Especialistas refutam polêmica afirmação de DeSantis sobre Alligator Alcatraz

Ron DeSantis se manifestou desde o início como um firme defensor do polêmico centro de detenções da Flórida.


O governador da Flórida, Ron DeSantis, afirmou que o novo centro de detenção de imigrantes, apelidado de Alligator Alcatraz, tem um “impacto zero” no ecossistema dos Everglades.

No entanto, cientistas, advogados ambientais e grupos ecologistas contradizem essa afirmação, apontando uma série de danos que já são visíveis em um ambiente natural considerado um dos mais frágeis do sudeste dos Estados Unidos.

Um centro de detenção entre jacarés e espécies protegidas

Localizado sobre uma pista de aterrissagem de concreto abandonada na Reserva Nacional Big Cypress, vizinha do Parque Nacional Everglades, o centro de detenção recebeu seus primeiros migrantes no dia 3 de julho.

A instalação foi batizada de forma extraoficial como Alligator Alcatraz devido à sua localização remota, acesso restrito e à presença de fauna selvagem, como jacarés e pítons.

Segundo Kevin Guthrie, diretor executivo da Divisão de Gestão de Emergências da Flórida, o complexo possui uma capacidade inicial de até 3.000 detidos, com possibilidade de expansão, e uma estrutura de alumínio com mais de 14.800 metros quadrados.

Apesar do volume da obra e da localização em um ambiente protegido, o Estado não realizou uma avaliação de impacto ambiental antes da construção, o que gerou uma ação federal movida em 27 de junho pelos grupos ambientalistas Amigos dos Everglades e o Centro para a Diversidade Biológica.

"Cero impacto", segundo DeSantis

Durante uma coletiva de imprensa realizada em Boca Raton no dia 27 de junho, DeSantis afirmou que a instalação tem “zero impacto” nos Everglades. "Qualquer indício de que isso possa ter algum impacto nos Everglades em geral", disse o governador, "é de zero impacto".

No dia seguinte, seu escritório não apresentou evidências para sustentar essa afirmação. Em vez disso, DeSantis atribuiu as críticas a “ideologias pessoais contra a deportação de migrantes que estão no país sem permissão”.

Donald Trump também apoiou o projeto durante uma mesa-redonda nas instalações, afirmando que o centro não prejudicava os Everglades, mas sim os “melhorava”.

Verificação independente: PolitiFact contradiz o governador

As afirmações do governador DeSantis sobre o “impacto zero” do centro de detenção foram verificadas e refutadas pelo PolitiFact, uma organização independente de verificação de dados afiliada ao Poynter Institute, que desde 2007 avalia declarações de políticos e figuras públicas através de seu sistema Truth-O-Meter.

Segundo a avaliação da PolitiFact, a afirmação de DeSantis carece de fundamento técnico, já que o estado não realizou uma avaliação ambiental prévia, e as evidências fotográficas, científicas e testemunhais contradizem diretamente sua declaração.

O que dizem os especialistas

Cientistas independentes, advogados ambientais e conservacionistas concordam que a afirmação de “impacto zero” é, no melhor dos casos, inverossímil.

Robert Glicksman, professor de direito ambiental na Universidade George Washington, foi enfático: “A declaração do governador de que o projeto terá 'zero impacto' no meio ambiente é impossível de ser levada ao pé da letra, dada sua proximidade com os Everglades, uma reserva nacional, e com locais culturais indígenas.”

A seu ver, os possíveis efeitos incluem a poluição luminosa e atmosférica, o aumento do tráfego, o despejo de resíduos e a degradação do habitat de espécies ameaçadas, como a pantera da Flórida, cegonhas, morcegos-de-boné e milhafres-de-caracol.

Por sua parte, Harold Wanless, professor de geografia e estudos regionais da Universidade de Miami, questionou que o Estado minimize os danos alegando que “já havia uma laje de cimento”.

Segundo ele, “o local foi abandonado há décadas devido a um erro ambiental. Agora, é visto como uma oportunidade governamental e comercial, sem nenhuma preocupação ambiental”.

Christopher McVoy, físico de solos e especialista em áreas úmidas, qualificou como "ridícula" a afirmação de DeSantis.

"Fiquei surpreso ao ver que (DeSantis), com uma expressão séria, disse 'impacto zero'", apontou após visitar o local no dia 28 de junho.

McVoy comparou imagens de satélite do Google Earth anteriores com fotografias aéreas tiradas em 5 de julho pelo piloto Ralph Arwood, onde se observa a expansão de aproximadamente 11 acres de novo pavimento.

As imagens mostram áreas recentemente asfaltadas e ampliações significativas da pista original.

