A administração do presidente Donald Trump decidiu manter a licença concedida à Chevron pelo governo de Joe Biden para operar na Venezuela, apesar das críticas de setores do exílio venezuelano e da oposição.
A decisão foi qualificada como uma "traição" por alguns críticos do acordo, que acusam Trump de permitir que o regime de Nicolás Maduro continue se beneficiando da exploração petrolífera.
O enviado especial dos Estados Unidos para a América Latina, Mauricio Claver-Carone, revelou em uma entrevista com o jornalista Andrés Oppenheimer que a licença concedida à Chevron é "permanente" e se renova automaticamente a cada seis meses.
"O governo do presidente Biden a tornou permanente e enganou o povo. Disse que expiraria, mas redigiram de uma forma que era permanente", denunciou Claver-Carone.
Segundo o funcionário cubano-americano, as negociações da administração Biden com a Venezuela levaram à "normalização" do regime de Maduro e a eliminação do governo interino venezuelano em dezembro de 2022.
"As conversas de Biden normalizaram o governo de Maduro, eliminando o governo reconhecido pelos Estados Unidos e 60 países do mundo", afirmou referindo-se ao rreconhecimento internacional de Juan Guaidó, que Donald Trump anunciou em janeiro de 2019.
Claver-Carone também destacou que a decisão da Casa Branca e a recente mediação do enviado especial Richard Grenell facilitaram a liberação de americanos detidos na Venezuela. Foi o próprio Grenell quem recentemente afirmou que Trump não deseja mudanças no regime da Venezuela, nem planeja guiar a política externa dos Estados Unidos por esse objetivo.
Asimismo, assegurou que a administração Trump, apesar da libertação de reféns e do acordo pelo qual mantém a licença da Chevron, está aplicando medidas de pressão em relação à Venezuela.
Um dos pontos mais polêmicos da decisão foi a percepção de que houve uma troca entre sanções petrolíferas e a aceitação de migrantes venezuelanos nos Estados Unidos. "Muitos veem isso como uma traição de Trump. Trocaram que a Venezuela recebesse indocumentados em troca de que a administração de Trump não imponha sanções petrolíferas", destacou Oppenheimer durante a entrevista.
O jornalista também perguntou sobre a informação do Bloomberg que afirma que a Chevron planeja aumentar sua produção na Venezuela, uma decisão que Claver-Carone atribuiu às políticas de Biden durante o último ano. Nesse sentido, Claver-Carone rejeitou a ideia de que a administração Trump esteja continuando com a estratégia de Biden, garantindo que a política externa é gerida "de uma maneira estratégica e importante".
A Chevron, o único produtor de petróleo americano que ainda permanece na Venezuela, bombeia atualmente cerca de 240.000 barris diários, ou quase 23% da produção total do país, o que representa cerca de US$ 6 bilhões em receitas. Esse nível de produção é similar ao que a empresa produziu em 2018, antes de Trump impor sanções a Maduro pela primeira vez.
Cronologia da política petrolífera entre os EUA e a Venezuela
- Setembro de 2017: Estados Unidos impõe sanções econômicas contra a Venezuela devido à consolidação do regime de Nicolás Maduro e à erosão da democracia. O acesso do governo venezuelano aos mercados financeiros americanos é restringido.
- Setembro de 2017: A administração Trump suspende temporariamente algumas sanções contra a Venezuela devido à escassez de petróleo e à pressão de empresas energéticas americanas. É permitido a certas empresas continuar transações com a PDVSA para garantir o fornecimento de petróleo para refinarias nos EUA.
- Janeiro de 2019: Os EUA endurecem sua postura e aplicam sanções diretas à PDVSA, congelando ativos e restringindo exportações de petróleo venezuelano. A medida busca reduzir o fluxo de receitas para o governo de Maduro.
- Março de 2019: Como resultado das sanções, as exportações de petróleo da Venezuela caem 40%, gerando uma crise de liquidez no país sul-americano.
- Outubro de 2022: O governo de Maduro e a oposição venezuelana assinam o Acordo de Barbados, com a mediação da Noruega, para estabelecer condições democráticas nas eleições presidenciais de 2024. Como parte do pacto, os EUA flexibilizam as sanções e renovam a licença da Chevron para operar na Venezuela.
- Maio de 2023: Biden renova a licença da Chevron, permitindo que a petroleira continue operando na Venezuela em meio à crise energética global resultante da invasão da Rússia à Ucrânia.
- Janeiro de 2024: O governo de Maduro toma medidas que comprometem o Acordo de Barbados, incluindo a desqualificação de candidatos da oposição.
- Abril 2024: EE.U.A. reimpoe sanções petrolíferas a Venezuela após o governo de Maduro descumprir acordos democráticos. No entanto, a Chevron mantém sua licença.
- Julho de 2024: Trump critica a gestão da Venezuela por parte de Biden e afirma que "nunca deveriam ter levantado as sanções a Maduro", sugerindo medidas mais drásticas em sua administração.
Sanções, petróleo e política: O vai e vem da estratégia americana na Venezuela
Desde 2017, a política americana em relação à Venezuela tem oscilado entre sanções severas e flexibilização estratégica, dependendo dos interesses econômicos e geopolíticos de cada administração.
A administração Trump impôs sanções severas contra a PDVSA em uma tentativa de enfraquecer o regime de Maduro, afetando significativamente a economia venezuelana. No entanto, a administração Biden buscou um certo alívio dessas sanções na esperança de incentivar negociações democráticas no país sul-americano.
O Acordo de Barbados representou uma tentativa de Washington de condicionar o alívio das sanções a melhorias no processo eleitoral venezuelano. No entanto, a falta de cumprimento por parte do governo de Maduro levou à reimposição de sanções em 2024.
Apesar disso, a Chevron manteve sua licença para operar, o que sugere que os EUA continuam interessados em manter certo acesso ao petróleo venezuelano sem reforçar Maduro.
A condição de Edmundo González como presidente eleito da Venezuela representa uma nova oportunidade para redefinir a relação com os EUA e a política de sanções.
A convite de Trump a González para sua posse presidencial foi interpretado como uma clara mensagem de apoio e um possível indício de uma reconfiguração na estratégia americana em relação à Venezuela.
Apesar do aparente estagnação, Washington deixou claro que continuará pressionando Maduro e seus aliados, o que sugere que as sanções podem se manter no curto prazo.
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