Quantas termoelétricas poderiam ser construídas em Cuba com os 18 bilhões da GAESA?

Os 18 bilhões da GAESA poderiam cobrir a demanda elétrica de Cuba e reduzir os apagões. Em vez disso, o regime prioriza o turismo.

Termoelétrica Antonio GuiterasFoto © Periódico Girón

Uma pergunta tem se tornado recorrente nas redes sociais dos cubanos: ¿Quantas termoelétricas poderiam ser construídas com os 18 bilhões de dólares que controla o Grupo de Administração Empresarial S.A. (GAESA), das Forças Armadas Revolucionárias (FAR)?

A inquietação ressurgiu após o comentário de Javier Bobadilla no Facebook, que afirma que com esse dinheiro poderia "quintuplicar a capacidade gerativa de Cuba" e ainda sobraria para comprar petróleo.

Facebook Javier Bobadilla

"Que a GAESA tenha 18 bilhões de dólares circulando por aí, sem que ninguém saiba onde estão nem como chegaram lá, é uma maravilha financeira do falecido General López-Calleja. (...) Onde está esse dinheiro? Não se sabe. López-Calleja tinha seu esquema muito bem armado. Só agora está começando a falhar", disse Bobadilla.

O post, inspirado pela polêmica em torno da GAESA, resume o sentimento de muitos cubanos. O dinheiro existe, mas o regime não o investe onde mais é necessário.

Quantas usinas termoelétricas podem ser construídas com 18 bilhões de dólares?

"Eu, que não sou nem de longe um especialista no assunto e calculo as contas de maneira rudimentar, posso afirmar com total segurança que há dinheiro para quintuplicar a capacidade gerativa de Cuba, e sobram muito dinheiro para comprar petróleo", expressou Bobadilla.

Tomando preços de referência internacionais e considerando a situação atual de Cuba, com 18 bilhões de dólares seria possível financiar aproximadamente 12 usinas modernas de ciclo combinado de 500 MW cada uma. Essa capacidade cobriria amplamente a demanda elétrica do país, reduzindo de forma drástica os apagões.

Outra opção seria destinar esse dinheiro à compra de combustível para geração. Poderiam ser adquiridos cerca de 225 milhões de barris de petróleo, suficientes para mais de 15 anos de consumo elétrico ao ritmo atual.

São cálculos aproximados, mas ilustram o potencial transformador que esse capital teria se fosse direcionado para resolver a crise energética.

Por que o governo não investe seus recursos no setor energético?

Bobadilla defende uma teoria com muitos comentários de apoio: "Por que não vão investir em termoelétricas? Porque ainda não pode vir um general dizer que é o dono de uma termoelétrica em Cuba e cobrar pela energia em dólares. O hotel e a imobiliária sim. Contudo, falta pouco para que isso aconteça", previu.

Economistas como Pavel Vidal apontam que a GAESA atua como um banco central paralelo, acumulando reservas sem redistribuí-las ou investir em setores críticos.

Enquanto o salário médio gira em torno de 16 dólares mensais, o conglomerado militar recebeu em agosto de 2024 mais de 9.260 milhões de pesos do orçamento estadual, mas não pagou um único dólar em impostos.

Em Cuba, são necessários apenas 43 milhões de dólares anuais para cobrir o fornecimento de 63 medicamentos essenciais, e 250 milhões para estabilizar a rede elétrica nacional. São valores mínimos em comparação com os 18 bilhões que a GAESA mantém imobilizados.

No entanto, o dinheiro não é destinado a essas urgências, mas sim guardado em contas nacionais e estrangeiras ou investido em setores como o turismo, mesmo em seu atual estado de decadência.

O Hotel K23

Em 2024, em meio a apagões e escassez de combustível, o governo inaugurou a Torre K23, um hotel de luxo em Havana financiado pela GAESA. O edifício, com 154 metros e mais de 560 quartos, custou entre 226 e 565 milhões de dólares, segundo estimativas para esse tipo de construção com materiais importados.

Seu consumo elétrico estimado ronda os 1,93 MW contínuos, um luxo energético diante das constantes falhas das centrais termoelétricas. Com esse dinheiro, o governo poderia ter reparado várias usinas ou construído uma termoelétrica semelhante em potência à Antonio Guiteras, mas escolheu priorizar um símbolo turístico vazio de hóspedes.

Decisão política errada

O primeiro-ministro Manuel Marrero insiste que o turismo é “motor da economia cubana”, embora o setor esteja há mais de três anos sem cumprir seus planos e sua recuperação seja praticamente nula. Enquanto novos hotéis estão sendo construídos, os cubanos continuam enfrentando apagões, falta de alimentos, hospitais colapsados e salários que não cobrem a cesta básica.

A chegada de visitantes caiu mais de 60% em relação a 2019, os serviços de hotelaria recebem críticas constantes e a competitividade é baixa. Até mesmo o ministro do Turismo, Juan Carlos García Granda, reconheceu 2024 como “o pior momento”.

Outros ministros admitem que a indústria alimentícia e a agricultura não conseguem abastecer o setor, o que obriga a importar grande parte dos insumos, drenando ainda mais divisas.

A lógica do "primeiro o turismo" tem deteriorado a produção de alimentos, os serviços públicos e o sistema de saúde. Em vez de investir em infraestrutura energética ou em melhorar a qualidade de vida, o regime canaliza recursos para uma indústria que não consegue se sustentar.

Os cálculos mostram que, com os fundos que a GAESA mantém imobilizados, Cuba poderia renovar completamente seu sistema elétrico ou garantir combustível por mais de uma década. No entanto, o regime prefere apostar em hotéis vazios e megaprojéticos turísticos.

Perguntas frequentes sobre o investimento da GAESA e a crise energética em Cuba

O que é a GAESA e por que é relevante na economia cubana?

GAESA é um conglomerado empresarial controlado pelas Forças Armadas Revolucionárias de Cuba, que administra uma fortuna de mais de 18 bilhões de dólares em ativos líquidos. Atua como um "Estado dentro do Estado", controlando setores-chave como turismo, logística e comércio, com uma transparência mínima e sem prestar contas ao governo civil. Essa concentração de recursos contrasta com a crise econômica enfrentada pelo povo cubano, que sofre com a escassez em áreas como saúde, alimentação e energia.

Quantas termoelétricas poderia construir Cuba com os fundos da GAESA?

Com os 18 bilhões de dólares controlados pela GAESA, poderiam ser construídas aproximadamente 12 usinas de ciclo combinado de 500 MW cada uma, o que quintuplicaria a capacidade geradora de Cuba. Isso permitiria superar os apagões atuais e estabilizar o fornecimento de eletricidade no país.

Por que a GAESA não investe em resolver a crise energética em Cuba?

Apesar de dispor de recursos significativos, GAESA não destina fundos para resolver as urgências básicas da população cubana, como o fornecimento de medicamentos e a estabilização da rede elétrica. Em vez disso, prioriza investimentos no setor turístico, que tem mostrado ser pouco rentável nos últimos anos, deixando a população sem acesso a necessidades básicas.

Qual é a situação atual do sistema elétrico em Cuba?

O sistema elétrico cubano está em uma crise profunda, com apagões frequentes e uma infraestrutura energética obsoleta. A falta de investimento em manutenção e a escassez de combustível agravaram a situação, deixando a população com interrupções prolongadas no fornecimento de eletricidade. Apesar das tentativas de impulsionar energias renováveis, o impacto tem sido limitado.

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Equipe Editorial da CiberCuba

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