Bruno Rodríguez critica o mercado informal de divisas: "É um programa integral de desestabilização"

Segundo o funcionário, trata-se de uma estratégia deliberada de “desestabilização”.

Dólares, euros e moeda nacional (i) e Bruno Rodríguez (d)Foto © Collage CiberCuba - X/Bruno Rodríguez

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O chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, lançou uma forte acusação contra o mercado informal de divisas, ao qual atribui uma campanha articulada a partir dos Estados Unidos com o objetivo de provocar uma crise econômica em Cuba.

Segundo o funcionário, trata-se de uma estratégia deliberada de “desestabilização”, que recorre à especulação cambial, à manipulação psicológica e ao financiamento ilícito por meio de recursos federais americanos.

A denúncia, publicada neste sábado em sua conta oficial na rede social X, gerou uma onda de reações, que reavivou o debate sobre as causas da inflação e a depreciação do peso cubano.

“O governo dos EUA organiza, financia e executa diretamente um programa abrangente de desestabilização, como parte de sua guerra econômica contra Cuba”, assegurou Rodríguez em uma mensagem de tom grave.

Según sua versão, a operação envolve o uso de “operadores de origem cubana radicados em território estadounidense e outros países”, o que implica uma rede internacional com um objetivo muito concreto: impactar diretamente no bolso do cidadão cubano.

Um ataque que visa a moeda e a estabilidade social

O chanceler cubano destacou uma das ferramentas mais sensíveis dessa suposta ofensiva: a taxa de câmbio.

Segundo ele, “sua missão é deprimir o nível de renda da população por meio da manipulação especulativa da taxa de câmbio da moeda”.

A consequência direta dessa manipulação - afirma - é “o aumento dos preços, a propagação em redes de mensagens intimidatórias e alarmistas, e a alteração, assim, do comportamento natural do mercado”.

Nesse sentido, Rodríguez sugere que por trás da inflação, da alta descontrolada do dólar e da perda de poder aquisitivo do peso cubano, não existem apenas causas estruturais internas, mas uma ação concertada para amplificar o caos econômico.

“O efeito é um dano severo à renda de cada cubano e obstáculos adicionais aos programas de estabilização macroeconômica”, advertiu, apontando que esse tipo de sabotagem cambial estaria interferindo diretamente nos planos oficiais de recuperação econômica.

Fondos do Congresso dos Estados Unidos, lavagem de dinheiro e redes sociais

Um dos apontamentos mais delicados de sua declaração é aquele que vincula diretamente instituições do governo dos Estados Unidos ao financiamento dessa suposta operação.

Rodríguez afirmou que está ocorrendo “a lavagem de dinheiro do orçamento federal dos Estados Unidos, utilizando fundos atribuídos pelo Congresso dos Estados Unidos”, e que esses recursos são canalizados através do Departamento de Estado, contratantes e ONGs.

Este componente financeiro, segundo o chanceler, estaria destinado a financiar plataformas digitais, campanhas de manipulação psicológica e estruturas que influenciem a economia informal, especialmente no mercado cambial alternativo.

Embora o ministro das Relações Exteriores cubano não tenha mencionado nomes específicos, é evidente que o discurso volta a apontar contra meios digitais independentes como elTOQUE, que foi apontado pelo governo como um ator ativo na “fixação especulativa” da taxa de câmbio em Cuba.

A resposta da população à denúncia do chanceler não tardou a se fazer sentir. Numerosos usuários no X replicaram com críticas ao governo cubano, questionando as verdadeiras causas da inflação, a desvalorização do peso cubano e o crescimento do mercado informal.

“O dólar não tem teto porque o peso não tem valor, a inflação é um fenômeno monetário. Deixem de usar a maquininha de imprimir pesos”, afirmou um comentarista

“Quando um governo abre lojas em dólares, mas paga em pesos, sem uma produção real que sustente a moeda, o resultado é inevitável: inflação, desvalorização e desigualdade. Não é necessário um plano de desestabilização para que isso aconteça. Falta boa gestão e responsabilidade interna", apontou outro.

“Os que vendem em dólares e pagam em pesos são vocês…”, lembrou um terceiro cubano.

Entre a negação e a zombaria: Reação polarizada

Paralelamente às críticas econômicas, proliferaram os comentários sarcásticos e as zombarias em relação ao discurso oficial.

“Mais um dia falando mal dos Estados Unidos"; “Vocês realmente estão fumando algo bom"; “Agora também a taxa de câmbio é culpa dos outros, nunca é culpa da péssima gestão econômica de vocês. O que vocês fazem é nojento";

Alguns questionaram a lógica da afirmação oficial com comparações internacionais: “E por que Taiwan não está como Cuba? Já que a China impõe um bloqueio econômico muito mais forte.”

Frente à avalanche de questionamentos, várias contas saíram em defesa da postura oficial, utilizando etiquetas como #TumbaOBloqueio e atacando elTOQUE. 

Narrativa de resistência ou distração?

Para muitos cubanos, o discurso oficial sobre uma suposta manipulação externa da taxa de câmbio é visto como uma cortina de fumaça para desviar a atenção do colapso econômico interno.

“Tanta muela para dizer: somos tão ineptos e corruptos como o Gil, mas a culpa da inflação é do elTOQUE"; “Invistam na agricultura, não desvie tanto dinheiro para os seus bolsos, ouçam o povo… vocês nem sabem o preço de uma banana no mercado", sentenciaram outros dois comentadores.

A mensagem do chanceler Bruno Rodríguez não apenas acendeu o debate, mas refletiu com crueza a crescente distância entre o discurso oficial e a percepção de boa parte da população.

Enquanto o governo insiste que os problemas do país são provocados do exterior, um amplo setor da população aponta para as políticas internas, a falta de reformas estruturais, a dualidade monetária não resolvida e a perda de poder aquisitivo como causas profundas da crise.

Nesse contexto, responsabilizar o mercado informal de divisas - sem admitir os erros de design econômico, o desestímulo produtivo e a desigualdade sistêmica - parece, para muitos, uma tentativa de escapar das responsabilidades em vez de enfrentá-las com soluções reais.

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Equipe Editorial da CiberCuba

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