Exespía René González pede julgamento público para Alejandro Gil enquanto crescem dúvidas sobre a justiça do regime cubano

A ausência de informações verificáveis, o sigilo do processo e a repentina criminalização de um alto funcionário que durante anos foi considerado “um dos quadros mais leais” de Miguel Díaz-Canel alimentam a percepção de que o julgamento é, na verdade, um acerto de contas dentro do poder.

Alejandro Gil Fernández e René GonzálezFoto © Cubadebate - Facebook / René González

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Recentes declarações do ex-espião cubano René González, membro da conhecida Rede Avispa, reacenderam o debate em torno do processo judicial contra o ex-ministro da Economia Alejandro Gil Fernández, que atualmente está sob investigação por crimes que incluem espionagem, desvio de verba e lavagem de ativos.

Em um extenso post publicado em redes sociais, González pediu que o julgamento seja “público, aberto e transparente”, uma exigência que, vinda de uma figura tão emblemática do sistema de inteligência cubano, evidencia as fissuras internas do regime e a crise de credibilidade de seu aparato judicial.

Captura de tela Facebook / René González

González, um dos cinco espiões condenados nos Estados Unidos em 1998 por infiltrar organizações do exílio, ainda conserva um papel simbólico dentro do oficialismo cubano. Sua voz, cuidadosamente dosada, geralmente aparece quando o poder precisa dar a aparência de um debate interno ou lançar mensagens direcionadas aos setores críticos do próprio sistema.

Desta vez, sua intervenção ocorre em meio a um clima de desconfiança generalizada em relação à Procuradoria Geral e ao sistema judiciário, que mantém sob total hermetismo os detalhes do processo contra Gil Fernández.

O ex-ministro foi destituído em fevereiro de 2024 e, poucos meses depois, a Procuradoria confirmou a abertura de um processo por “graves irregularidades”. Desde então, o regime tem conduzido uma intensa campanha midiática, exibindo o caso como prova de sua suposta luta contra a corrupção.

No entanto, a ausência de informações verificáveis, o secretismo do processo e a repentina criminalização de um alto funcionário que durante anos foi considerado “um dos quadros mais leais” de Miguel Díaz-Canel, alimentam a percepção de que o julgamento é, na verdade, uma disputa de contas dentro do poder.

A intervenção de González, embora revestida de prudência institucional, introduz um elemento incômodo para o regime. Ao lembrar a “presunção de inocência” e exigir um processo transparente, o ex-espião sugere a falta de garantias processuais em Cuba.

Seu texto menciona, inclusive, que “não estamos em condições de pedir às pessoas que acreditem pela fé”, uma frase que, sem romper com a ortodoxia, aponta para o descrédito absoluto das instituições.

Pero González se preocupa em ir além: na mesma publicação, ele chama para não "nos dispararmos uns aos outros dentro da mesma trincheira", lembrando que sua lealdade ao sistema permanece intacta.

Essa dualidade é característica do discurso que o regime permite a certos porta-vozes. Nos últimos anos, figuras como o próprio González ou o trovador Israel Rojas, de Buena Fe, introduziram no debate público expressões tomadas da linguagem oposicionista — como o “bloqueio interno” —, para dar uma aparência de autocrítica controlada.

Na verdade, trata-se de uma estratégia de comunicação concebida pela contrainteligência cubana: canalizar o descontentamento social dentro de limites seguros, simular pluralidade e evitar que as críticas se tornem questionamentos ao núcleo do poder.

Um sistema judicial a serviço do controle político

O caso de Gil Fernández ilustra com crueza a natureza do sistema judicial cubano. Em Cuba, não existe independência de poderes: o Ministério Público, os tribunais e a Segurança do Estado respondem a uma mesma estrutura de comando político.

As causas judiciais de alto perfil costumam ser operações de controle, destinadas a disciplinar os quadros médios, limpar a imagem do governo ou encobrir escândalos que envolvem figuras de maior destaque no poder.

O secretismo que envolve esse processo reproduz um padrão histórico. Em 1989, as célebres Causas 1 e 2 —que culminaram com a execução do general Arnaldo Ochoa e de outros militares— serviram para reafirmar a autoridade de Fidel Castro após as suspeitas de corrupção e tráfico de drogas nas Forças Armadas.

Hoje, o expediente de Gil Fernández cumpre um papel semelhante: projetar uma imagem de rigor institucional em meio a uma crise econômica devastadora e um crescente descontentamento popular.

Enquanto a família de Gil insiste na inocência do ex-ministro e exige um julgamento aberto, a propaganda oficial se empenha em apresentá-lo como um símbolo da corrupção interna. Sem provas públicas ou testemunhas conhecidas, o regime pretende que o povo acredite por decreto, repetindo o velho roteiro dos processos exemplares.

Nesse contexto, as palavras de René González, embora calculadas, confirmam que mesmo dentro da trincheira oficialista há consciência do desgaste e do perigo que implica continuar ocultando a podridão do sistema.

En última instancia, seu chamado à “transparência” não busca desmontar o regime, mas salvá-lo de si mesmo. Mas o fato de que um ex-espião da Rede Avispa seja obrigado a reivindicar publicamente garantias processuais já é um sinal de até que ponto a maquinaria judicial do castrismo perdeu toda a credibilidade, mesmo entre os seus.

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