O regime cubano tenta apresentar a energia solar como uma alternativa para enfrentar a crise energética, agora com a instalação de “solineras” destinadas a recarregar triciclos, motorinas e carros elétricos no país.
Um recente relatório do canal oficialista Canal Caribe mostrou como a Indústria Eletrônica Camilo Cienfuegos em Havana utiliza este sistema para abastecer seus veículos elétricos e até oferecer serviços à população.
No material televisivo, Enrique, motorista de um dos triciclos elétricos da entidade, relatou que aproveita a hora do almoço para conectar seu veículo à rede fotovoltaica.
“Eu a coloco lá para carregar e já no final da tarde... ela já está cheia e eu saio novamente para prestar serviço”, contou. A cena, divulgada como um exemplo de eficiência, faz parte da campanha oficial para exibir um futuro baseado na energia solar.
No entanto, a aposta em usinas solares e parques solares ocorre em um contexto marcado pela falta crônica de combustível e pela velhice do Sistema Elétrico Nacional (SEN), praticamente colapsado após décadas de abandono e falta de investimentos.
Como deveriam funcionar as "solineras" e como se comparam internacionalmente?
As solineras, ou estações solares de carga para veículos elétricos, operam com um sistema relativamente simples, com a localização de painéis fotovoltaicos que convertem a luz do sol em eletricidade de corrente contínua, que depois um inversor transforma em corrente alternada compatível com os veículos ou a rede elétrica; em muitos países desenvolvidos, o sistema inclui baterias de armazenamento para garantir carga durante a noite ou em dias nublados.
Este modelo híbrido ou independente da rede é essencial para garantir uma disponibilidade contínua do serviço, além do horário solar.
Em países como Espanha , as estações de carregamento elétrico, embora não todas solares, já são uma infraestrutura pública e privada robusta, com cerca de 16.000 pontos de recarga públicos, especialmente em cidades e corredores principais.
Além disso, foram implementados projetos inovadores como o sistema "MetroCharge" em Barcelona, onde a energia regenerada pela frenagem do metrô, combinada com painéis solares, é utilizada para abastecer estações de carregamento próximas.
Em China, o despliegue é maciço. O país concentrava em 2019 mais da metade das estações de carregamento públicas do mundo, com mais de 800.000 pontos, incluindo 760.000 carregadores rápidos, apoiado por redes privadas, estatais e fabricantes de automóveis.
Empresas como XPeng e Volkswagen estão construindo redes de carregamento ultrarrápido em mais de 420 cidades, com mais de 20 000 pontos. Também se destacam tecnologias como a troca rápida de baterias, lideradas pela Nio, que permite trocar a bateria em menos de 5 minutos em mais de 1.300 estações.
A diferença é evidente, porque enquanto em outros países essas estações garantem continuidade e autonomia, em Cuba mal se levantam solineras isoladas, sem armazenamento nem capacidade real de expansão.
Em Cuba, promessas solares diante de apagões diários
Por exemplo, na área elétrica, o governo anunciou a construção de mais de 50 parques fotovoltaicos para 2025, com uma capacidade projetada de 1.200 MW.
Apenas em março, Miguel Díaz-Canel prometeu que neste verão seriam incorporados 560 MW de energia solar, garantindo que “quase vamos passar pelo pico do meio-dia”. Mas a realidade é que os apagões persistem em todo o país e as termelétricas continuam funcionando com dificuldades.
A Unión Eléctrica (UNE) chegou a afirmar que a energia solar “alimenta a esperança de milhões de cubanos”. No entanto, como também temos informado, as cifras oficiais contrastam com a experiência cotidiana, ocorrendo apagões de mais de 12 horas, indústrias paralisadas e lares mergulhados na precariedade.
O próprio ministro de Energia e Mineração, Vicente de la O Levy, reconheceu que, embora o plano preveja a instalação de 1.000 MW de energia solar este ano, ainda não existem baterias para armazenar essa eletricidade. Isso significa que a geração só poderá ser aproveitada durante o dia, enquanto que à noite, quando o consumo é maior, os apagões continuarão sendo inevitáveis.
A dependência de doações e equipamentos estrangeiros, como os painéis e contêineres de armazenamento enviados pela China, evidencia a fragilidade do programa energético e sua incapacidade de oferecer uma solução sustentável.
Então, enquanto o governo multiplica manchetes e relatórios triunfalistas sobre usinas solares e parques fotovoltaicos, o pano de fundo é claro, o regime busca mascarar com energia solar o fracasso estrutural de um sistema elétrico devastado.
Sem manutenção, com termelétricas com mais de 40 anos, produção nacional de petróleo em queda livre e falta de financiamento para modernizar a rede, Cuba depende de promessas que dificilmente se traduzirão em alívio para o povo.
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