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Por terceiro ano consecutivo, o estado da Flórida lidera a lista nacional de censura literária em escolas públicas, com 2.304 títulos proibidos ou retirados de bibliotecas escolares.
Assim denuncia um relatório da PEN America, uma das principais associações de escritores que defende a liberdade de expressão e a literatura como um direito fundamental.
“Nunca antes na vida de nenhum americano tantos livros foram sistematicamente retirados das bibliotecas escolares de todo o país”, alerta o documento.
“Esse direito -o direito de descobrir- está sendo tirado dos estudantes sob o pretexto de sua ‘proteção’”, acrescenta em outro momento o relatório, que ressalta que as proibições de livros prejudicam os sistemas escolares públicos e restringem a educação.
Embora os números se refiram a proibições em distritos específicos -o que não significa que os livros estejam proibidos em todo o estado- o relatório revela um padrão preocupante que transformou a Flórida em um modelo replicado por outras jurisdições.
A nível nacional, foram registrados 22.810 casos de proibição de livros em 45 estados e 451 distritos escolares públicos desde julho de 2021, no que a PEN America descreve como uma “crise sem precedentes”.
Uma tendência impulsionada por leis estaduais e pressão política
A escalada da censura literária na Flórida não é casual.
Em 2022, o governador Ron DeSantis assinou a lei HB 1467, que restringe o acesso a livros nas salas de aula se contiverem referências sexuais ou a pessoas LGTBIQ+.
Posteriormente, promulgou outras normas como a conhecida “Don’t Say Gay” e a lei “Stop WOKE”, que limitam as discussões sobre orientação sexual, identidade de gênero, racismo e sexismo.
Essas leis geraram um clima de medo entre bibliotecários e educadores, que optam por retirar livros como medida preventiva, mesmo antes de uma revisão formal ser concluída.
Como destaca o relatório: “97% das proibições não se originaram em leis obrigatórias, mas sim no medo de violá-las”.
Livros proibidos na Flórida: clássicos, literatura contemporânea e ciência
A lista de livros proibidos nos distritos escolares da Flórida inclui desde obras consagradas até bestsellers juvenis e textos acadêmicos.
Entre os mais chamativos, proibidos, ainda que seja em um distrito do estado:
-O diário de Ana Frank, versão gráfica de Ari Folman.
-Olhos azuis (The Bluest Eye), de Toni Morrison.
-O conto da aia (The Handmaid’s Tale), de Margaret Atwood.
-Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez.
-A casa dos espíritos, de Isabel Allende (pendente de investigação no condado de Hillsborough).
-El Zorro, de Isabel Allende.
-Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.
-As vantagens de ser invisível (The Perks of Being a Wallflower), de Stephen Chbosky.
-Wicked, de Gregory Maguire.
-Sem Fôlego, de Jennifer Niven.
-Vendida, de Patricia McCormick.
-As de Espadas, de Faridah Àbíké-Íyímídé.
-Do que as Meninas São Feitas, de Elana K. Arnold.
-Uma História de Amor Complicada no Espaço, de Shaun David Hutchinson.
Incluso, livros didáticos de biologia foram retirados por abordarem temas como a mudança climática, a evolução, a COVID-19 e o uso de máscaras.
Um fenômeno nacional que se intensifica
Durante o ciclo escolar 2024-2025, foram proibidos 6.870 títulos em 87 distritos escolares de 23 estados do país, afetando 2.308 autores, 243 ilustradores e 38 tradutores.
O livro mais proibido do último ano foi Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) de Anthony Burgess, banido em 23 distritos do país.
O que é uma proibição de livros escolares?
A PEN America define a proibição escolar como qualquer ação que, devido ao conteúdo do livro e em resposta a pressões externas (pais, autoridades, leis), limita ou elimina sua disponibilidade para os estudantes, seja em bibliotecas escolares, salas de aula ou como parte do currículo.
