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O último programa televisivo 'Cuadrando la Caja', da televisão estatal, apresentado por Marxlenin Pérez Valdés, dedicou sua edição a explicar “por que Cuba busca recuperar o controle do mercado cambial”.
No espaço participaram o licenciado Ian Pedro Carbonell Karell, diretor de políticas macroeconômicas do Banco Central de Cuba (BCC); o doutor Ayuban Gutiérrez Quintanilla, vice-presidente da Associação Nacional de Economistas e Contadores (ANEC); e o deputado Carlos Miguel Pérez Reyes, empresário privado.
O programa começou com um reconhecimento inédito: “Sabemos que atualmente o mercado cambial não funciona”, admitiu Carbonell Karell, que justificou a necessidade de “retomar” esse espaço para conectar a economia nacional com o exterior.
O acadêmico Gutiérrez Quintanilla acrescentou que o Estado deve dar “oficialidade” a um mercado que hoje opera de forma informal e ilegal, com o objetivo de “regulá-lo” e “colocá-lo a serviço do desenvolvimento econômico”.
Por sua parte, o empresário Pérez Reyes descreveu como a volatilidade do dólar e a inexistência de uma taxa real afetam os contratos, os preços e a possibilidade de exportar. “É um ciclo vicioso: sem moedas estrangeiras não há mercado, e sem mercado não entram moedas estrangeiras”, disse.
A condução do programa insistiu que o objetivo do governo é criar um mercado legal e seguro para frear a referência do dólar informal, que atualmente gira em torno de 450 pesos nas ruas, muito acima da taxa oficial de 120.
"Entrar em campo"
O painel de especialistas concordou que o governo planeja “entrar no jogo” do mercado informal com uma versão “oficial” e controlada.
“É preciso recuperar esse mercado cambial que hoje existe de forma ilegal”, repetiu Gutiérrez Quintanilla. “O primeiro passo é participar, mesmo que as condições não sejam ideais.”
Os tertulianos reconheceram que Cuba não possui reservas suficientes para sustentar um tipo de câmbio fixo, por isso pretende-se aplicar um modelo “flexível e gradual”.
Carbonell Karell admitiu que a economia cubana enfrenta déficit fiscal, emissão excessiva de pesos, dolarização parcial e contração produtiva, mas sustentou que o novo esquema “permitirá atrair remessas e dar confiança àqueles que hoje operam no mercado negro”.
A apresentadora destacou que o governo busca “eliminar a influência de atores externos” e “acabar com o jogo” do que descreveu como uma “guerra econômica”.
El Toque, tornado em inimigo oficial
No trecho final do programa, os painelistas e a apresentadora dedicaram vários minutos a apontar o El Toque —meio independente cubano que publica diariamente a taxa informal do dólar— como responsável por distorcer a economia.
“Esse jogador inimigo, El Toque, manipula a taxa ilegal do dólar sob interesses estrangeiros”, afirmou a apresentadora Marxlenin Pérez, doutora em Ciências Filosóficas e professora da Universidade de La Havana, e parceira de Fidel Castro Smirnov, filho de Fidel Castro Díaz-Balart e neto paraquedista do ditador globero.
Carbonell Karell advertiu que “200, 300, 400 mensagens diárias de compra e venda” não podem determinar a taxa real de uma economia, e acusou a plataforma de “formar expectativas” que “atentam contra a estabilidade do país”.
O empresário e deputado Pérez Reyes chegou a qualificar a dinâmica do mercado informal como “uma máfia” e vinculou El Toque a “atores que lavam dinheiro e cobram comissões por operações entre Cuba e Estados Unidos”.
O acadêmico Gutiérrez Quintanilla encerrou com uma afirmação política: “Ao inimigo não se ignora, se combate. O Toque declarou que deseja subverter a Revolução. Nenhum patriota pode se colocar ao lado de quem ataca seu país.”
Dessa forma, o programa televisivo transformou uma discussão econômica em um ato de propaganda política, reforçando a narrativa de que o Estado deve “recuperar o controle do dólar” para defender a soberania nacional.
Sem FMI e com "desdolarização gradual"
Ante a pergunta sobre possíveis mecanismos internacionais de apoio, Gutiérrez Quintanilla descartou qualquer cooperação com o Fundo Monetário Internacional (FMI): “Nós não temos acesso ao FMI. Esse cheque vem com condições que destroem a soberania. Cuba não vai seguir esse caminho.”
O painelista defendeu que o país deve “mover a maquinaria econômica com seus próprios esforços” e avançar em direção a uma unificação monetária e cambial “a longo prazo”, cujo objetivo final seria “desdolarizar” a economia.
Em síntese, o programa apresentou um esboço rudimentar de recuperação sem reservas, sem financiamento externo e sem credibilidade internacional, sustentado unicamente na promessa de “entrar no jogo”.
Crítica do economista Pedro Monreal: “Sem produção não há taxa de câmbio”
O economista cubano Pedro Monreal respondeu nas redes sociais com uma crítica direta ao discurso oficial.
Em uma série de dez mensagens no X (antes Twitter), alertou que o chamado “relançamento” do mercado cambial carece de fundamento econômico e que o governo evita sua responsabilidade no fracasso da política monetária.
