Maçonaria cubana denuncia assédio e perseguição financeira por parte do governo

A maçonaria cubana denuncia assédio estatal após uma auditoria e um processo judicial por "tráfico de divisas". Consideram a ação como uma violação de sua autonomia e devolvem doações para evitar mais perseguições.

Dinheiro e Edifício da Grande LojaFoto © Collage/Flickr/CiberCuba e Redes Sociais

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A maçonaria cubana denunciou o que considera uma grave intromissão do governo em seus assuntos internos, após uma auditoria surpresa e um posterior processo judicial por suposto “tráfico de divisas” contra um asilo que opera graças a doações de irmãos maçons no exterior. A denúncia foi emitida em um documento assinado e aprovado por unanimidade pelo Patronato maçônico que dirige o asilo “Llansó”.

O relatório, ao qual teve acesso CiberCuba, detalha que no dia 1 de julho uma comissão composta por funcionários do Ministério da Justiça (MINJUS), da Controladoria e do Registro de Associações inspecionou o asilo sem aviso prévio. Durante a visita, os auditores exigiram revisar livros contábeis, recibos e detalhes das moedas doadas por maçons fora do país, que financiam grande parte do sustento do centro.

Fragmento do relatório do Patronato maçónico onde se denuncia o início de um processo penal por “tráfico de divisas” contra o diretor do Asilo Llansó, após receber doações de irmãos no exterior.

“Vemos isso como uma violação da autonomia do Patronato e, portanto, da Maçonaria”, destaca o documento, ressaltando que o dinheiro auditado não pertence ao Estado e que seu uso tem sido exclusivamente para manter o asilo.

O Patronato considera que esta revisão é uma tentativa deliberada de desacreditar seu presidente e afetar a independência da instituição, que, durante anos, tem prestado assistência a idosos em situação de vulnerabilidade sem intervenção estatal. A inspeção teria sido motivada, segundo os auditores, por uma queixa isolada sobre o tratamento a um idoso.

O Patronato estabelece novas normas internas para proteger as doações em divisas e limitar o acesso do Estado ao seu patrimônio, após o que qualificam como uma intromissão injustificada.

No entanto, a situação escalou em 9 de julho, quando o diretor do asilo, irmão Raúl Acosta, foi summoned por uma tenente coronel do Ministério do Interior e informado de que enfrentaria um processo judicial por “tráfico de divisas”, um delito punido com até 20 anos de prisão.

Esta nova investida se junta ao conflito institucional que abala a maçonaria cubana desde maio, quando centenas de irmãos destituíram o então Grande Mestre Mayker Filema Duarte por tentar se perpetuar no cargo. Apesar da legalidade da decisão interna, o Ministério da Justiça ignorou o processo, apoiou Filema e, mais tarde, impôs um novo líder maçônico próximo ao regime.

Desde então, os maçons têm sido reprimidos, citados pela polícia, expulsos de seus templos e ameaçados com o congelamento de contas caso não acatassem as imposições do Estado. Mesmo assim, eles têm continuado a resistir, realizando sessões até na rua, em frente à estátua de Carlos Manuel de Céspedes, sob forte vigilância policial.

“Se o governo quer nos dominar, não vamos permitir”, declarou na ocasião o Grande Mestre eleito, Juan Alberto Kessell Linares.

Além disso, isso acontece apenas 24 horas depois que o próprio Ministro da Justiça, Óscar Manuel Silvera Martínez, afirmou na televisão nacional que o governo não se intrometia nos assuntos internos da maçonaria.

“É uma intromissão em nosso patrimônio privado que nunca foi utilizado fora do benefício do asilo”, reiteram no texto, alegando que todas as doações estão justificadas por meio de vales, livros contábeis e a autorização do Patronato.

Uma decisão dolorosa: devolver as doações

Ante o que consideram uma criminalização injusta de sua gestão, o Patronato decidiu devolver o dinheiro doado desde março de 2024 até a data a cada irmão que o entregou, como forma de evitar novas perseguições e proteger os beneficiários do asilo.

“É uma decisão muito difícil que prejudicará os residentes do Asilo, mas será a forma de evitar futuras situações desagradáveis”, lamentam na declaração.

Primeira parte do relatório do Patronato que descreve a auditoria surpresa realizada por funcionários do MINJUS e da Controladoria, apontando que constitui uma violação da autonomia da maçonaria cubana.

Além disso, foi aprovado um novo protocolo para evitar futuras intromissões do Estado: as contas em divisas só poderão ser revisadas por maçons com autorização expressa do Patronato, o acesso aos livros contábeis será restrito ao presidente e ao contador da instituição, e os alimentos trazidos do exterior também não poderão ser auditados, exceto por razões de saúde.

A maçonaria cubana, uma das instituições civis mais antigas do país, enfrenta assim mais um de seus desafios mais duros em meio a um contexto marcado pela crise econômica, pelo aumento do controle estatal e pela criminalização de formas independentes de gestão solidária.

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Equipe Editorial da CiberCuba

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