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A aplicação MiTurno, apresentada como uma solução para organizar a compra de gás liquefeito de petróleo (GLP) na província de Cienfuegos, tem provocado queixas em massa por irregularidades, favoritismos e falhas técnicas que afetam diretamente a população, já prejudicada por cortes de energia e carências crônicas.
Desde antes do seu anúncio, MiTurno gerou incerteza e desconfiança. As autoridades locais prometeram que o aplicativo no Transfermóvil eliminaria as listas físicas e garantiria maior transparência na distribuição do GLP, mas a experiência resultou no contrário, revelou uma reportagem do jornal oficial 5 de Setembro.
Usuarios denunciam que os turnos não respeitam a ordem de compra, o que permite que clientes de junho acessem antes que os de maio.
Esta inconsistência no algoritmo, segundo testemunhos como o de Osvaldo Velázquez Ruiz, transformou o sistema digital em um caos maior do que o esquema anterior.
A indignação cresceu quando pessoas com data de compra em agosto viram números de setembro sendo priorizados, o que alimentou suspeitas de favoritismo.
Além disso, a empresa impede o reembolso dos 10 pesos dos turnos cancelados, o que reforça a frustração da população.
Aos problemas técnicos somam-se condições externas: apagões de até 24 horas, falta de conectividade móvel e atrasos nas mensagens de confirmação enviadas pelo Transfermóvil.
O resultado é um processo colapsado que deixa milhares de cienfuegueros sem alternativas para cozinhar.
Longe de erradicar o negócio ilícito, a medida convive com o mercado negro, onde as balitas atingem preços entre 30.000 e 50.000 pesos.
Sem clareza sobre o destino do gás que não é vendido devido a "erros" na escala, persistem as dúvidas sobre possíveis desvios.
Outro fator crítico é o envelhecimento populacional. Muitas pessoas idosas não têm acesso aos meios tecnológicos para usar o MiTurno, o que as deixa excluídas de um serviço básico. A obrigatoriedade de usar o aplicativo, em um país com profundas limitações tecnológicas, foi rejeitada por grande parte da população.
O que em teoria buscava ordem e transparência terminou gerando frustração, desigualdade e mais obstáculos para conseguir um recurso vital.
Diante desse panorama, crescem as vozes que pedem para repensar a medida e buscar alternativas mais justas e realistas para garantir um direito elementar: cozinhar.
Dias atrás, a empresa estatal Cupet em Cienfuegos anunciou que a compra de gás liquefeito estará restrita apenas aos clientes com turnos atribuídos através do aplicativo Meu Turno com data anterior a 30 de junho de 2025.
Esta restrição não fez mais do que confirmar a dura realidade de que a distribuição de combustível na ilha é um calvário constante, repleto de cronogramas e esperas intermináveis, deixando os clientes com datas posteriores no limbo e sem certeza de quando poderão se reabastecer.
Para adicionar mais confusão, foi esclarecido que somente a partir de 8 de setembro puderam começar a solicitar seu turno aqueles que têm direito a comprar entre 1 e 15 de julho de 2025, enquanto aqueles que aparecem com data posterior a essa quinzena ainda não podem gerenciar nada.
Uma demonstração a mais de como o acesso a um recurso essencial fica preso em um labirinto burocrático sem certezas.
Um exemplo disso é o caso de uma pessoa idosa com asma severa, Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), alergias e limitações físicas, residente em Matanzas, a quem foi negado o acesso ao GLP porque, segundo a empresa estatal, não atende aos critérios de “prioridade”.
O que acontece em Cienfuegos não é um fato isolado, mas sim parte de uma crise nacional. Há meses e até anos, Cuba enfrenta interrupções periódicas na distribuição de gás doméstico, dependendo quase exclusivamente da chegada de barcos e da capacidade do governo de realizar os pagamentos em dia.
Em agosto, a Empresa de Gás Liquefeito reabriu a distribuição em Havana, Artemisa e Mayabeque após semanas de paralisação, mas o serviço ficou vinculado à chegada pontual de um navio ao porto da refinaria Ñico López.
Em Santiago de Cuba, o panorama é ainda mais dramático, pois a Cupet suspendeu a venda apenas 12 dias após tê-la reiniciado no final de agosto, após esgotar o estoque.
Milhares de famílias ficaram sem seu principal combustível em meio a apagões e sem alternativas além da lenha ou do querosene, opções nocivas e perigosas para a saúde.
Em Villa Clara, a empresa reorganizou a venda com um cronograma que exclui aqueles que já compraram três vezes no ano. A suposta “equidade” se traduz em novas restrições para lares que devem se adaptar a um sistema rígido e a estoques que em muitos pontos não superam 200 cilindros diários.
Cada vez que se esgotam as reservas, a população fica exposta a longas esperas e à incerteza sobre quando poderá voltar a cozinhar com gás.
O governo atribui essas limitações à falta de financiamento e às sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, que classifica como parte de um “bloqueio multidimensional”.
Por enquanto, não se vislumbra uma saída que permita superar a dependência extrema de importações pontuais para garantir um serviço básico como o GLP.
Enquanto os relatórios oficiais refletem uma situação crítica em termos técnicos, nas ruas de Cuba a percepção dos cidadãos vai além dos números: a desesperança se instala como um sentimento generalizado diante do agravamento das condições de vida.
Perguntas frequentes sobre a crise do gás liquefeito em Cienfuegos
Qual é o principal problema com o aplicativo MiTurno em Cienfuegos?
O aplicativo MiTurno gerou caos e desconfiança devido a irregularidades na ordem dos atendimentos, favoritismos e falhas técnicas que impedem uma distribuição justa do gás liquefeito. Apesar de ter sido apresentado como uma solução para melhorar a transparência na distribuição do GLP, resultou em mais problemas para a população.
Por que os problemas de distribuição de gás são tão graves em Cuba?
A crise do gás em Cuba é parte de um problema nacional que inclui a falta de financiamento, sanções econômicas e uma dependência extrema de importações pontuais para o fornecimento de gás liquefeito de petróleo. Essas dificuldades se refletem em uma distribuição irregular e na falta de alternativas viáveis para a população.
Como a escassez de gás liquefeito afeta a população de Cienfuegos?
A escassez de gás liquefeito deixa milhares de cienfuegueros sem alternativas para cozinhar, em um contexto de apagões e condições de vida precárias. A situação se agrava com a presença de um mercado negro onde os preços são exorbitantes, e uma aplicação que não resolve o acesso equitativo ao recurso.
Quais são as alternativas para as pessoas idosas sem acesso à tecnologia para obter gás liquefeito?
As pessoas idosas em Cuba enfrentam uma exclusão tecnológica que as deixa sem acesso ao gás liquefeito devido à obrigatoriedade de usar aplicativos móveis como MiTurno. Isso gerou uma rejeição generalizada, já que muitas dessas pessoas não possuem os meios tecnológicos necessários para gerenciar seus atendimentos.
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