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Desde a última sexta-feira, Havana já não conta com um de seus aliados mais fiéis no mapa político do Caribe. A derrota de Ralph Gonsalves, após 24 anos no poder em São Vicente e Granadinas, deixou o regime cubano sem uma de suas vozes mais firmes na região. E embora em público a reação oficial tenha sido diplomática, o tom emocional das mensagens de Díaz-Canel e outros funcionários revela o peso simbólico da perda.
A primeira sinal chegou pela conta de Miguel Díaz-Canel, que parabenizou o novo primeiro-ministro Godwin Friday, um historiador e cientista político de 66 anos, formado no Canadá e líder do Novo Partido Democrático.
No entanto, a verdadeira mensagem estava na postagem seguinte, dedicada diretamente ao homem que, durante duas décadas, votou por Cuba nas Nações Unidas, defendeu suas missões médicas e se tornou um escudeiro regional do castrismo.
"Estimado irmão Ralph, sua amizade leal ficará para sempre como símbolo de irmandade e solidariedade", escreveu Díaz-Canel, em uma despedida quase fraternal do líder que lhe abriu portas diplomáticas em fóruns onde Havana costuma estar isolada.
A linha oficial foi reiterada por outros altos cargos. O chanceler Bruno Rodríguez destacou a “amizade” e a “solidariedade” entre as duas nações, enquanto Manuel Marrero enviou uma mensagem de continuidade ao novo governo, embora tenha reservado um “abraço agradecido” para Gonsalves.
A imprensa oficialista, por sua vez, limitou-se a reproduzir o boletim eleitoral, evitando qualquer interpretação política da derrota de quem foi um dos apoios mais sólidos do castrismo.
Venezuela, outro dos regimes que perdeu um aliado chave, publicou um comunicado mais elaborado, onde destacou o papel de Gonsalves na integração regional, na defesa de interesses comuns e em iniciativas que beneficiaram diretamente os governos de Caracas e Havana.
Em paralelo, a embaixada venezuelana em Cuba parabenizou Friday, mas também agradeceu pela “destacada trajetória” do primeiro-ministro que está saindo.
O caso da Nicarágua, a imprensa independente lembrou que Gonsalves foi o único chefe de Estado presente no aniversário sandinista de 2023 e um aliado frequente de Ortega e Murillo, que o distinguiram com sua máxima condecoração política.
A derrota do “Camarada Ralph”, como o chamam em círculos de esquerda, reconfigura o tabuleiro regional. Para Cuba, sua saída implica perder um voto seguro em organismos internacionais e a um dos defensores mais vocais das missões médicas, mesmo quando estas têm sido denunciadas como formas de exploração laboral.
Para Caracas e Managua, isso significa a queda de uma ponte diplomática que servia de amortecedor em momentos de isolamento.
Enquanto Godwin Friday promete "mudanças transformadoras" e uma nova direção para seu país, o castrismo enfrenta um cenário desconfortável, embora ainda se desconheça a orientação do novo governo, onde, pela primeira vez em duas décadas, São Vicente e Granadinas pode se afastar do eixo político liderado por Havana, Caracas e Managua.
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