voto cubano com o norte-americano foi completamente ignorada pelos meios de comunicação oficiais da ilha, como Granma, Cubadebate, Trabalhadores ou Juventude Rebelde.

Esta omissão se torna ainda mais notável considerando o histórico da imprensa estatal cubana, que não perde a oportunidade de criticar Washington, especialmente quando o governo americano é liderado por uma administração do Partido Republicano, que "endurou o bloqueio e impôs mais de 250 medidas".

No entanto, nesta ocasião, Havana preferiu evitar qualquer menção que possa gerar questionamentos sobre o alinhamento diplomático de Cuba e suas contradições na política externa.

Este silêncio também contrasta com a cobertura anterior desses mesmos meios, que defenderam em múltiplas ocasiões a "posição soberana e independente" de Cuba no conflito entre Rússia e Ucrânia.

Em fevereiro de 2022, por exemplo, quando a guerra estava apenas começando, Cubadebate e outros meios afins ao regime se apressaram a justificar a postura do governo cubano ao lado da Rússia, enquanto acusavam o Ocidente de provocar o conflito.

Histórico de votações na ONU sobre a invasão russa à Ucrânia

Desde o início da invasão russa à Ucrânia em fevereiro de 2022, a Assembleia Geral das Nações Unidas realizou várias votações para condenar as ações da Rússia e exigir a retirada de suas tropas do território ucraniano.

A seguir, detalham-se as principais resoluções e as posturas adotadas por Cuba e Estados Unidos, bem como os países que votaram contra ou se abstiveram:

1- Resolução ES-11/1 (março de 2022): "Agressão contra a Ucrânia".

  • Resultado da votação: 141 votos a favor, 5 contra e 35 abstenções.
  • Países que votaram contra: Rússia, Bielorrússia, Coreia do Norte, Eritreia e Síria.
  • Abstenções destacadas: China, Índia, África do Sul e Cuba.
  • Postura dos Estados Unidos: Votou a favor da resolução.

2- Resolução ES-11/4 (outubro de 2022): "Integridade territorial da Ucrânia: defesa dos princípios da Carta das Nações Unidas".

  • Resultado da votação: 143 votos a favor, 5 contra e 35 abstenções.
  • Países que votaram contra: Rússia, Bielorrússia, Coreia do Norte, Nicarágua e Síria.
  • Abstenções destacadas: China, Índia, Paquistão e Cuba.
  • Postura dos Estados Unidos: Votou a favor da resolução.

3- Resolução de fevereiro de 2025: "Princípios da Carta das Nações Unidas nos quais se baseia uma paz geral, justa e duradoura na Ucrânia".

  • Resultado da votação: 93 votos a favor, 18 contra e 65 abstenções.
  • Países que votaram contra: Estados Unidos, Rússia, Bielorrússia, Coreia do Norte, Eritreia, Hungria, Israel e Síria, entre outros.
  • Abstenções destacados: China, Índia, África do Sul e Cuba.
  • Postura dos Estados Unidos: Pela primeira vez, votou contra a resolução, alinhando-se com a Rússia e outros países que se opõem a condenar a invasão.

É relevante destacar que, nas duas primeiras resoluções, Cuba optou por se abster, mantendo uma postura neutra. Na terceira resolução, embora também tenha se abstido, a posição dos Estados Unidos mudou drasticamente ao votar contra, o que gerou uma aliança inesperada com a Rússia e outros países que apoiam ou não condenam a invasão.

Este cambio na postura americana tem sido objeto de análises e críticas a nível internacional, uma vez que representa uma desvio significativo da sua posição tradicional de apoio à Ucrânia. Mas nos meios de comunicação oficiais cubanos, o silêncio pode ser cortado com uma faca.

Além disso, a diminuição no número de votos favoráveis às resoluções entre 2022 e 2025 indica uma possível erosão do consenso internacional em relação à condenação das ações russas na Ucrânia.

Fatores geopolíticos, mudanças nas administrações governamentais e realinhamentos estratégicos podem estar influenciando essas variações nas votações da Assembleia Geral da ONU, algo sobre o qual o regime de Havana se manteve em silêncio desta vez.

O mutismo da imprensa oficialista neste novo cenário evidencia sua estratégia informativa: destacar o que convém à narrativa do governo e silenciar qualquer fato que possa gerar questionamentos ou desconforto dentro de suas próprias fileiras.

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