Livros de receitas do Museu Farmacêutico de Matanzas entram para o registro patrimonial da Unesco

A coleção de 55 volumes com mais de um milhão de fórmulas médicas, que refletem a história da Botica Francesa do doutor Ernesto Triolet, foi registrada no Memória do Mundo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Os 55 volumes, que abrangem de 1882 a 1964, reúnem mais de um milhão de fórmulas médicasFoto © Periódico Girón

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Os livros de registro de receitas do Museu Farmacêutico de Matanzas, outrora Botica Francesa, foram incorporados ao prestigiado Registro Memória do Mundo para a região da América Latina e do Caribe da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

“El fundo documental reconhecido contém livros manuscritos de assentamento de receitas médicas, que datam do século XIX e do início do século XX, e constitui um testemunho excepcional do desenvolvimento da ciência farmacêutica na América Latina”, destacou a Unesco ao resenhar o acontecimento em seu site oficial.

Os 55 volumes de documentos contêm mais de um milhão de fórmulas médicas, sua composição e detalhes como o nome do médico que prescreveu cada uma, seu número sequencial, o preço e a data de recebimento, precisou o jornal Girón, da província de Matanzas.

Captura de Facebook/Oficina Regional de Cultura para América Latina e o Caribe

Se trata de uma coleção completa que reflete o funcionamento contínuo da Botica Francesa do doutor Ernesto Triolet, desde 1 de janeiro de 1882 até 16 de janeiro de 1964, destacou Marcia Brito Hernández, diretora da instituição.

Somente outro arquivo cubano, o da Fundação Antonio Núñez Jiménez, compartilha esse reconhecimento.

Com o reconhecimento, os livros de receitas do Museu Farmacêutico de Matanzas se consolidam como um patrimônio inestimável, não apenas para Cuba, mas para a memória científica e cultural do mundo. Foto: Giselle Bello Muñoz/Jornal Girón

Uma janela para a história médica e social

Os livros não apenas documentam receitas, mas também eventos cotidianos, epidemias e até curiosidades como a “misteriosa” passagem da luz solar pelo pátio até a mesa de dispensação, entre os dias 8 e 13 de março, destacou Girón.

Além disso, revelam dados sobre personalidades como o músico Miguel Faílde (1852-1921), criador do danzón, dança nacional de Cuba, e que foi a primeira pessoa negra da cidade a ter conta aberta na farmácia.

“São uma fonte inesgotável de pesquisa”, destacou Brito. Os documentos registram as epidemias que devastaram a cidade, as doenças mais comuns, as idades das pessoas que as sofriam, as personalidades ligadas a este local, inclusive, “as ocasiões em que uma pessoa pobre não podia arcar com os serviços de um médico e recorria ao doutor Triolet, para que lhe prescrevesse algo; muitas vezes essas preparações iam parar nas mãos do doente sem custo algum”.

Os documentos, que vão de 1882 a 1964, registram mais de um milhão de fórmulas médicas, com detalhes como o nome do médico que prescreveu cada uma, o preço e a data de recepção. Foto: Giselle Bello Muñoz/Jornal Girón

A coleção reúne prescrições de diversas firmas renomadas da medicina, como o eminente cientista cubano Carlos J. Finlay, o doutor e general da Guerra de Independência Pedro Betancourt Dávalos, os doutores Alfredo Carnot D’ Lisle e Armando Carnot Veunles, pai e filho, e todos os médicos da conhecida família Font, precisou Brito.

Do mundo a Cuba: a evolução da farmácia nacional

A coleção mostra como a botica incorporou gradualmente plantas e remédios locais, fundindo conhecimentos europeus e tradicionais. “No início, as matérias-primas eram importadas, mas depois foram integradas ervas cubanas e contribuições de pessoas escravizadas”, explicou a diretora da instituição.

Incluso hoje, mais de 90 % das substâncias descritas no primeiro volume se conservam no museu, o que permitiria preparar fórmulas de 1882.

“Se aprecia também o surgimento do que considero a botica cubana. O doutor Triolet vinha da escola de Paris, seu sócio, o doutor Juan Fermín Figueroa, da de Madrid, e sua esposa, a doutora Dolores Figueroa, primeira mulher cubana a se formar em Farmácia, havia estudado em Nova York”, rememorou.

No início, todas as matérias-primas, sobretudo as plantas, são importadas, pois vêm de um ambiente absolutamente distinto. Depois, pouco a pouco vão incorporando as ervas da ilha e as substâncias nativas. Também se observa como as pessoas escravizadas contribuem para isso, pois faziam parte da comunidade a que serviam e traziam seus próprios remédios para serem preparados aqui. A mistura que é nossa identidade também se dá nas ciências”, contou Brito.

Os fundos documentais do Museu Farmacêutico incluem também mais de 800.000 etiquetas de medicamentos originais e uma biblioteca com títulos fundamentais das farmacopeias francesa, espanhola e norte-americana, publicados entre o final do século XIX e o início do XX.

A instituição arquiva, além disso, o registro econômico completo da botica e documentos da papelada privada da família Triolet.

Histórias curiosas: o anticatarro para Máximo Gómez

Entre as anedotas destacadas está a receita prescrita ao Generalíssimo Máximo Gómez (1836-1905), que estava em um trajeto de Oriente até Havana e adoeceu de resfriado na cidade de Cienfuegos.

Segundo consta no livro de assentamento, o doutor Curbelo, seu médico pessoal, prescreveu um xarope que foi preparado na farmácia e ajudou o líder a se recuperar e continuar sua viagem. “Não aparece registrado o preço, assim, não cobraram o general”, comentou Brito.

Reconhecimento internacional

O anúncio oficial da Unesco foi feito no dia 27 de março, acompanhado de uma homenagem com música, poesia e a presença de herdeiros da família Triolet.

Anne Lemaistre, diretora regional da Unesco, considerou o museu “uma joia na América Latina, excepcional em sua autenticidade e extremamente bem conservado”.

Con este reconhecimento, os livros de receitas se consolidam como um patrimônio inestimável, não apenas para Cuba, mas para a memória científica e cultural do mundo.

A Botica Francesa foi fundada em primeiro de janeiro de 1882 por Ernesto Triolet Lelievre, natural de Lissy, França. Localizada em um lugar privilegiado da conhecida como Atenas de Cuba, em frente à Praça de Armas, resultou em um edifício de três andares, representando o neoclassicismo na arquitetura doméstica matancera do final do século XIX.

Após mudanças e adaptações, passou a ser o Museu Farmacêutico em 30 de abril de 1964. Foi declarado Monumento Nacional em 2007.

De acordo com pesquisadores, a qualidade dos produtos preparados na farmácia francesa era reconhecida pela população. Uma demonstração disso foi o convite a Triolet, junto com outros importantes comerciantes cubanos, para participar da Exposição Universal de Paris, em 1900.

O doutor Triolet viveu em Cuba por mais de 30 anos e morreu na capital francesa no dia 19 de dezembro de 1900, vítima de pneumonia. Seus restos foram conduzidos provisoriamente ao Cemitério de Montparnasse e depois transferidos para Matanzas, onde foi enterrado no panteão da família, no cemitério San Carlos.

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