A 26ª edição do Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires (BAFICI) concedeu o Prêmio Especial do Júri na competição de Vanguarda e Gênero ao documentário Crônicas do Absurdo (2024), do realizador cubano Miguel Coyula.
En seu perfil no Facebook, Coyula compartilhou parte da argumentação do júri, que destacou que o documentário “narra com brilho artístico a debacle da Nação cubana, embora dependa de como se veja, pois, embora detalhe a imundície castrista em seus processos de repressão, geração de funcionários degenerados e promoção de valores abjetos; não é menos certo que é preciso ressaltar a resistência da humanidade a uma hegemonia tão perversa, e essa é a mensagem contrária: uma mensagem de esperança e reparação”.
Filmado com gravações ocultas, o audiovisual de 77 minutos mostra a realidade dos artistas independentes em Cuba, submetidos a controle estatal e assédio.

Crônica de um sistema opressor
O filme relata a experiência de Coyula e da atriz Lynn Cruz desde 2011, quando iniciaram uma colaboração artística e pessoal que os levou a documentar múltiplas interações inquietantes que ambos os artistas tiveram com uma ampla variedade de instituições e indivíduos, em um estilo verdadeiramente kafkiano, até mesmo fora de Cuba.
Em 10 capítulos elípticos, Crônicas do Absurdo conta esta história principalmente através de gravações de áudio, muitas vezes feitas em segredo.
A sinopse da Enciclopédia Digital do Audiovisual Cubano (ENDAC) sublinha que “em Cuba, os artistas devem ser reconhecidos por instituições estatais para ter rendimentos e direitos. Existir como independente significa enfrentar controle e intimidação”.
“As transcrições textuais, apresentadas em texto gráfico que ressalta a dinâmica das conversas, são combinadas com fotografias de rostos, logotipos, cartazes de filmes e pinturas da artista cubana Antonia Eiriz. A forma austera reflete as dificuldades enfrentadas pelos cineastas cubanos, cuja liberdade de expressão é violada diariamente por um sistema despótico”, acrescenta o texto.
O absurdo como denúncia
Ao analisar o filme, o crítico Álvaro Arroba destacou: “Há um interrogatório ao qual é submetido o irmão de Ana de Armas, amigo de Coyula e sua mulher, que grava o áudio da conversa com os policiais clandestinamente. É uma troca que resume tão bem a ideia do título, essa crônica anunciada do absurdo, que se torna o coração da película, e que nem escrito seria tão eficaz.”
Arroba lembrou que “Coyula e Lynn estão na ilha, encurralados, como autênticos párias civis”.
Pondero que o filme “tem uma velocidade de ‘redes’ e, com grande engenho e imaginação, oferece um retrato muito eloquente do que poderíamos chamar de ‘intelectualidade sitiada’ de Cuba. Nesse intervalo, de vez em quando, alguém perde a vida.”
Crônicas do Absurdo foi exibida no início deste mês no 42º Festival Internacional de Cinema de Miami, e nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, no Brasil, durante o 30º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade.
Graduado da Escola de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, Coyula (Havana, 1977) dirigiu, entre outros, Cucarachas rojas (2003) - seu primeiro longa-metragem - e Memórias do desenvolvimento (2010), concebida a partir do romance homônimo de Edmundo Desnoes, cuja anterior Memórias do subdesenvolvimento deu vida ao renomado filme de Tomás Gutiérrez Alea, em 1968.
Dirigiu também Nadie (2017), sobre a vida do poeta Rafael Alcides, e Corazón Azul (2021), uma ucronia sobre uma Cuba na qual o experimento para criar o "homem novo" que salvaria o socialismo cubano fracassa, originando indivíduos extremamente perigosos que ameaçam fazer sucumbir a sociedade em um desenfreio de caos e violência.
Em 2023, Coyula denunciou o caso de um idoso cubano expulso de sua casa pelo filho e internado contra a sua vontade em um asilo, por meio de um documentário que também foi construído com a gravação de áudios clandestinos, uma vez que o regime não permite a gravação de vídeos nas instituições públicas.
A vigésima sexta edição do BAFICI ocorreu de 1 a 13 de abril. É considerado um dos festivais de cinema independente mais importantes da América Latina.
Perguntas frequentes sobre o documentário "Crônicas do Absurdo" e a censura em Cuba
Que prêmio o documentário "Crônicas do Absurdo" ganhou?
O documentário "Crônicas do Absurdo" ganhou o Prêmio Especial do Júri na competição de Vanguarda e Gênero do Festival de Cinema Independente de Buenos Aires (BAFICI). Este reconhecimento destaca a capacidade do filme de narrar artisticamente a realidade da repressão em Cuba e sua mensagem de resistência e esperança diante de um regime opressor.
Qual é o tema central do documentário "Crônicas do Absurdo"?
O documentário se concentra na repressão estatal e no controle sobre os artistas independentes em Cuba. Através de gravações clandestinas, mostra as dificuldades que enfrentam cineastas como Miguel Coyula e Lynn Cruz, que documentam suas experiências kafkianas com instituições repressivas na ilha.
Como a censura afeta o cinema cubano segundo a Assembleia de Cineastas Cubanos (ACC)?
A censura em Cuba impede a liberdade criativa e limita a diversidade temática no cinema. A Assembleia de Cineastas Cubanos denuncia a exclusão sistemática de obras críticas ao regime e os obstáculos financeiros, o que reflete um temor institucional às ideias livres e uma tendência a simplificar a realidade por meio da censura.
Quem é Miguel Coyula e qual é sua contribuição para o cinema cubano?
Miguel Coyula é um cineasta cubano reconhecido por sua abordagem crítica em relação ao regime e sua defesa da liberdade artística. Ele dirigiu filmes como "Cucarachas rojas", "Nadie" e "Corazón Azul", que abordam temas sociais e políticos com uma perspectiva alternativa ao discurso oficial em Cuba.
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