Avança o povoado construído com contêineres para os afetados pelo furacão Óscar em Guantánamo

O governo cubano está construindo habitações temporárias com contêineres reciclados em Guantánamo para as pessoas afetadas pelo furacão Óscar. A falta de isolamento térmico e a lentidão nas obras geram preocupação.

Povoado de contêineres em San Antonio del Sur, GuantánamoFoto © Facebook Abraham Gamboa Fontanal

O governo cubano promove a construção de habitações improvisadas, feitas com contêineres metálicos, na comunidade de Buena Vista, em San Antonio del Sur, Guantánamo.

Estas casas de ferro, no clima cubano, geram desconfiança e preocupação, pois podem se transformar em um verdadeiro forno. Elas foram projetadas para abrigar as famílias afetadas pelo furacão Óscar, que atingiu o leste de Cuba em outubro de 2024 e prejudicou mais de 13 mil moradias.

Facebook Abraham Gamboa Fontanal

Este 22 de setembro, o General de Divisão Ramón Pardo Guerra, Chefe do Estado Maior Nacional da Defesa Civil, percorreu a área junto a autoridades locais, em uma inspeção que serviu para mostrar os avanços no polêmico plano de habitação que o regime assegura serem "temporários".

Venceremos informou no início de setembro que no local serão instalados 23 contêineres reciclados de um parque fotovoltaico em construção, como parte de um projeto que prevê um total de 60 unidades. As estruturas são adaptadas como casas com duas quartos, banheiro, cozinha e sala.

Contêineres para moradia / Facebook Abraham Gamboa Fontanal

O governo disse que deveriam terminar dois módulos por dia, mas as imagens indicam que a evolução do projeto está mais lenta do que o previsto e talvez essa seja a razão da visita do General.

A adaptação dos contêineres está a cargo de várias empresas estatais sob a coordenação da unidade empresarial Génedis, em conjunto com Móveis Império, Valbo, Cedai, a Direção Provincial da Habitação e o Ministério da Construção (Micons).

Yoel Pérez García, primeiro secretário do Partido Comunista em Guantánamo, chamou a acelerar as obras e “aproveitar ao máximo” a estrutura metálica dos módulos, protegidos contra a corrosão com camadas de tinta.

Solução de emergência em meio a uma crise estrutural

Apesar de a reutilização de contêineres como moradias não ser inédita a nível mundial, em países desenvolvidos essa prática costuma estar acompanhada de padrões de habitabilidade, permissões urbanísticas e sistemas de isolamento térmico que não se observam no caso cubano.

Em um clima como o de Cuba, onde as temperaturas médias superam os 30 graus e podem atingir 35 ou mais, viver dentro de uma caixa metálica sem isolamento adequado representa um sério risco para a saúde, especialmente para crianças e idosos. A ausência de ventilação eficiente pode transformar essas estruturas em fornos inabitáveis.

As soluções antitérmicas e os tetos elevados podem mitigar parte do problema, mas requerem investimentos que o Estado não parece estar em condições de assumir, dada a grave crise de recursos.

Um remendo diante do colapso habitacional

O furacão Óscar deixou um panorama de devastação em Guantánamo, com telhados arrancados, moradias desmoronadas, postes de eletricidade caídos e inundações. No final de novembro de 2024, apenas 8 % das mais de 13.000 moradias afetadas haviam sido reparadas, e a maioria das soluções eram consertos parciais nas coberturas.

Em contraste, o governo havia priorizado a reparação de instalações estatais. Nesses casos, das 700 danificadas, 525 já estavam prontas (75%), e outras 97 tinham recursos disponíveis para sua reabilitação.

Esta aposta pelos contêineres faz parte de uma tendência crescente em várias províncias cubanas como Holguín, Las Tunas e Villa Clara, onde são promovidas construções “alternativas” em resposta ao colapso da indústria de materiais e à incapacidade do Estado de executar planos de habitação sustentáveis.

Em Las Tunas, por exemplo, mais de 10.000 famílias ainda vivem com pisos de terra. Enquanto isso, em Villa Clara, experimenta-se com habitações que prescindem completamente de cimento e aço, e em Pinar del Río foram retomadas técnicas ancestrais de construção com terra e cal.

A queda sustentada na construção de habitações em Cuba é um dos sinais mais evidentes da crise econômica que o país enfrenta. Em 2024, foram construídas menos casas do que nos anos mais difíceis do Período Especial, e o déficit habitacional já ultrapassa 800.000 unidades.

A iniciativa em San Antonio del Sur, apresentada como "solução inovadora", não deixa de ser outro remendo temporário que ilustra a falta de respostas estruturais para resolver um problema que afeta diretamente centenas de milhares de cubanos.

Perguntas frequentes sobre as habitações construídas com contêineres em Cuba

Por que estão utilizando contêineres como moradias em Guantánamo?

O governo cubano está utilizando contêineres reciclados para construir habitações temporárias em Guantánamo devido à devastação causada pelo furacão Óscar em 2024, que afetou mais de 13.000 lares. Esta medida faz parte de um plano para oferecer uma solução rápida diante da crise habitacional, embora as condições de habitabilidade desses contêineres sejam questionáveis devido ao clima extremo da região e à falta de isolamento térmico adequado.

Quantas moradias estão planejadas para serem construídas com contêineres em Guantánamo?

Está planejado instalar um total de 60 contêineres adaptados como moradias na comunidade de Buena Vista, em Guantánamo. Até o momento, estão sendo utilizados 23 contêineres reciclados de um parque fotovoltaico em construção. Cada contêiner é adaptado para incluir dois quartos, banheiro, cozinha e sala.

Quais são os principais problemas de habitabilidade dessas casas contêiner?

O principal problema dessas habitações é o calor extremo que pode se acumular dentro dos contêineres metálicos devido à falta de isolamento adequado. Em um clima como o de Cuba, onde as temperaturas facilmente superam os 30 graus, esses contêineres podem se tornar fornos inabitáveis, especialmente perigosos para crianças e idosos.

Existem precedentes desse tipo de construções em Cuba?

Sim, em várias províncias cubanas foram promovidas construções “alternativas” utilizando contêineres e outros materiais não tradicionais, como em Las Tunas e Holguín, onde se busca amenizar o déficit de habitações. No entanto, essas soluções costumam carecer dos padrões de habitabilidade que se observam em outros países, o que gera preocupação sobre sua viabilidade a longo prazo.

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