As formas de censura detectadas vão desde proibições totais, restrições por nível escolar ou a exigência de permissões dos pais.
Por trás do fenômeno: medo, controle ideológico e erosão de direitos
“Este ataque à liberdade de leitura dos estudantes é um terreno escorregadio... Hoje, essa escalada já não é hipotética”, alerta o relatório.
Segundo a PEN America, a campanha de censura é impulsionada por grupos conservadores que exploram os medos dos pais para impor sua ideologia na educação pública.
As decisões, muitas vezes, não vêm de processos regulares de revisão, mas de reações a denúncias isoladas ou listas de títulos distribuídas por redes sociais.
Somente 4% dos casos entre 2021 e 2022 seguiram os procedimentos recomendados de revisão.
Esta censura se tornou “parte esperada da rotina educativa” e, segundo a PEN, “proibir livros se normalizou, empobrecendo a experiência educativa e afetando desproporcionalmente grupos historicamente marginalizados”.
Uma ameaça generalizada: Além dos livros
A censura também alcançou feiras do livro, doações literárias e até manuais sobre liberdade de expressão.
Livros didáticos rejeitados, currículos censurados por incluir Cristóvão Colombo como figura polêmica ou referências ao movimento Black Lives Matter são apenas alguns exemplos.
De acordo com a PEN America, os ataques vão além do conteúdo explícito: buscam "destruir climas educativos abertos, eliminar narrativas críticas e apagar representações de comunidades diversas".
Apesar do avanço da censura, o relatório destaca a mobilização de pais, autores, estudantes, bibliotecários e organizações como a ACLU, Let Utah Read, EveryLibrary ou Fight for the First, que lutam para reverter as proibições.
“Onde há proibições diárias, há resistência diária”, afirma a PEN America, que documentou ações de defesa em 70 dos 87 distritos escolares com censura.
O caso da Flórida é hoje o mais paradigmático de uma ofensiva ideológica que se estende por todo os Estados Unidos.
O que começou como uma campanha para “proteger as crianças”, terminou por vetar histórias essenciais para entender o mundo, a diversidade e a experiência humana.
PEN America resume isso de forma contundente: “Não se trata da censura de um livro. Trata-se do controle total da história”.
Defender a liberdade de ler - nas escolas, bibliotecas e lares - é também defender a democracia, os direitos civis e o acesso equitativo à educação.
Perguntas frequentes sobre a censura de livros na Flórida
Por que a Flórida lidera a proibição de livros nas escolas?
Florida lidera a proibição de livros nas escolas devido a uma série de leis estaduais e pressões políticas que restringem o acesso a certos conteúdos, especialmente aqueles relacionados à orientação sexual, identidade de gênero e temas raciais. Essas medidas foram impulsionadas pelo governador Ron DeSantis como parte de uma agenda conservadora mais ampla.
Quais são alguns dos livros proibidos na Flórida?
Entre os livros proibidos na Flórida encontram-se clássicos como "O diário de Anne Frank" de Ari Folman, "Olhos azuis" de Toni Morrison e "Cem anos de solidão" de Gabriel García Márquez. Além disso, foram retirados livros didáticos de biologia por abordarem temas como as mudanças climáticas e a evolução.
Como a proibição de livros afeta os estudantes na Flórida?
A proibição de livros restringe a educação e empobrece a experiência educativa dos estudantes ao limitar seu acesso a diferentes perspectivas e narrativas. Isso afeta desproporcionalmente grupos historicamente marginalizados e reduz a capacidade dos estudantes de entender a diversidade e a experiência humana.
Qual é a postura da PEN America sobre a censura de livros nos EUA?
A PEN America considera que a censura de livros é uma crise sem precedentes nos EUA. E adverte que essa tendência é um ataque à liberdade de expressão e ao direito dos estudantes de descobrir. A organização critica que a censura está sendo normalizada e empobrece a educação ao eliminar narrativas críticas e representações de comunidades diversas.
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