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O estado da Flórida se prepara para pôr fim a quase cinco décadas de vacinação infantil obrigatória, após o anúncio do cirurgião-geral Joseph Ladapo, que com o apoio do governador Ron DeSantis promove a eliminação de todos os mandatos de imunização escolar.
Segundo reportou , Ladapo apresentou seu plano no dia 3 de setembro durante um evento em Tallahassee, onde classificou as exigências de vacinação como “erradas” e “uma forma de escravidão”.
“Quem sou eu, como governo ou como qualquer outra pessoa, para dizer o que você deve colocar em seu corpo?”, expressou diante de uma multidão contrária às vacinas.
A proposta acabaria com a obrigatoriedade de vacinar crianças contra doenças como o sarampo, a poliomielite, a difteria, a coqueluche, a rubéola e a meningite, entre outras.
Embora as vacinas continuem disponíveis para as famílias que as solicitarem, a medida representaria uma mudança histórica na política de saúde do estado.
Vários especialistas e pediatras advertiram que a eliminação dos mandatos poderia provocar o ressurgimento de doenças erradicadas há décadas, como o sarampo e a pólio.
Historiadores da saúde pública lembram que, desde os anos 70, a obrigatoriedade das vacinas foi fundamental para eliminar surtos recorrentes e proteger a população infantil, sublinhou ABC News.
No entanto, na Flórida, a discussão se tornou profundamente política. Médicos e acadêmicos apontaram que as autoridades de saúde locais foram instruídas a não se pronunciar publicamente sobre o tema sem autorização superior, o que gerou um clima de silêncio e autocensura.
“Foi dito a muitos que não falem sem permissão”, denunciou o doutor Doug Barrett, ex-chefe de Pediatria da Universidade da Flórida.
Outros profissionais, como o urologista Neil Manimala, afirmam que muitos pediatras evitam expressar opiniões por medo de represálias ou de perder pacientes em meio ao crescente movimento antivacinas.
"Não querem que os ataquem nas redes sociais ou que percam reputação", explicou.
De acordo com os dados estaduais citados pela ABC News, apenas 89% das crianças do jardim de infância na Flórida estão completamente vacinadas, e o condado de Sarasota apresenta a taxa mais baixa, próxima de 80%. Para prevenir o sarampo, a cobertura deve ultrapassar 95%.
Os especialistas alertam que, se as taxas continuarem a cair, doenças infecciosas graves podem voltar a se espalhar rapidamente.
Um estudo da Universidade de Stanford, citado pela fonte, estimou que uma queda de 10% na vacinação poderia provocar 450.000 casos de sarampo anuais nos Estados Unidos.
O cirurgião geral Ladapo sustenta, no entanto, que a vacinação é uma questão de “liberdade individual” e não um assunto científico.
“É uma questão do que está certo ou errado”, afirmou, garantindo que sua decisão não é guiada por modelos epidemiológicos.
Enquanto isso, pediatras e epidemiologistas temem que a medida tenha efeitos sociais mais amplos: risco para pacientes imunodeprimidos e idosos, interrupções nas escolas e negócios, e possível impacto na indústria turística da Flórida, que recebe mais de 140 milhões de visitantes por ano.
Diferentemente de crises anteriores, como a epidemia de sarampo de 1977 que impulsou leis de vacinação em todo o país, a atual onda de ceticismo pode sinalizar uma mudança profunda.
“Talvez quando houver mortes e doenças graves suficientes, as pessoas reacionem”, alertou Jennifer Takagishi, da Academia Americana de Pediatria na Flórida.
O plano de Ladapo conta com o apoio do governador DeSantis e do bloco republicano na Assembleia Legislativa estadual, que debaterá formalmente a revogação das leis de vacinação escolar no início de 2026.
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