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A organização Bem-Estar Animal Cuba (BAC-Habana) lançou neste sábado um apelo nacional urgente para exigir prova de vida do cachorro abandonado durante as evacuações em Granma, uma história que desencadeou uma onda de indignação em todo o país.
“Este não é apenas um post. É o grito de um cachorrinho que ficou sozinho, olhando para o céu por onde seu amigo foi.”
BAC, em coordenação com voluntários na província, pediu apoio da população para localizar o animal, oferecendo-se para cobrir todos os gastos de seu resgate, atendimento veterinário e transporte.
Nas suas redes sociais, denunciaram com contundência a cobertura midiática oficial:
“Por que os meios oficiais fazem um texto poético romanticizando o abandono animal em Bayamo?”
E foram além: iniciaram uma campanha para inundar as redes sociais com a imagem do cachorro uivando, já convertido em símbolo da lealdade traída e da dor silenciada.
Pediram aos cubanos que atualizem suas fotos de perfil com seu rosto:
“Que o Facebook, Instagram e todas as redes se encham de seu rosto e seu clamor. Que cada notificação, cada comentário e cada história tragam a mesma mensagem: ¡Exigimos fé de vida do cachorrinho de Bayamo!”.
A chamada do BAC não busca apenas salvar um animal, mas denunciar uma atitude institucional que, em meio a uma catástrofe, apresentou como poesia o que para milhares é um crime: o abandono de um ser vivo durante uma emergência.
O início da história
Todo começou com uma série de imagens publicadas pela CMKX Radio Bayamo, meio oficialista de Granma.
Sob o título "A dor da partida", mostraram um cachorro solitário entre a lama, observando com o olhar fixo o helicóptero militar que se afastava levando seu dono.
A cena ocorreu durante as evacuações provocadas pela inundação do Rio Cauto, que devastou comunidades na região e deixou milhares de pessoas sem abrigo.
Em meio ao caos, um helicóptero do Exército resgatava uma família, deixando para trás - sem explicação - o seu cachorro.
“Ninguém —dos que estavam ali— sabia seu nome, mas isso não foi necessário.
Vimos levantar o focinho e uivar... uivar com uma mistura de dor e resignação...”
Este fragmento do texto publicado pela emissora, escrito em tom lírico, foi o que incendiou a indignação nas redes. Longe de inspirar ternura, provocou uma reação massiva de rejeição.
Reação viral às imagens
Os comentários não tardaram a se tornar virais. Milhares de cubanos expressaram sua dor, fúria e incompreensão diante da decisão de abandonar o animal e, mais ainda, diante da tentativa de justificar isso com metáforas poéticas. Estas foram algumas das respostas mais compartilhadas:
“E acham que isso é positivo? Sem palavras.”
“Uma crônica sobre o abuso animal. Com fotos incluídas.”
“Deixaram o pobre animal em uma área de inundação. E desejam que isso seja aplaudido?”
“Eu prefiro me afogar a deixar um dos meus bichinhos.”
“Esse cachorro vai comigo aonde eu for. Tenho certeza de que ele não teria deixado seu dono sozinho.”
“É um ato cruel. Não há poesia que justifique o abandono.”
“E o cachorrinho? Queremos saber se o resgataram! O que fizeram não tem perdão!”
As redes sociais, normalmente fragmentadas pela censura e pelo medo, uniram-se desta vez em um só grito.
Incluso fora de Cuba, numerosos cubanos compartilharam mensagens como:
“Se há algo que amo no país onde vivo, é que lá nunca deixariam um cachorro durante uma evacuação.”
“Se abandonares o cachorro... terás pesadelos com acontecimentos que ocorrerão mais tarde.”
A comoção foi tamanha que alcançou o poeta cubano Alexis Díaz-Pimienta, que evocou um de seus versos para denunciar o ocorrido. Através de suas redes sociais, ele citou um trecho de seu poema Eu também podia ser Jacques Daguerre:
“Si abandonas al perro
se irá con él la memoria secreta de la casa...
dormirá tu pasado a la intemperie
y tendrás pesadillas con sucesos que ocurrirán más tarde.”
A citação se tornou uma das mensagens mais compartilhadas do dia. Nela, muitos encontraram não apenas uma crítica ao ato em si, mas uma advertência moral: deixar para trás o mais fiel tem consequências além do que é visível.
Onde está o cachorro de Bayamo?
Enquanto os níveis do Rio Cauto começam a cair lentamente, a pergunta que não para de se repetir é uma só: O que aconteceu com o cachorro de Bayamo?
Ainda está esperando entre a lama e os escombros? Foi finalmente resgatado? Está ferido? Morreu esperando?
BAC-Habana pediu informações urgentes a voluntários, abrigos e protetores independentes em Granma.
Ofereceram recursos e logística para levá-lo a um lugar seguro. Mas até o momento, nem os meios oficiais nem as autoridades deram resposta.
“Não deixemos que sua história termine em abandono”, concluiu o BAC.
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