Marrero aparece em outro abrigo para mendigos, enquanto a pobreza e o abandono crescem em Cuba

O chefe de Governo visitou um centro para pessoas com "comportamento deambulante" em Matanzas, durante uma jornada questionada nas redes sociais, onde a repentina estabilidade elétrica em bairros acostumados a longos apagões foi vista como mais uma encenação para mascarar a realidade cubana.

A visita reforçou a percepção de que cada percurso oficial projeta uma imagem falsa da realidadeFoto © Facebook/TV Yumurí

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O primeiro-ministro cubano Manuel Marrero reapareceu em Matanzas com uma visita ao Centro de Proteção Social Rivera San Juan, um percurso oficial apresentado como um gesto de “compromisso”, enquanto a população enfrenta apagões intermináveis, valas transbordantes e bairros inteiros afundados no abandono.

De acordo com a página no Facebook do telecentro provincial TV Yumurí, Marrero chegou acompanhado da integrante do Comitê provincial do Partido Comunista Norma Llerena Pérez, da governadora Marieta Poey Zamora e de outros funcionários para conhecer de perto as condições de vida de pessoas com “comportamento deambulante”.

Captura do Facebook/TV Yumurí

O ato foi descrito como uma jornada de “compromisso” dedicada a “fortalecer a atenção e o bem-estar social na província”.

No entanto, os comentários dos próprios cubanos nas redes sociais mostraram um outro lado. Dezenas de usuários denunciaram que, coincidindo com a visita, a eletricidade reapareceu milagrosamente em zonas de Matanzas onde os apagões de 15, 20 e até 24 horas fazem parte da rotina.

“Que rápido aparecem os megawatts, por isso estamos bem ferrados”, escreveu um vizinho, que lembrou como até um dia antes seu circuito sofria apagões intermináveis.

Outro usuário ironizou ao notar que estava com energia desde as seis da manhã, algo incomum em bairros onde a luz é recebida apenas por poucas horas.

Outros criticaram que a cenografia foi maquiada para encobrir o desastre cotidiano. “Escondendo coisas mal feitas”, comentou um internauta, enquanto outro perguntou por que não obrigam Marrero a viver as mesmas penúrias que a população suporta.

As queixas se repetiram: fossas transbordando, lixeiras que crescem diariamente e transformadores queimados que deixam quarteirões inteiros sem eletricidade por vários dias.

Lejos de gerar confiança, a visita reforçou a percepção de que cada recorrido oficial é uma encenação projetada para mostrar uma imagem falsa da realidade, enquanto a pobreza, a fome e a indigência —fenômenos que o próprio governo negava— se multiplicam pelo país.

A fins de julho, o próprio Marrero visitou o centro de atendimento a pessoas em situação de rua em Ciego de Ávila, enquanto o governante Miguel Díaz-Canel esteve no dia 22 de agosto no Centro de Proteção Social William Darias, no município de Santa Clara, apresentado como exemplo de atendimento a pessoas deambulantes.

Tais recorridos ocorrem em meio à polêmica pelo abandono estatal de milhares de mendigos que sobrevivem nas ruas cubanas sem respostas reais e em uma tentativa de contrabalançar as críticas geradas pelas declarações da exministra de Trabalho e Segurança Social, Marta Elena Feitó Cabrera, que negou a existência de pessoas sem-teto no país.

El 14 de julho, Feitó Cabrera assegurou em uma das comissões do parlamento que em Cuba "não existem mendigos", mas sim pessoas "disfarçadas", a quem qualificou ainda como “bêbados” e “simuladores”.

Suas declarações negando a existência de fome na ilha e responsabilizando os cidadãos pela sua situação de pobreza geraram uma explosão de indignação nas redes sociais, meios de comunicação independentes e setores da sociedade.

Horas depois, o Birô Político do Partido Comunista de Cuba e o Conselho de Estado aceitaram sua renúncia, a qual foi apresentada, segundo fontes oficiais, após uma “análise conjunta” com a direção do Governo.

Dois dias depois, o governo reconheceu que mais de 310.000 pessoas residentes na ilha estão atualmente em situação de pobreza ou vulnerabilidade social, em meio a uma profunda crise econômica.

O Estado cubano costuma camuflar a indigência com eufemismos como “deambulantes” e “vulneráveis”. Embora o governo aparente oferecer soluções, na realidade não se atacam as condições que produzem a mendicância em Cuba, e dedica maiores esforços a como gerir sua visibilidade.

Na própria Matanzas, uma população crescente de idosos, enfermos e marginalizados sobrevive ao relento, assim como em todas as outras províncias cubanas, sem políticas efetivas que os amparem nem vontade real.

Assim o reconheceu até mesmo a imprensa oficial, que em reportagens recentes mostrou essa outra cidade sob a cidade, a camada esquecida onde vivem aqueles que perderam quase tudo - casa, família, saúde mental, trabalho - e buscam entre os resíduos para sobreviver.

O jornal provincial Girón publicou no dia 1 de agosto um trabalho jornalístico que revelou a grave situação que vivem dezenas de pessoas “deambulantes” no Centro de Proteção Social de Jagüey Grande.

O reportagens "Habitantes do pó (II): A terra que nunca foi prometida" documenta as condições de vida neste lugar que, mais do que um centro de acolhimento, parece, segundo os testemunhos coletados, "um cemitério de homens vivos".

Perguntas frequentes sobre a situação atual em Cuba: pobreza, apagões e política

Qual foi o propósito da visita de Manuel Marrero a Matanzas?

A visita de Manuel Marrero a Matanzas foi apresentada como um gesto de “compromisso” para fortalecer a atenção e o bem-estar social na província. No entanto, muitos cidadãos perceberam essa visita como uma encenação, pois coincidiu com o repentino retorno da eletricidade em áreas afetadas por apagões constantes, o que gerou desconfiança na população.

Como tem sido a resposta do governo cubano diante da crescente pobreza no país?

O governo cubano tem tentado contrabalançar as críticas pelo aumento da pobreza por meio de visitas a centros de atendimento social e declarações oficiais que negam a existência de mendicância. A pesar dos esforços para mostrar um compromisso social, a realidade é que a pobreza e a indigência aumentaram visivelmente no país, sem soluções efetivas à vista.

Qual é a situação atual do sistema elétrico em Cuba?

O sistema elétrico em Cuba enfrenta um colapso evidente, com frequentes apagões que afetam a vida diária dos cidadãos. Apesar das promessas do governo de investir em parques solares para melhorar a situação, os resultados concretos ainda não são visíveis e a crise energética persiste.

Qual foi o impacto das declarações da ex-ministra Marta Elena Feitó sobre a pobreza em Cuba?

As declarações de Marta Elena Feitó negando a existência de mendicância e pobreza extrema provocaram uma onda de indignação nas redes sociais e meios de comunicação independentes. A reação pública foi tão intensa que o governo se viu obrigado a aceitar sua renúncia e reconhecer a situação de pobreza no país.

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