Teatro Sauto, microcosmos da debacle em Cuba: Pessoa com problemas mentais causa danos no coliseu de Matanzas

O emblemático coliseu matancero sofre vandalismo e outras agressões, com doentes mentais vagando por suas instalações. Um homem com demência irrompeu violentamente no teatro, evidenciando a falta de proteção para o patrimônio cultural e a crise na saúde mental no país.

Agresiones cidadãs e negligência estatal ameaçam o patrimônio do teatro SautoFoto © Raúl Navarro/Periódico Girón

Vídeos relacionados:

Uma pessoa com demência causou danos no Teatro Sauto, joia arquitetônica da cidade de Matanzas e Monumento Nacional, ao arrombar recentemente uma porta do átrio e acessar o interior do recinto cultural.

“Por sorte, apenas causou danos menores. Embora tenha sido detido temporariamente, este senhor continua a comparecer agitado pelos delírios que sua doença lhe provoca, o que coloca em risco nossa integridade”, informou a
direção do teatro nesta terça-feira em uma publicação em suas redes sociais.

A emblemática instituição demonstrou preocupação com a presença constante de pessoas com problemas mentais e sem-teto que buscam abrigo nos espaços do coliseu.

Captura do Facebook/Teatro Sauto

“Com profunda tristeza, observamos a presença cada vez maior de pessoas em situação de rua que buscam abrigo em nosso portal, na falta de outro mais digno”, indicou o teatro através de sua página no Facebook.

Nos últimos anos a pobreza extrema cresceu em Cuba, devido à profundização da crise multissistêmica que o país enfrenta, e as pessoas não conseguem satisfazer necessidades básicas como a alimentação, transporte, acesso a medicamentos e atendimento médico adequado. Também se verifica um aumento nas adições e no uso de várias drogas.

Um reportagens exibida pelo Canal Caribe considerou as adições como a principal causa do aumento da mendicância no país, mas evitou mencionar as causas estruturais e o fracasso do estado em enfrentar a crise econômica que se prolonga por mais de três décadas.

Agressões ao patrimônio

Em vésperas do seu 162º aniversário, o teatro Sauto se queixou de que diariamente enfrenta desde vandalismo em suas paredes até o uso de seus portais como banheiros públicos, enquanto as autoridades cubanas parecem desviar o olhar.

Inscrições grosseiras, marcas de pés e propaganda colada em nossos muros; lixo jogado através das grades –às vezes, ‘enfiado’ penosamente por espaços estreitos–, até fezes diversas, nos ferem diariamente”, lamentou.

A soma de agressões ao colosso cultural inclui a utilização dos portais como banheiro público, enquanto bicicletas, motos e motorinas costumam ser estacionadas no local, “e muitos de seus condutores têm respondido de forma desrespeitosa aos nossos funcionários”.

Mas a negligência governamental também se faz presente. A cafeteria adjacente, administrada pela empresa estatal Artex, danifica o patrimônio com música em alto volume e descaso.

“A falta de iluminação na Praça da Vigía e os cortes frequentes de energia elétrica agravam essa situação, assim como a ausência total de vigilantes noturnos nesse entorno patrimonial, o que tem favorecido delitos como o roubo das correntes que simbolicamente fechavam nossos portais e os do vizinho Museu Provincial”, destacou.

“Esta desproteção nos expõe a agressões ainda mais violentas”, alertou, referindo-se à agressão denunciada no post.

“Apesar dos muitos esforços internos em prol da segurança e conservação deste monumento da nação cubana que é o Sauto, sem o respeito da cidadania e o compromisso de nossas instâncias de administração e salvaguarda, a beleza, glória e serviço da principal instituição cultural de Matanzas não estão assegurados”, concluiu.

Foto: Raúl Navarro/Periódico Girón

Responsabilidade estatal

Vários cibernautas concordaram que não se trata apenas de um problema da cidadania.

Nos comentários da publicação, o artista Adrián Socorro questionou que o governo da ilha destine recursos para militarizar praças a fim de reprimir protestos, enquanto o patrimônio cultural fica abandonado.

“El Parque de la Libertad (também em Matanzas) está sitiado há mais de um ano. A maioria das pessoas nos bancos está de guarda, caso o inimigo (o cubano) decida protestar, o que justificaria plenamente. Se a mesma determinação em reprimir e assediar fosse aplicada a este problema... se esse fosse de fato uma prioridade para eles”, apontou Socorro em alusão às ações repressivas contra a professora e historiadora Alina Bárbara López Hernández.

A intelectual matancera é conhecida por sua postura crítica em relação ao governo cubano e sua defesa dos direitos humanos, e tem sido vítima constante de assédio por parte da Segurança do Estado devido ao seu ativismo e participação em protestos pacíficos.

Outros comentários sobre a publicação do Sauto confirmaram que o Teatro Principal da cidade de Camagüey enfrenta problemas semelhantes, com um parque adjacente que se tornou um campo de futebol onde se ouvem agressões verbais. “E ninguém toma providências, já está informado a todas as instâncias, mas ninguém coloca o sino no gato, assim estão os teatros emblemáticos do país”, sublinhou o cibernauta Greg Márquez.

Especialistas em conservação apontam que o Escritório do Conservador de Matanzas carece dos recursos que sua homóloga em Havana possui.

Enquanto Edelys Barrios lamenta “que todo o nosso patrimônio está se destruindo e algum dia nossos tataranetos sofrerão pelas belezas que nossa linda cidade perdeu”, as palavras de Yasmani Luis Leal ressoam como um epitáfio: “A cada dia minha cidade morre diante da falta de sentido de pertencimento e de amor pela cidade que sempre nos acolheu, muito triste tudo isso. Continuaremos sendo A Antena de Cuba?”.

Fundado em 6 de abril de 1863 durante a época colonial, o Sauto é considerado o mais elegante e funcional dos teatros cubanos do século XIX, tornando-se um símbolo da cidade de Matanzas. Em 10 de outubro de 1978, foi declarado Monumento Nacional.

Perguntas frequentes sobre o deterioro do patrimônio cultural em Cuba

O que ocorreu recentemente no Teatro Sauto de Matanzas?

Uma pessoa com problemas mentais causou danos menores no Teatro Sauto, em Matanzas, ao forçar uma porta do vestíbulo e invadir o recinto. Este incidente é mais um exemplo dos desafios que o coliseu enfrenta, incluindo o vandalismo e o uso indevido de suas instalações. A situação reflete a crescente presença de pessoas em situação de rua em busca de abrigo, devido à crise econômica em Cuba.

Qual é a situação geral dos teatros e monumentos em Cuba?

La situación de los teatros y monumentos en Cuba es crítica, enfrentando deterioração por falta de manutenção e vandalismo. Instituciones como el Teatro Sauto y el Museo de Arte de Matanzas han sufrido daños considerables, debido a que el gobierno cubano no asigna recursos suficientes para su protección y restauración.

Como a crise econômica de Cuba se relaciona com o aumento do número de pessoas sem-teto?

A crise econômica em Cuba levou a um aumento da pobreza extrema e, como resultado, mais pessoas estão vagando em busca de abrigo em locais públicos, como o Teatro Sauto na cidade de Matanzas. A impossibilidade de muitos cubanos de satisfazer necessidades básicas como alimentação, transporte e atendimento médico agravou esse problema social.

Arquivado em:

Equipe Editorial da CiberCuba

Uma equipe de jornalistas comprometidos em informar sobre a atualidade cubana e temas de interesse global. No CiberCuba, trabalhamos para oferecer notícias verídicas e análises críticas.