Gina Montaner quebra o silêncio sobre a eutanásia de seu pai, o escritor cubano Carlos Alberto Montaner

Acompanhado por sua família, o escritor cubano se despediu com dignidade, reafirmando seu amor pela liberdade e sua esperança no futuro de Cuba.

Carlos Alberto Montaner Suris, intelectual e político cubanoFoto © Facebook/ Carlos Alberto Montaner Suris

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“No vou viver na Espanha, vou morrer na Espanha”. Com essa frase, carregada de ironia e lucidez, o intelectual cubano Carlos Alberto Montaner resumiu sua decisão final após abandonar Miami em 2022 para se instalar em Madri e exercer seu direito à eutanásia, depois de vários anos enfrentando uma doença neurodegenerativa severa.

O escritor, ensaísta e referência do exílio cubano , aos 80 anos, cercado por sua esposa Linda, seus filhos e netas, após um processo que ele mesmo definiu como sua última batalha pela liberdade.

A história íntima dessa despedida acaba de ser contada por sua filha, Gina Montaner, no livro “Deséenme um bom viagem. Memórias de uma despedida”, e em um extenso testemunho concedido à BBC Mundo (Beatriz Díez, 21 de agosto de 2025).

Gina Montaner recorda que foi ela quem acompanhou seu pai em cada etapa do processo, desde a assinatura do testamento vital até as apelações quando um neurologista questionou seu acesso à eutanásia.

“Meu pai me pediu ajuda e eu não hesitei. Foi um sacrifício enorme, mas também um ato de amor. Eu era seu sherpa, a pessoa que o acompanhava na montanha mais difícil”, confessou.

O escritor, diagnosticado com paralisia supranuclear progressiva, um tipo atípico de Parkinson que limita a mobilidade, a fala e a clareza mental, recusou-se a esperar para ficar prostrado em uma cama.

“Não quero estar pior do que já estou”, disse, enfrentando os obstáculos burocráticos de uma lei que, embora esteja em vigor na Espanha desde 2021, costuma exigir um agravamento extremo antes de aprovar o procedimento.

Finalmente, em 29 de junho de 2023, Montaner escolheu se vestir, se barbear e se despedir com serenidade. Segundo relatou Gina, ele passou a manhã assistindo às notícias, conversou com sua família e, pouco depois, disse a eles com tranquilidade: “Estou pronto, não quero esperar mais. Desejem-me uma boa viagem”.

Um legado inseparável de Cuba

Nascido em Havana em 1943 e exilado desde adolescente, Montaner nunca deixou de pensar em Cuba. Nos seus últimos meses, escreveu duas colunas memoráveis, uma sobre a peça teatral “Jacuzzi”, do dramaturgo cubano Junior García Aguilera, e outra intitulada “Carta aberta a Miguel Díaz-Canel”, na qual insistiu mais uma vez que a ilha tinha caminhos possíveis.

En sua última coluna, publicada na CiberCuba, Montaner confessou a tristeza de morrer sem voltar ao seu país natal, mas reafirmou sua confiança de que o futuro estava nas mãos dos jovens cubanos.

Ela morreu com essa dor, mas também com um otimismo inquebrantável. Nunca deixou de acreditar na liberdade de Cuba, lembra Gina.

Montaner foi um homem que defendeu toda a sua vida o direito de viver e pensar livremente. Para sua filha, sua decisão final não foi um ato de desespero, mas de coerência.

“Meu pai não foi mais valente do que aqueles que escolhem ficar até o fim. O que ele foi, na verdade, é uma pessoa decidida sobre o que queria e acreditava. Ele não queria agonizar lentamente; queria se despedir com dignidade”, explicou Gina.

Sua família, embora marcada pela dor, o acompanhou em paz. “Nós estávamos desfeitos, mas a serenidade dele era tão impressionante que nos contagiava. Ele se foi tranquilo, com o semblante relaxado, fiel a si mesmo”.

Dos anos depois, Gina assegura que conseguiu perdoar a si mesma por ajudá-lo e que vê nesse processo uma prova de amor absoluto. “Cuidá-lo e, ao mesmo tempo, lutar ao seu lado para que pudesse morrer logo foi o mais difícil da minha vida, mas também o mais honesto. Respeitar sua vontade foi a única maneira de honrá-lo”.

Carlos Alberto Montaner partiu lúcido, livre e profundamente ligado a Cuba. Sua última viagem não foi apenas rumo à morte, mas sim à plena coerência com suas ideias, aquelas que o tornaram uma voz imprescindível para o exílio e um referente para várias gerações de cubanos.

Perguntas frequentes sobre Carlos Alberto Montaner e sua decisão de euthanasia

Por que Carlos Alberto Montaner decidiu se submeter à eutanásia na Espanha?

Carlos Alberto Montaner decidiu submeter-se à eutanásia na Espanha devido ao seu diagnóstico de paralisia supranuclear progressiva, uma doença neurodegenerativa severa que afeta a mobilidade e a clareza mental. Ele se recusou a esperar para ficar imobilizado e escolheu se despedir com dignidade, em consonância com sua luta pela liberdade pessoal.

Qual foi o papel de Gina Montaner no processo de eutanásia de seu pai?

Gina Montaner foi um apoio fundamental para seu pai durante todo o processo de eutanásia. Acompanhou Carlos Alberto Montaner em cada passo, desde a assinatura do testamento vital até enfrentar as apelações burocráticas. Considera sua ajuda como um sacrifício enorme e um ato de amor para com seu pai.

Qual foi o legado de Carlos Alberto Montaner em relação a Cuba?

Carlos Alberto Montaner, embora exilado desde jovem, nunca deixou de pensar em Cuba. Seu legado está profundamente ligado à liberdade e ao futuro da ilha. Em suas últimas colunas, demonstrou sua tristeza por não poder retornar ao seu país natal, mas manteve seu otimismo de que a mudança viria das novas gerações cubanas.

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