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Um cubano que combate como mercenário nas fileiras da Rússia na guerra contra a Ucrânia lançou uma mensagem desesperada a seus compatriotas para que não sigam seu caminho nem viagem para aquele país atraídos por promessas econômicas.
Em um vídeo divulgado pela Telemundo 51, o jovem, um dos quatro cubanos capturados com vida recentemente, afirma que foi obrigado a assinar um contrato para ir para a linha de frente, denuncia que não recebe pagamento, que não lhe permitem se comunicar com sua família e classifica a Rússia como “uma fraude de governo”.
Em seu testemunho, dirigido “a todos os cubanos que não têm a possibilidade de ter uma boa posição em Cuba e que escolhem sair de Cuba para a Rússia”, o mercenário que permanece preso na Ucrânia descreve a viagem como um erro que não deseja que outros repitam.
“Quero contar que a Rússia é uma fraude de governo. Todo mundo pensa que a Rússia é um grande país onde você pode prosperar, mas não é assim”, afirma, desconstruindo a ideia de que alistar-se no exército russo é um caminho rápido para melhorar a situação econômica.
Relata que chegou à Rússia e que lá foi detido pela polícia, que o obrigou a assinar um contrato para ir à guerra.
“Em meu caso, fui detido pela polícia e me obrigaram a assinar um contrato para ir para a guerra e aqui estou”, explica.
Desde o front, assegura que os recrutas não recebem o dinheiro prometido, que as autoridades impedem a comunicação com suas famílias e que os enviam para o combate sem conhecimento ou preparação militar. “Por favor, não vão para a Rússia, latinos”, implora.
O combatente insiste várias vezes em alertar outros jovens da Ilha e da região: “A Rússia é um mau país para viver e progredir. Não vão para a guerra com a Ucrânia, não assinem nenhum contrato porque não vale a pena.”
En sua mensagem mistura o arrependimento com uma invocação religiosa: “Peço perdão a Deus por estar neste lugar mas também agradeço por estar ao meu lado”, diz, revelando o medo constante de morrer na linha de frente.
Sua denúncia ocorre em um contexto no qual a Ucrânia começou a identificar cadáveres de cubanos caídos lutando ao lado russo.
As autoridades ucranianas conseguiram identificar os corpos de 39 cubanos falecidos e asseguram que estão dispostas a continuar trabalhando para determinar a identidade de mais compatriotas e notificar suas famílias “o que aconteceu com esses homens”, conforme explicou o deputado Maryan Zablotskiy, presidente do Comitê Pro-Cuba Livre do Parlamento ucraniano, em uma coletiva de imprensa em Miami.
Zablotskiy detalhou que, além desses 39 identificados, há “centenas de cubanos mortos” cuja identidade ainda não foi possível determinar.
Indicou que A Ucrânia mantém quatro prisioneiros cubanos, aos quais assegura tratar de forma humana, e propôs duas possíveis vias para resolver sua situação: trocá-los por prisioneiros ucranianos nas mãos da Rússia ou considerar a sua libertação por razões humanitárias, caso o governo cubano, em paralelo, liberte um grupo de presos políticos na Ilha.
O deputado também destacou que, desde o início da invasão, a Rússia não solicitou, nas trocas, combatentes estrangeiros, apenas cidadãos russos, o que deixa os mercenários de outros países em uma situação de maior vulnerabilidade. Segundo seus dados, o contingente estrangeiro mais numeroso nas fileiras russas é o cubano, de acordo com relatórios de sua chanceleria.
Durante a conferência, organizada pela Assembleia da Resistência Cubana e pelo Diretório Democrático Cubano, Zablotskiy apresentou uma lista compartilhada com o meio Cubanet que lista 1.028 cubanos recrutados pela Rússia, entre eles os 39 falecidos, embora em sua intervenção tenha mencionado um total de 41 mortos.
O documento detalha que apenas três cubanos morreram em 2023, enquanto 36 faleceram em 2024, com idades entre 23 e 58 anos, o que ilustra o perfil majoritariamente jovem dos recrutas.
As revelações do legislador ucraniano estão inseridas em estimativas mais amplas de autoridades ucranianas e fontes do exílio, que calculam que até 25.000 cidadãos cubanos poderiam ter sido recrutados pela Rússia para lutar na invasão, um número que dimensiona a magnitude do fenômeno.
O principal incentivo é econômico: de acordo com a revista Forbes, a Rússia oferece salários em torno de 2.000 dólares mensais, uma quantia exorbitante se comparada aos 20 dólares que um trabalhador na Ilha ganha, em média.
No entanto, por trás do atrativo salarial esconde-se uma trama de enganos e exploração.
Se têm documentado ofertas falsas de emprego civil na Rússia que, uma vez no país, terminam na assinatura de contratos militares e envio para a linha de frente sem preparação ou informações claras.
Muitos assinaram documentos em russo sem tradução oficial, o que os deixou em situação de indefesa legal.
A Inteligência de Defesa da Ucrânia (HUR) interpreta o uso de combatentes estrangeiros como uma estratégia de baixo custo político para o Kremlin: se morrerem recrutas de outros países, não há benefícios sociais a pagar nem pressão de familiares russos descontentes com o número de baixas.
Nesse cenário, o vídeo do mercenário cubano que implora para não ir à Rússia nem assinar contratos para combater na Ucrânia se junta aos dados que emergem de Kiev e do exílio: centenas de cubanos mortos, milhares recrutados sob promessas duvidosas e famílias na Ilha que não sabem se seus filhos estão vivos ou mortos.
Sua mensagem, "não vale a pena", resume o balanço que faz das trincheiras de uma guerra à qual, segundo seu próprio relato, chegou enganado e forçado, e da qual hoje só espera sair com vida.
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