Díaz-Canel visita as casas-conteiner em Holguín

O projeto de contêineres, apresentado como uma "alternativa ágil e confortável", é divulgado pelo regime como uma demonstração de criatividade e eficiência.

Díaz-Canel visita as casas-conteiner em HolguínFoto © X / Presidência Cuba

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Após a passagem devastadora do furacão Melissa pelo leste cubano, Miguel Díaz-Canel viajou na quinta-feira para Holguín para avaliar os danos e "impulsionar a recuperação", conforme informaram os meios oficiais.

A Presidência de Cuba divulgou imagens do governante visitando a Unidade de Construções Militares de Perdenales, onde estão sendo transformados contêineres marítimos em moradias para os desabrigados.

Captura do Facebook / Ministério da Construção de Cuba

O projeto, apresentado como uma "alternativa ágil e confortável", tem sido divulgado pelo regime como uma demonstração de criatividade e eficiência em meio à crise.

Foto: X / Presidência Cuba

No entanto, esta suposta solução não escapa ao tom triunfalista que o Governo utiliza para camuflar a precariedade generalizada.

Em um país onde centenas de famílias ainda não se recuperaram dos estragos de furacões anteriores, a visita de Díaz-Canel ocorre em meio a uma emergência habitacional sem precedentes, agravada pela falta de materiais, pelos baixos salários e pelo abandono institucional.

Durante sua visita, o mandatário também esteve no Instituto Pré-Universitário Vocacional de Ciências Exatas José Martí, habilitado como centro de evacuação para mais de 300 pessoas dos municípios de Cacocún e Urbano Noris.

Lá, segundo a nota oficial, se interessou pelas condições dos evacuados e recebeu relatórios sobre a "boa alimentação" e a "atendimento de saúde e psicológico" que lhes são oferecidos. A Presidência assegurou que "as famílias disseram se sentir protegidas".

Como é habitual neste tipo de percursos, o governante afirmou levar "uma boa impressão" do trabalho realizado.

No entanto, a cena cuidadosamente descrita pela comunicação oficial contrasta com a realidade denunciada pelos próprios holguineros: milhares de afetados continuam sem ajuda do Estado, sem alimentos, sem abrigo e sem esperança.

As casas contêiner: uma solução improvisada para uma crise crônica

A conversão de contêineres marítimos em habitações se tornou um dos projetos mais defendidos pelo regime cubano nos últimos meses.

Apresentadas como uma opção "eficiente e sustentável", essas estruturas metálicas buscam aliviar o déficit habitacional que o país enfrenta há décadas.

No entanto, mais do que uma inovação arquitetônica, o projeto reflete a profunda incapacidade do Estado em sustentar um sistema de construção que está em ruínas há anos.

Ao contrário de outros países onde as casas contêineres são construídas com isolamento térmico, ventilação adequada, tetos elevados e materiais de proteção, as versões cubanas carecem dessas condições básicas.

As imagens divulgadas pela televisão nacional mostram contêineres empilhados, sem isolamento visível, sem sistemas de climatização e com simples janelas de persiana de alumínio, insuficientes para o calor extremo do leste cubano.

Especialistas e cidadãos alertam que, longe de oferecer conforto, essas "habitações metálicas" podem se tornar armadilhas de calor durante o dia e em espaços impróprios para habitar durante os frequentes apagões noturnos.

Em redes sociais, muitos têm ironizado sobre o projeto, batizando as novas comunidades de "as casas micro-ondas".

O próprio Ministério da Construção reconheceu que a iniciativa é "uma variante temporária" para acelerar a entrega de habitações.

No entanto, em Cuba, o temporário costuma se tornar permanente, e os afetados temem ficar presos em uma solução improvisada que não resolve o problema de fundo.

Um modelo inadequado para um país em ruínas

Em países desenvolvidos, as casas contêiner podem ser uma alternativa ecológica e funcional graças ao investimento privado e ao acesso a materiais especializados.

Em Cuba, por outro lado, as implementações ocorrem em um contexto de colapso econômico, inflação descontrolada e total escassez de recursos básicos, o que torna impossível replicar esses padrões.

As imagens oficiais mostram estruturas sem bases térmicas nem reforços visíveis, o que levanta dúvidas sobre a sua segurança diante de futuras tempestades ou furacões.

Também não há informações sobre os sistemas elétricos e sanitários, em um país onde as quedas de energia são constantes e o fornecimento de água é irregular.

O discurso oficial insiste que se trata de uma "resposta rápida" e uma "demonstração da capacidade do país de superar as dificuldades", mas a realidade é outra: Cuba continua dependendo do voluntarismo político e da propaganda para ocultar o colapso de sua infraestrutura e a ausência de políticas reais de habitação.

Em Holguín, como em muitas outras províncias, os desabrigados do furacão Melissa não enfrentam apenas a perda de suas casas, mas também o peso de um sistema que não consegue -nem parece querer- garantir-lhes uma vida digna.

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