A morte em circunstâncias suspeitas do jovem cubano Félix Lázaro Reinoso Rodríguez, de 32 anos, gerou uma onda de indignação entre ativistas, familiares e observadores de direitos humanos dentro e fora de Cuba.
O caso foi denunciado inicialmente no dia 27 de junho pelo blog Cubains en liberté, que qualificou o fato como um novo crime do regime cubano. A denúncia foi reforçada pela intelectual e professora de Matanzas Alina Bárbara López Hernández, que divulgou mais detalhes do caso por meio de suas redes sociais.

Félix Lázaro foi preso na noite de segunda-feira, 23 de junho, em sua residência no município de Jovellanos, província de Matanzas.
Segundo testemunhas citadas no blog e declarações de familiares, uma brigada de agentes da Polícia Nacional Revolucionária e da Segurança do Estado apareceu durante um apagão para detê-lo, alegando que ele estava sendo investigado por suposta compra de peças de automóveis de procedência ilícita.
Três dias depois, a esposa do jovem foi alertada para que fosse urgentemente assinar um contrato com o advogado, mas no trajeto recebeu uma ligação que mudaria completamente o curso dos acontecimentos: Félix Lázaro supostamente tinha "escapado" do "Técnico" de Matanzas.
Tanto ela quanto a tia do falecido foram imediatamente à sede da Segurança do Estado, onde lhes foi comunicado, na presença do advogado, que durante um interrogatório noturno, o detido havia escapado “em um descuido do instrutor”.
A versão oficial indica que o jovem fugiu em direção à costa e se lançou de alguns penhascos próximos, falecendo no ato. Seu corpo foi encontrado horas depois. No entanto, fotos compartilhadas por seus familiares e por ativistas mostram um cadáver com múltiplos hematomas, marcas e sinais visíveis de violência, incompatíveis com uma simples queda.
A professora López Hernández, que reside na cidade de Matanzas e tem sido objeto de constante vigilância por parte das autoridades, questionou a versão do suposto suicídio.
"Parece mentira que os órgãos da Segurança do Estado descuidem a sua própria sede central", escreveu no Facebook. "Estive em uma protesto pacífico em frente a esse edifício. É inconcebível que alguém possa sair despercebido de um lugar com portão de ferro fechado, cabine com guarda e agentes entrando e saindo o tempo todo."
López Hernández também denunciou que à família de Félix foi proibido realizar o velório em sua localidade de origem, e foram obrigados a fazer um funeral privado e rápido em Matanzas. A opacidade em torno do caso e as condições impostas pelas autoridades reforçaram a tese de que se trata de uma morte sob custódia, resultante de maus-tratos ou até mesmo tortura.
“Que o mundo inteiro saiba o que aconteceu e como estão tentando lavar as mãos”, escreveu nas redes sociais uma prima da vítima, Clau Rodríguez, ao compartilhar as imagens desgarradoras do cadáver.
O clamor por justiça foi replicado por dezenas de usuários, que exigem uma investigação independente que esclareça os fatos e puna os responsáveis. Em suas redes sociais, o jornalista independente Alberto Arego repercutiu o ocorrido e a demanda por "justiça para um cubano encontrado morto após ser detido pela Segurança do Estado".
Este trágico episódio ocorre a poucos dias do aniversário de 11 de julho, data emblemática da explosão social ocorrida em 2021 em dezenas de cidades cubanas. Para muitos ativistas, a proximidade dessa data aumenta a tensão entre as forças repressivas do regime e pode explicar o nervosismo institucional e a comissão de abusos.
Félix Lázaro Reinoso Rodríguez se junta assim à dolorosa lista de cubanos que perderam a vida em circunstâncias obscuras enquanto estavam sob a custódia de organismos do Estado. Nem a censura oficial nem as versões impostas conseguirão silenciar o clamor por justiça.
A família desmente a versão oficial e denuncia encobrimento
Em conversa com CiberCuba, uma prima do falecido —que preferiu manter o anonimato por medo de represálias— ofereceu um testemunho detalhado que desmente a versão oficial dos fatos e sustenta que Félix Lázaro Reinoso Rodríguez foi espancado até a morte por agentes estatais, no que considera um caso claro de abuso de poder e tentativa de encobrimento.
“Estão circulando falsas notícias culpando meu primo de ter sido um dos suspeitos de a morte e o roubo de outro rapaz. Isso é mentira. A única coisa que ele fez foi comprar algumas peças de carro, sem saber que estavam relacionadas a um caso de homicídio”, esclareceu.
Segundo a fonte familiar, Félix foi preso na segunda-feira, 23 de junho, às 22h, durante um apagão, por agentes que o levaram ao Departamento Técnico de Investigações (DTI) de Matanzas. A causa alegada foi “receptação”, ou seja, compra de peças automotivas de origem ilícita.
A situação piorou quando a tia materna de Félix, acompanhada por um advogado, tentou vê-lo na delegacia na quarta-feira seguinte. “Disseram a ela que não podia vê-lo sem agendamento. Quando sugeriu que talvez ele estivesse machucado, o chefe do Técnico de Matanzas a confrontou e ameaçou prendê-la se ela continuasse falando”, relatou a prima.
No dia seguinte, quinta-feira, quando a família retornava com o advogado para uma reunião oficial, foram informados de que Félix havia "fugido" durante uma distração do investigador. Vinte e quatro horas depois, na sexta-feira, a família foi notificada de que seu corpo havia sido encontrado na Baía de Matanzas com sinais visíveis de violência.
“Disseram-nos que ele havia se afogado com uma pedra de 43 libras, como se tivesse cometido suicídio. Mas essa pedra não estava lá quando fomos identificar o corpo”, explicou. Um médico legista informou que o cadáver estava morto há mais de 48 horas, o que contradiz a versão oficial da fuga ocorrida na quinta-feira.
Lo mais indignante, aponta a prima, foi que apesar de ser reconhecido pela família, a polícia insistiu que deveria ser enterrado como “desconhecido”, argumentando que havia perdido as impressões digitais por causa da água. “Foi sepultado em uma vala comum, sem velório, sem dignidade e com um atestado de óbito absurdo. Está bem claro que o mataram a pancadas e depois montaram todo esse teatro para se proteger”.
Uma médica próxima da família, que pôde ver as imagens do corpo, afirmou que os sinais não correspondem a uma morte por afogamento. “Uma pessoa que se afoga fica pálida, não roxa, e os olhos não se saltam. Isso acontece por asfixia”, garantiu.
A família contratou advogados e afirma que levará o caso até as últimas consequências. “Vamos com tudo. Eles têm que pagar. Quanto mais se souber, mais difícil será para eles se saírem com a deles”.
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