Depois de mais de um mês separados por uma autodeportação forçada, Yisel Miguel Sarduy conseguiu reencontrar-se com seu marido Deivy Alemán Oropesa em Cuba.
Ele o fez ao lado da filha mais nova do casal, uma criança de apenas dois anos, cidadã americana e com uma delicada condição cardíaca que requer uma terceira cirurgia de coração aberto.

O encontro -emotivo e doloroso- refletiu não apenas a devastação emocional de uma família dilacerada pela política migratória, mas também a incerteza que os envolve.
"Foram momentos únicos. Também muito preocupantes."
Em declarações concedidas ao jornalista Javier Díaz, da Univisión, Yisel relatou a complexidade da viagem, a emotividade do reencontro e a dureza de ver seu marido novamente em um país ao qual não queria retornar.
“Foram momentos únicos. Também muito preocupantes pela situação que o país está vivendo. Nós cuidamos muito da menina, eu levei todas as coisas necessárias para sua proteção”, explicou Yisel.
As imagens compartilhadas por ela mesma nas redes sociais mostraram cenas íntimas da família reunida por alguns dias na ilha, incluindo momentos de ternura entre pai e filha, gestos cotidianos que durante semanas lhes haviam sido negados.
"Tem sido um processo bem difícil para ele. Sem palavras."
Embora tenham tentado aproveitar cada minuto, o encontro foi marcado pela dor. O retorno de Deivy a Cuba, após sete anos de vida nos Estados Unidos, foi precipitado e forçado. Em setembro, o cubano decidiu "auto-deportar-se" após receber um ultimato do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE): ou aceitava sua detenção à espera de uma deportação forçada, ou saía voluntariamente do país antes do dia 14 daquele mês.
“É muito difícil, foi muito difícil ver como ele está. Tem sido um processo muito duro para ele. Sem palavras. Estamos realmente sem palavras, apenas rezando por um milagre que nos ajude a que ele possa retornar a este país e possamos cuidar da nossa filha, que é o mais importante para nós”, declarou Yisel, visivelmente afetada.
A estabilidade da menina -tanto emocional quanto médica- é o eixo de todas as preocupações da família.
“A estabilidade e a saúde dela são o fundamental. Na próxima cirurgia, que se espera que seja no próximo ano, ele possa estar aqui conosco a apoiando e estando com ela como esteve nas outras cirurgias”, acrescentou a jovem mãe.
“Estão sendo momentos muito difíceis porque a menina precisa do pai.”
A filha de Deivy foi operada em duas ocasiões devido a uma cardiopatia congênita e ainda necessita de uma terceira intervenção cirúrgica.
Enquanto Yisel cuida sozinha da parte médica e emocional da pequena, Deivy - que nos Estados Unidos trabalhava como motorista de Uber e não tinha antecedentes criminais - enfrenta a precariedade e o desespero em Cuba.
“Estão sendo momentos bem difíceis porque a menina precisa de seu pai”, confessou Yisel.
A separação, além da dor emocional, implica uma ruptura no próprio tecido do lar. Deivy também era o sustento econômico da família e sua ausência deixou um vazio difícil de preencher.
A única luz no caminho foi este breve reencontro, facilitado graças à doação de uma passagem por parte de uma agência de viagens.
“Graças a Deus, tudo correu bem. Estamos de volta, sem nenhum tipo de problemas. Agradeço a todas as pessoas que continuam nos apoiando, que continuam preocupadas, que continuam atentas a cada publicação que eu faço. Muito obrigada, de verdade, em nome do meu esposo e meu”, disse agradecida.
Um processo migratório que ignora fatores humanitários
O caso de Deivy Alemán gerou uma onda de indignação nas redes sociais.
A família apresentou relatórios médicos, cartas de cardiologistas e possui uma petição I-130 aprovada - documento que certifica o vínculo familiar com uma cidadã americana - mas as autoridades migratórias não consideraram nenhum desses fatores como suficientes para interromper a deportação.
A advogada Rosaly Chaviano, que acompanha o caso, explicou que Deivy estava sob supervisão migratória (formulário I-220B) e que, de acordo com as políticas atuais, os fatores humanitários praticamente não estão sendo levados em consideração.
A única alternativa que lhe foi oferecida foi sair voluntariamente ou enfrentar a detenção indefinida em um centro do ICE. A decisão de partir voluntariamente foi dolorosa, mas pensada.
“Eu acho que a melhor opção é sair voluntário. O que mais me preocupa é deixar a menina, a família aqui. Ela está à espera de uma cirurgia e isso é o que mais me dói” - confessou entre lágrimas antes de partir.
Um pedido ainda sem resposta
Embora o pedido de reunificação familiar esteja em andamento, ainda não foi aprovado. Enquanto isso, a família continua separada.
Amigos e conhecidos lançaram uma campanha no Change.org para pedir clemência e visibilidade para o caso, mas o relógio não para. A situação da menina requer uma intervenção nos próximos meses, e o apoio emocional e físico do pai é vital para seu bem-estar.
“Minha esperança é que quando estiver em Cuba, eu possa receber o pedido que minha esposa fez e que me permitam retornar em breve”, disse Deivy antes de embarcar no voo que o tirou dos Estados Unidos com o coração partido.
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