"Isto vai passar, vai ser uma história para contar": especialista do IPK minimiza a epidemia de chikungunya em Cuba



Com mais de 31.000 casos suspeitos e complicações graves, o sistema de saúde enfrenta desafios críticos.

Dr. C. Osvaldo Castro Peraza e pacientes em Cuba.Foto © Collage/Redes Sociais

Em plena crise epidemiológica e com os hospitais sobrecarregados, o Dr. C. Osvaldo Castro Peraza, especialista do Instituto de Medicina Tropical Pedro Kourí (IPK), afirmou na Mesa Redonda que a epidemia de chikungunya “vai passar” e que em breve será “história para contar”.

A frase, pronunciada enquanto milhares de cubanos continuam acamados em suas casas, gerou descontentamento entre aqueles que enfrentam a emergência sem medicamentos, sem informações claras e sem recursos para lidar com a situação.

A declaração contrasta com os dados que o próprio Ministério da Saúde Pública (MINSAP) reconheceu. Segundo o doutor Francisco Durán, Cuba acumula mais de 31.000 casos suspeitos, 95 pacientes em cuidados intensivos e um peso especialmente duro sobre a infância: 63 menores de 18 anos estão em estado grave, e pelo menos 34 crianças permanecem em estado grave ou crítico em salas de terapia intensiva.

Durante sua intervenção, Castro Peraza admitiu que a magnitude do surto em Cuba é “importante” e comparável à de países como Brasil e Colômbia, onde a doença “varreu populações inteiras”.

Explicou que a população cubana era completamente "virgem" em relação ao vírus e que, ao contrário do dengue, o chikungunya provoca sintomas em quase todos os infectados.

Ainda assim, pediu aos cubanos que "mantenham a calma" e assegurou que em três meses "a maioria vai melhorar". "Vamos ter um fim de ano", afirmou, insistindo que "isso vai ser uma história para contar".

Para aqueles que não conseguem se levantar da dor, ou para pais que vigiam uma criança na terapia intensiva, a mensagem parece desconectada da realidade.

Dor invalidante, famílias prostradas e risco real de morte

O próprio especialista reconheceu que os primeiros dias da doença são incapacitantes. “O doente com chikungunya está praticamente prostrado”, disse, ressaltando que alguns não conseguem nem cozinhar nem realizar atividades básicas. Quando toda a família adoece, acrescentou, “o problema é sério”.

Castro Peraza também descreveu complicações graves, como meningoencefalite, miocardite, arritmias, insuficiência de órgãos, hemorragias severas e lesões cutâneas semelhantes a queimaduras. Os mais vulneráveis, crianças pequenas e idosos, são precisamente aqueles que hoje ocupam as terapias intensivas.

Um sistema sem recursos e uma população que evita os hospitais

Tanto Castro Peraza quanto Durán concordaram em um ponto chave: muitos cubanos doentes não recorrem ao sistema de saúde. O motivo, no entanto, não foi abordado com transparência. Hospitais sem insumos, filas intermináveis, falta de analgésicos e desconfiança acumulada levam milhares de pessoas a se automedicarem em casa, colocando até mesmo suas vidas em risco.

Durán reconheceu que dezenas de brigadas de fumigação não estão funcionando devido à falta de pessoal ou equipamentos e que os números oficiais “nem sempre refletem a realidade”.

Enquanto o MINSAP pede calma, a epidemia avança. E para milhares de cubanos que hoje vivem entre dor, medo e silêncio institucional, a frase do especialista do IPK não tranquiliza: de fato, confirma que, mais uma vez, o povo carrega sozinho a pior parte.

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