"Sobre o que se diz a respeito de ‘relançar’ o mercado cambial oficial é um murmúrio. Não são mencionados dois temas cruciais: resolver a falta de apoio produtivo do peso cubano e o tipo específico de regime cambial", escreveu.
Monreal destacou que, sem uma oferta produtiva, sem bens nem serviços em pesos, a estabilidade cambial é impossível: “Com pesos desvalorizados, não haverá um mercado cambial robusto. Funcionará como uma ficção ou como um improviso.”
O economista lembrou que em 2020 o governo prometeu uma unificação monetária e cambial que nunca se concretizou, e qualificou como “absurdo” que agora se diga que essa medida seria “um suicídio”, após ter sido defendida na época como parte de um processo de análise de mais de 10 anos.
“Não é sério sair com isso a esta altura do campeonato”, ironizou.
Para Monreal, o principal problema da nova tentativa é a falta de coerência e credibilidade: “Enquanto se falar de uma taxa de câmbio ‘flutuante’ sem definir que tipo de regime será estabelecido, não se poderá avançar em um debate razoável.”
Acrescentou que manter duas taxas de câmbio distintas prolongará "uma fábrica de distorções" e que a atual "vaguidão sobre a sequência do programa econômico não promete muito".
Sua conclusão foi lapidária: “Mantém-se um documento político que defende a unificação monetária e cambial, ao mesmo tempo em que em meios oficiais se afirma que isso seria um suicídio. Um pouco de coerência não faria mal.”
Conclusões
A tentativa do regime de “recuperar o controle do dólar” não se sustenta em uma estratégia econômica, mas sim em uma narrativa política desenhada para simular iniciativa e desviar responsabilidades.
‘Cuadrando la Caja’ foi, na verdade, uma encenação propagandística: um roteiro repetido de slogans socialistas, responsabilização externa e promessas abstratas, sem um único dado, cronograma ou mecanismo técnico que explique como se pretende criar um mercado cambial funcional em um país sem liquidez, sem oferta e sem confiança.
O discurso oficial, disfarçado de debate, limitou-se a reiterar clichês: “entrar em campo”, “recuperar o mercado”, “dar o primeiro passo”, “fazer isso com gradualidade” ou “mover a máquina econômica com nossos próprios esforços”. Frases vazias que não descrevem políticas, mas estados de espírito.
Ninguém explicou com quais reservas o câmbio se sustentaria, que medidas fiscais ou produtivas acompanhariam o processo, nem como se pretende atrair divisas em um contexto onde o próprio Estado é incapaz de entregar as remessas enviadas por vias oficiais.
Também não houve autocrítica nem balanço dos fracassos anteriores: a “Tarefa de Ordenação”, que deveria unificar as moedas e estabilizar o peso, foi omitida ou tratada como uma experiência alheia, apesar de ter colapsado há apenas três anos. Quando um dos convidados qualificou essa unificação como um “suicídio”, a apresentadora assentiu, selando a amnésia oficial.
A mensagem implícita foi clara: o Estado não assume responsabilidade; limita-se a anunciar mais um “experimento gradual” com a mesma retórica triunfalista que precedeu a todos os fracassos anteriores.
A estrutura do programa respondeu mais ao formato de ato político do que a um fórum econômico. Cada intervenção reforçou a ideia de que os problemas do peso cubano decorrem de “uma guerra econômica”, do “bloqueio” ou de “interesses estrangeiros”.
Como era de se esperar, Marxlenin Pérez transformou a discussão técnica em uma cruzada ideológica contra o meio independente El Toque, que se tornou inimigo oficial por publicar a taxa informal do dólar.
A demonização de El Toque serviu como um distrativo perfeito para evadir o problema central: a perda total de confiança no peso e no sistema financeiro estatal. Em vez de reconhecer essa erosão, os painelistas acusaram "uns garotos que lêem mensagens no Facebook" de manipular a economia nacional, reduzindo uma crise estrutural a uma guerra de percepções.
A ambiguidade deliberada dominou todo o debate. Falou-se em “mercado flexível” sem definir seu regime, em “unificação monetária” sem um calendário, em “desdolarização gradual” sem instrumentos, e em “recuperar a convertibilidade” sem explicar de onde virão as divisas para sustentá-la.
Nem uma única cifra, nem uma estimativa de reservas, nem um plano de incentivos para exportadores ou produtores: apenas apelos retóricos à "soberania" e aos "esforços próprios", que se repetem há três décadas.
Em resumo, ‘Cuadrando la Caja’ foi um exemplo de retórica econômica vazia disfarçada de ideologia.
Sua função não foi informar nem debater, mas legitimar o relato do controle estatal e apontar culpados externos — Estados Unidos, as sanções, o FMI e os meios de comunicação independentes — enquanto o peso cubano se desvaloriza e o governo carece de um plano crível para reverter isso.
O regime promete “recuperar o mercado” sem divisas, sem transparência e sem confiança. E nessa contradição — a de um Estado que não produz, não paga e não deixa que mais ninguém o faça — se resume a essência da crise cubana: uma economia sustentada por discursos, não por fatos.
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