O rapper cubano Raudel Collazo, conhecido como “El Patriota”, lançou uma feroz crítica contra a ditadura cubana durante sua participação no "Encontro Atlântico de Think Tanks 2025", um fórum internacional organizado pela União de Partidos Políticos Latino-Americanos (UPLA), realizado em Miami de 12 a 14 de junho.
“Cuba é um regime criminal que está matando seu povo. Literalmente”, disse com veemência o artista, em um discurso que não deixou espaço para ambiguidades.
“Há uma miséria absoluta, onde o regime de Havana perpetra todos os dias um terrorismo de Estado contra sua cidadania”, afirmou diante de um público composto por líderes políticos, acadêmicos e ativistas da América Latina, Europa e Estados Unidos.
A intervenção, cujos fragmentos foram compartilhados por Collazo em sua conta de TikTok, ocorre em um contexto marcado pelas recentes protestas estudantis em Cuba, motivadas pelo aumento dos preços da internet imposto pela estatal Empresa de Telecomunicações de Cuba (ETECSA).
A UPLA, que agrupa 31 partidos políticos em 21 países, aproveitou o fórum para apoiar publicamente as manifestações e reafirmar seu compromisso com a liberdade da ilha.
"A mãe de todas as ditaduras"
Collazo questionou a frieza com que, em sua opinião, a situação cubana é abordada no debate internacional. “Estamos fartos do fenômeno Cuba, 66 anos exportando esse mesmo terrorismo de Estado para a Venezuela, Nicarágua, Colômbia, México… e atravessando o oceano, até a Espanha”, expressou. “O tema de Cuba não é condenado com profundidade, frequentemente é tratado de forma morna. O que vamos fazer?”, questionou ao auditório.
Para o artista, que fez do rap um instrumento de resistência, não se trata de discursos vazios nem de aspirações políticas. “Não sou um político que faz canções de rap. Eu sou um rapper que fala sobre política… e utilizo o hip hop para condenar a brutal ditadura que existe no meu país”, disse em outros momentos.
Ele também é o fundador do projeto Escuadrón Patriota e denunciou a repressão à liberdade de expressão e o encarceramento por motivos políticos. “Em Cuba, há contabilizados mil e poucos presos políticos, e provavelmente mais. Se você fala, vai preso. Literalmente preso”, sublinhou.
Para Collazo, resulta impossível falar do futuro de Cuba sem enfrentar com clareza seu presente. “É terrível o que se vive em Cuba. Qualquer coisa que possamos discutir aqui é uma piada comparada com a realidade”, afirmou. “Não podemos abordar o fenômeno das ditaduras da região se não falarmos de Cuba, que é a mãe de todas essas ditaduras”.
Um fórum pela liberdade de Cuba e da América Latina
Durante o evento, a UPLA expressou seu apoio aos jovens cubanos que se manifestaram contra o regime e descreveu os protestos como “um testemunho do espírito indomável de uma geração comprometida com a mudança”.
No painel intitulado “Cuba: diante de um iminente início do processo de transição democrática”, Raudel compartilhou espaço com a jornalista cubana Claudia Padrón Cueto, o diretor de América Tevé Miguel Cossío, e o exdiplomata e ex-preso político Luis Zúñiga, informou o meio independente CubaNet.
O fórum também incluiu debates sobre o custo do ativismo em regimes autoritários, com a participação de defensores dos direitos humanos de Cuba, Nicarágua e Venezuela.
O Encontro Atlântico foi promovido pelo International Republican Institute (IRI) e concluiu com uma declaração de princípios em defesa da democracia no hemisfério.
De rapper censurado a voz política internacional
Raudel Collazo não é uma figura nova na resistência cubana. Desde o início dos anos 2000, tem sido uma referência do hip-hop consciência na ilha, utilizando a arte como arma para questionar abertamente o sistema.
Sua história de repressão inclui episódios como a detenção arbitrária que sofreu em agosto de 2017, quando foi interceptado junto ao DJ Reymel pela Segurança do Estado ao chegar em Camagüey para participar de um concerto underground independente.
Sin siquiera descer do ônibus, ambos foram presos e desapareceram brevemente, como parte da operação montada pelas autoridades para sabotar o evento. Já então, Collazo havia sido censurado e expulso dos circuitos culturais oficiais por sua música crítica.
Em 2011, sua música “Decadencia” foi incluída em um disco internacional em apoio à democracia em Cuba e aos prisioneiros de consciência, compartilhando espaço com figuras como Gloria Estefan, Alejandro Sanz e Willy Chirino.
Sua trajetória tem sido marcada pela exclusão oficial, mas também por uma coerência que o tornou uma das vozes mais respeitadas do exílio artístico cubano.
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