Preocupações com espécies ameaçadas e poluição

A zona afetada faz parte de um ecossistema onde habitam espécies protegidas e foi catalogada como Lugar Internacional de Céu Escuro desde 2016, uma designação que exige regulamentações específicas para limitar a iluminação artificial.

“Regular a poluição luminosa é importante para a pantera da Flórida e outras espécies noturnas”, explicou Alisa Coe, advogada adjunta do grupo ambientalista Earthjustice.

Segundo dados da Comissão de Conservação da Pesca e Vida Silvestre da Flórida, uma pantera com colar de rádio foi registrada pela última vez na área em 2014, o que confirma a importância do ambiente como habitat para a espécie.

Além disso, imagens de satélite recentes elaboradas com a tecnologia do NASA Worldview mostram um aumento notável da luminosidade noturna na região desde a construção do centro, o que coincide com denúncias de detidos que afirmam que as luzes permanecem acesas constantemente.

Um velho projeto com um novo propósito

A história do local remonta à década de 1960, quando a Autoridade Portuária do Condado de Dade tentou construir ali o que seria o maior aeroporto do país, sob o nome de Everglades Jetport.

No entanto, o plano foi cancelado após o relatório ambiental de 1969 elaborado pela hidróloga Luna B. Leopold, que alertou que o projeto “destruiria inexoravelmente o ecossistema do sul da Flórida e, portanto, o Parque Nacional Everglades.”

Esse relatório marcou um marco na história ambiental do estado e interrompeu definitivamente o desenvolvimento aeroportuário.

Décadas depois, o mesmo local volta a ser centro de controvérsia, agora com um uso muito distinto, mas com impactos ambientais que podem ser igualmente graves, segundo alertam especialistas.

Uma disputa legal e política em andamento

Enquanto a demanda federal avança, a Divisão de Gestão de Emergências da Flórida insiste que não houve desenvolvimento novo, e que a área já contava com uma pista de concreto preexistente.

“Com o tempo, uma fina camada de terra e grama havia se acumulado por cima”, afirmou Stephanie Hartman, porta-voz da divisão, em um e-mail para PolitiFact.

No obstante, a falta de uma avaliação ambiental rigorosa antes do início das obras alimentou o ceticismo da comunidade científica, que considera insustentável declarar “impacto zero” em uma área tão frágil quanto Big Cypress.

Por enquanto, o Alligator Alcatraz continua operando, recebendo detidos, intensificando o tráfego na área e gerando divisões não apenas políticas, mas também científicas e sociais sobre seu verdadeiro custo humano e ambiental.

Perguntas frequentes sobre o centro de detenção "Alligator Alcatraz"

O que é o centro de detenção "Alligator Alcatraz" na Flórida?

O "Alligator Alcatraz" é um novo centro de detenção de imigrantes localizado nos Everglades da Florida, destinado a abrigar até 5,000 migrantes, principalmente aqueles com antecedentes criminais. Foi promovido pelo governador Ron DeSantis e pelo procurador-geral James Uthmeier como parte de uma estratégia para acelerar as deportações em massa. Sua construção gerou controvérsia por seus possíveis impactos ambientais e humanitários.

Qual é o impacto ambiental do "Alligator Alcatraz"?

Apesar das afirmações do governador DeSantis de "impacto zero", especialistas e grupos ambientalistas apontaram que o centro poderia ter sérios efeitos negativos no ecossistema dos Everglades. Estes incluem poluição luminosa, aumento do tráfego, despejo de resíduos e degradação do habitat de espécies protegidas, como a pantera da Florida. A falta de uma avaliação ambiental prévia tem sido motivo para uma ação judicial federal.

Quais críticas o centro de detenção "Alligator Alcatraz" recebeu?

O centro tem sido criticado por organizações de direitos humanos, ambientalistas e comunidades indígenas. Argumentam que a instalação representa uma desumanização dos migrantes e uma ameaça ao ambiente natural dos Everglades. Além disso, foram apresentadas ações judiciais pela falta de revisões ambientais adequadas. Joe García, ex-congressista cubano-americano, o classificou como um "campo de concentração" pelo seu tratamento aos imigrantes.

Por que foi escolhida a localização nos Everglades para "Alligator Alcatraz"?

A localização foi escolhida por seu isolamento natural e o ambiente hostil, que inclui jacarés e pântanos, o que teoricamente desincentivaria as fugas. Essa decisão foi defendida pelo procurador-geral James Uthmeier como uma medida de segurança natural. No entanto, o uso de uma área ecologicamente sensível para tal propósito foi objeto de intensas críticas e controvérsias.

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